sábado, 22 de julho de 2023

REFLEXÃO DOMINICAL II "O TESOURO DO REINO"

 

 

REFLEXÃO DOMINICAL II

"O TESOURO DO REINO"

Certa ocasião, eu quase caí no “conto do vigário”: era final de ano e uma mulher com aparência humilde me abordou em uma rua próxima à rodoviária de Sorocaba, oferecendo-me duas barras de ouro, enroladas em uma toalha e guardadas em uma caixa de sapatos. “Olha moço, o senhor vai passar um natal muito abençoado, vai poder comprar o que quiser, faço um precinho bom, só para eu matar a fome das minhas netinhas, que hoje ainda não se alimentaram”. Apresentou-me Nota Fiscal e ainda o certificado de garantia, emitido por uma mineradora do Pará, de onde acabara de chegar.

Um pouco levado pela chantagem emocional, das crianças que choramingavam de fome, pedindo para comer, mas também e principalmente, pela possibilidade de eu ficar rico em questão de minutos, a imaginação começou a trabalhar, admitindo o que eu poderia fazer com aquele ouro, caso as barras fossem mesmo verdadeiras, coisa que eu já estava começando a acreditar.

Se fosse mesmo verdade, o negócio seria excelente, ali estava naquele caixa de papelão, a minha sonhada casa própria, o carro novo, as dívidas todas quitadas, um natal e primeiro de ano de muita fartura, e ainda uma boa “gordura” para aplicar no mercado, pois o preço do ouro, naquele tempo estava alto. Mas o problema era o valor pedido pela compra, que eu não tinha, e vendo que ainda vacilava um pouco, a “generosa” mulher disse de modo muito humilde “Deus está me revelando que o senhor será abençoado, vamos fazer uma coisa, quanto o senhor tiver eu aceito, nem que seja metade da metade desse valor..., barras de ouro depois meus filhos que são garimpeiros, me arranjam mais, mas a fome dessas crianças, não pode esperar...”

Para minha sorte estava com cheque, e tinha acabado de sair do banco onde peguei o saldo, composto do salário do mês, mais o abono completo e metade do valor das férias, com um pouco de dor na consciência, falei para ela que o valor que eu tinha era irrisório, mas ela aceitou e deu um sorriso; “fazê o que, né moço, pode ser...”. Mas neste momento uma viatura parou perto de nós e a pobrezinha da mulher saiu em disparada, levando para sempre minhas sonhadas barras de ouro...

Uma pessoa ingênua, mas também ambiciosa de um lucro fácil, acaba caindo facilmente nesse conto do vigário, aplicados por malandros e malandras muito bem treinados, a gente fica até indignado quando vê isso acontecer, e perguntamo-nos como é que pode uma pessoa cair em um conto desses... Acontece, porém, que o golpista só aborda as pessoas certas, isso é, aquelas que sonham em ficar ricas da noite para o dia, apossando-se de grande fortuna. Em se tratando da nossa vida de fé, como discípulos de Jesus, corremos esse mesmo risco, e muita gente convertida cai em cada golpe, pior do que o conto do vigário.

Quando se trata de bens materiais, buscamos aquilo que vale mais, nem que isso signifique dar em troca, tudo o que temos, no meu caso, toda minha economia de final de ano, achava que era pouco, perto do que aquelas barras de ouro iriam me oferecer, caso fossem mesmo verdadeiras...

A pessoa que não tem o discernimento do espírito, dado pela sabedoria que vem do alto, facilmente deixa de lado os valores do Reino de Deus, para correr atrás de quinquilharias que nada valem, e o que é pior, muitos passam a vida inteira iludidos, em função de algo que parece ser um tesouro, mas que um dia descobrem como eu descobri a tempo, graças a Deus, que se trata de um ouro falso e sem nenhum valor.

Os dois personagens da parábola do evangelho, quando descobrem a preciosidade do tesouro escondido, e a beleza de uma pérola rara, escondida no meio das outras, não pensam duas vezes para colocar aquilo que realmente é valioso, como a única prioridade em sua vida.

O que mais vale nesta vida não é a riqueza, prestígio, fama, sucesso, poder, luxo e conforto, mas sim o amor de Deus, que na salvação oferecida em Jesus, nos dá a alegria da sua graça. Mas para entender isso, é necessário ter o discernimento do espírito, e a sabedoria que vem do alto, Salomão compreendeu que o mais importante é ser sábio diante de Deus, para saber fazer as escolhas certas, e fazer nesta vida, a opção certa, a favor do Reino de Deus.

É esse discernimento que nos permite separar na rede da vida, aquilo que realmente é bom e tem valor, entendendo que o resto é peixe estragado, que não serve para nada.

