6.2- 4 de outubro – 27º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
A vinha
de Deus e os bons frutos
1.
INTRODUÇÃO GERAL
A imagem da vinha
atravessa os textos sagrados deste domingo. A vinha fértil, amada e cuidada
pelo proprietário contrasta com as “uvas azedas” de quem não consegue traduzir
o amor recebido na prática cotidiana de amar. Ao contar a parábola dos
vinhateiros violentos, Jesus denuncia a dissimulação das autoridades judaicas
que oprimiam o povo e se achavam “donas da vinha”. A vinha é de Deus, e nós
somos seus colaboradores. Trata-se de configurar a vida nova apontada por São Paulo,
que enumera as qualidades específicas a serem cultivadas por aqueles que formam
a comunidade dos discípulos de Jesus.
1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1.
I leitura (Is 5,1-7)
O trecho da profecia de
Isaías se assemelha a um canto de amor, dividido em estrofes que apresentam
tensão e harmonia. De fato, a leitura se inicia evocando a imagem do “amigo do
esposo” – a forma como o profeta se apresenta – por meio da parábola da vinha
fértil: “Um amigo meu possuía uma vinha em fértil encosta. Cercou-a, limpou-a
de pedras, plantou videiras escolhidas, edificou uma torre no meio e construiu
um lagar; esperava que ela produzisse uvas boas” (v. 1-2). É interessante
ressaltar os verbos utilizados pelo proprietário da vinha: cercar, limpar,
plantar, edificar, construir, esperar.
Logo a decepção
apareceu. Em vez de produzir uvas boas, a vinha “produziu uvas selvagens” (v.
2). A desilusão veio em forma de questionamento: “O que eu poderia ter feito a
mais por minha vinha e não fiz?” (v. 4). O lamento do proprietário se assemelha
bastante ao desapontamento de alguém que amou muito e não teve seu amor
correspondido. Os verbos que acompanham a decisão de abandonar a vinha também
são fortes: desmanchar, devastar, derrubar, pisotear, deixar... O proprietário
não conseguiu mais esperar pelas uvas boas. Esperar se tornou uma frustração.
A imagem da vinha que
não produziu uvas é, certamente, simbólica. Trata-se do povo de Israel,
resgatado e cuidado por Deus qual vinha sagrada. Os frutos esperados por Deus
eram as boas obras, a escolha do caminho do bem e da fidelidade à aliança; no
entanto, o que apareceu foi sangue, ódio, divisão, mentira, falsas acusações a
Deus, vida religiosa apegada a exterioridades e ritualismos, verdadeiras “uvas
azedas”: “eu esperava deles frutos de justiça – e eis injustiça; esperava obras
de bondade – e eis iniquidade” (v. 7).
2. II leitura (Fl 4,6-9)
Como a videira está
unida aos ramos, São Paulo recorda à comunidade de Filipos que o seguidor de
Jesus deve permanecer unido a Ele na oração: “apresentai as vossas necessidades
a Deus, em orações e súplicas, acompanhadas de ação de graças” (v. 6). A oração
é o elã, aquilo de mais consistente que pode sustentar a fé e guiar no caminho
da vivência da Palavra de Deus.
Ao permanecerem unidos a
Cristo, sustentados pela intimidade da vida de oração, os cristãos configuram
um novo estilo de vida. São Paulo enumera algumas das “qualidades” que marcam a
nova identidade do seguidor de Jesus: “ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro,
respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer
modo mereça louvor” (v. 8). Não é fácil assumir essas atitudes, possíveis
apenas se estamos bem unidos a Cristo.
De fato, o testemunho, a
coragem e a autenticidade de São Paulo só podem ser compreendidos à luz do Evangelho
de Jesus Cristo, que o apóstolo buscou viver e comunicar, tornando-se – para
aquela comunidade e para nós – um modelo fundamental para a vivência da fé.
3. Evangelho (Mt 21,33-43)
Deus criou o mundo como
um jardim, na harmonia, na conexão, no equilíbrio (Gn 1). De fato, o jardim, no
Cântico dos Cânticos, é onde se dá o encontro do amado e da amada – portanto, é
o lugar do amor. No Evangelho de João, Maria Madalena vai ao túmulo para ver o
corpo de Jesus morto, sem saber da ressurreição, e, na entrada, confunde Jesus
com um jardineiro (Jo 20,11-18). Jesus é o jardineiro da nova criação! A vinha
é o projeto, é o jardim que Deus sonhou.
O Evangelho deste
domingo retoma a parábola contada por Jesus sobre um proprietário que plantou,
cuidou e arrumou tudo, para que sua vinha tivesse todo o necessário para
produzir uvas boas, e, em seguida, confiou-a a alguns vinhateiros. Aconteceu
que, no tempo da colheita, como estava distante, esse proprietário enviou seus
servos para recolher os frutos, mas os vinhateiros os receberam com violência:
apedrejaram alguns e assassinaram outros. O dono da vinha aguardou com
paciência e, mais adiante, enviou outros servos, que foram recebidos com a
mesma violência. Por fim, fez uma última tentativa: enviou seu filho para, com
a autoridade de herdeiro, buscar os frutos. Também o filho foi morto.
Jesus contou a parábola
aos doutores da Lei e aos chefes dos sacerdotes, ou seja, ela era direcionada a
um grupo que se achava acima de todas as normas, com autoridade sobre todas as
“vinhas”. A vinha é do Pai, e todos somos colaboradores. Ninguém é dono! A
parábola retoma toda a história de Israel: os profetas foram enviados para
resgatar a vinha perdida, e, depois, também Jesus, o Filho amado. Todos foram
mortos pelas autoridades, que trabalhavam para sustentar o próprio poder.
Tudo que vivemos faz
parte de um grande plano de amor, de uma grande vinha sonhada por Deus. A vinha
convida ao equilíbrio do cuidado, à tarefa de fazer da vida uma “uva boa”. Os
frutos bons não são atitudes isoladas, mas dependem do jardim inteiro, de uma
conexão de vidas, de uma rede na qual é possível reconhecer Deus passeando no
vento fresco de cada tarde (Gn 3,8).
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
A imagem da vinha nos
convida a aprofundar a vida cristã naquilo que significa produzir “uvas boas”.
A fé exige a prática da fé, a configuração de um estilo de vida. Qual é a
qualidade da “uva” que eu sou? Que tipo de frutos minha comunidade está
produzindo? A vivência da fé não pode ser confundida com ativismo. Como estou permitindo
que Deus me ajude a produzir frutos para seu Reino? Quais espaços estou abrindo
para que Deus possa trabalhar na vinha que eu sou?
Pe.
Ms. Maicon André Malacarne*
*Maicon André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS,
pároco na paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na
Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela
Pontifícia Academia Alfonsiana, de Roma. E-mail: maiconmalacarne@gmail.com
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