Tudo parece diante de nós um único tesouro, é preciso tirar apenas aquilo que é novo, esse novo é Jesus Cristo, Salvador e Redentor nosso, o único e verdadeiro tesouro, pelo qual vale a pena dar tudo o que temos e somos, para que em nossas relações com o próximo, sejamos cada vez mais imagem e semelhança daquele que nos predestinou.

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  
jotacruz3051@gmail.com

 

http://www.npdbrasil.com.br/religiao/rel_hom_gotas0342.htm#msg02

REFLEXÃO DOMINICAL III O Reino dos céus é como um tesouro escondido! | MT 13, 44-52

 

REFLEXÃO DOMINICAL III

O Reino dos céus é como um tesouro escondido! | MT 13, 44-52

 

Por Pe. Almerindo da Silveira Barbosa

 

O texto evangélico deste domingo (Mt 13,44-52), mais uma vez, conta-nos três parábolas: o tesouro escondido; pérolas preciosas; rede lançada ao mar. Com elas concluímos o capítulo treze do Evangelho de Mateus e o coroamento das parábolas do Reino dos céus.

 

Nas parábolas do evangelho rezado Jesus chama a nossa atenção para a atitude que temos que cultivar diante do reino de Deus, que é a disposição que precisamos ter para ficar com o bem maior em nossa vida, que é o Reino dos céus e a praticarmos a justiça, não segundo os nossos critérios, mas segundo os critérios de Deus.

 

O Reino de Deus é a pérola preciosa, esse tesouro escondido, que precisa ser buscado com alegria. Mesmo sabendo que ele já nos foi revelado por Jesus, diante da sua grandeza, ainda precisamos descobrir, acolher e viver. Quem o encontra, encontra o verdadeiro sentido para sua vida. É preciso, portanto, procurá-lo sempre. Por isso rezamos, com Jesus, ao Pai: “venha a nós o vosso Reino!”.

 

Diante do que propõe a Palavra de Deus, somos chamados a nos questionar se já encontramos o tesouro do Reino de Deus, senão, o que nos falta? Em que estamos nos apegando que não conseguimos ter esse tesouro em nossa vida? O que precisamos fazer para tomar posse dele? O que nos faltam para viver o Reino como uma realidade concreta em nossa existência?

 

Lembremos de que o Reino de Deus é essa realidade do “já e do ainda não”. Ele já acontece em nossa vida, através do nosso modo de ser, sendo pessoas fraternas, acolhedoras, amorosas, ternas, solidárias, etc. Mas é também uma realidade que somente veremos, tal como é, na glória dos céus, diante de Deus, quando Deus for tudo em todos.

 

Cabe-nos, portanto, conscientizar de que precisamos, através das boas ações, iniciar a construção do Reino de Deus no mundo, para finalizarmos diante do trono de Deus, a glória eterna. Não podemos ficar tranquilos e acomodados esperando o fim da vida para contemplarmo-lo. Ele se faz aqui, desde já, sendo construído passo a passo com nossa maneira de ser e de estar no mundo.

 

https://www.blogdacatequese.com.br/post/reflex%C3%A3o-do-evangelho-o-reino-dos-c%C3%A9us-%C3%A9-como-um-tesouro-escondido-mt-13-44-52

RELIGIÃO Você sabia que a Igreja Católica é constituída por 24 Igrejas autônomas?

 

 

RELIGIÃO

Você sabia que a Igreja Católica é constituída por 24 Igrejas autônomas?

 

Aleteia Brasil 

Pois é! A Igreja Católica não se limita ao rito romano: ela é uma grande comunhão de 24 Igrejas, sendo 1 ocidental e 23 orientais

Você sabia que a Igreja Católica é atualmente constituída por 24 Igrejas autônomas “sui juris”?

Pois é! A Igreja Católica não se limita ao rito romano. Ela é uma grande comunhão de 24 Igrejas, sendo 1 ocidental e 23 orientais.

O ramo ocidental é representado pela tradição latina da Igreja Católica Apostólica Romana. É chamado “ocidental” por conta da localização geográfica de Roma e não porque a sua presença se restrinja a países do Ocidente: na verdade, a Igreja Católica de rito romano está presente no mundo inteiro e tem dioceses em todos os continentes, de Portugal ao Japão, do Brasil à Rússia, de Angola à China, do Canadá à Nova Zelândia.

As Igrejas católicas orientais também têm fiéis espalhados pelo mundo, mas, por razões históricas, estão mais fortemente presentes nos lugares onde surgiram. Possuem tradições culturais, teológicas e litúrgicas diferentes, bem como estrutura e organização territorial própria, mas professam a mesma e única doutrina e fé católica, mantendo-se, portanto, em comunhão completa entre si e com a Santa Sé.

Todas as 24 Igrejas que compõem a Igreja Católica são consideradas Igrejas “sui juris”, ou seja, são autônomas para legislar de modo independente a respeito de seu rito e da sua disciplina, mas não a respeito dos dogmas, que são universais e comuns a todas elas e garantem a sua unidade de fé – formando, na essência, uma única Igreja Católica obediente ao Santo Padre, o Papa, que a todas preside na caridade.

A legislação de cada Igreja “sui juris” é estudada e aprovada pelo seu respectivo sínodo, ou seja, pela reunião dos seus bispos sob a presidência do seu arcebispo-maior ou patriarca. Por exemplo, a Igreja Melquita é presidida por um patriarca, enquanto a Igreja Greco-Católica Ucraniana por um arcebispo-maior. O rebanho dos fiéis católicos de rito latino é guiado diretamente pelo Papa Francisco, bispo de Roma, que é também o líder de toda a grande comunhão da Igreja Católica em suas diversas tradições.

É muito comum até hoje, em especial no Ocidente, confundir a Igreja Católica com o rito latino, um erro que vem acontecendo há séculos e que, ao longo da história, já causou sérios prejuízos aos católicos de ritos orientais. O que é preciso entender é que todos os católicos latinos são, obviamente, católicos; mas nem todos os católicos são católicos latinos. E esta é mais uma das tantíssimas riquezas do infinito tesouro da Igreja que é Una, Santa, Católica e Apostólica!

O Concílio Vaticano II reconheceu que todos os ritos aprovados pelas Igrejas que formam a Igreja Católica têm a mesma dignidade e direito e devem ser preservados e promovidos.

Aliás, por falar em rito, outra confusão frequente é feita entre o rito latino e o rito romano: os termos costumam ser usados como sinônimos, mas, tecnicamente, além do rito romano, também existem outros ritos latinos de certas Igrejas locais, como o ambrosiano, e os de algumas ordens religiosas, além do rito tridentino. Mas eles não estão vinculados a Igrejas autônomas “sui juris“, sendo diferentes ritos dentro da mesma tradição latina da Igreja Católica. Quanto aos ritos orientais, as diferenças são mais marcadas pela diversidade de tradições e há vínculos históricos entre os ritos e as Igrejas “sui juris” específicas que os adotam: são eles o alexandrino ou copta, o bizantino, o antioqueno ou siríaco ocidental, o caldeu ou siríaco oriental, o armênio e o maronita.

Mas quais são, afinal, as Igrejas “sui juris” que formam a Igreja Católica? Eis a impressionante lista:

DE RITO OCIDENTAL

Tradição litúrgica latina ou romana:

  1. Rito latino da Igreja Católica Apostólica Romana (sede em Roma)

DE RITOS ORIENTAIS

Tradição litúrgica alexandrina:

  1. Igreja Católica Copta (patriarcado; sede no Cairo, Egito)
  2. Igreja Católica Etíope (metropolitanato; sede em Adis Abeba, Etiópia)
  3. Igreja Católica Eritreia (metropolitanato; sede em Asmara, Eritreia)

Tradição litúrgica bizantina:

  1. Igreja Greco-Católica Melquita (patriarcado; sede em Damasco, Síria)
  2. Igreja Católica Bizantina Grega (eparquia; sede em Atenas, Grécia)
  3. Igreja Católica Bizantina Ítalo-Albanesa (eparquia; sede na Sicília, Itália)
  4. Igreja Greco-Católica Ucraniana (arcebispado maior; sede em Kiev, Ucrânia)
  5. Igreja Greco-Católica Bielorrussa (também chamada Católica Bizantina Bielorussa)
  6. Igreja Greco-Católica Russa (sede em Novosibirsk, Rússia)
  7. Igreja Greco-Católica Búlgara (eparquia; sede em Sófia, Bulgária)
  8. Igreja Católica Bizantina Eslovaca (metropolitanato; sede em Prešov, Eslováquia)
  9. Igreja Greco-Católica Húngara (metropolitanato; sede em Nyíregyháza, Hungria)
  10. Igreja Católica Bizantina da Croácia e Sérvia (eparquia; sedes em Križevci, Croácia, e Ruski Krstur, Sérvia)
  11. Igreja Greco-Católica Romena (arcebispado maior; sede em Blaj, Romênia)
  12. Igreja Católica Bizantina Rutena (metropolitanato; sede em Pittsburgh, Estados Unidos)
  13. Igreja Católica Bizantina Albanesa (eparquia; sede em Fier, Albânia)
  14. Igreja Greco-Católica Macedônica (exarcado ou exarquia; sede em Escópia, Macedônia)

Tradição litúrgica armênia:

  1. Igreja Católica Armênia (patriarcado; sede em Beirute, Líbano)

Tradição litúrgica maronita:

  1. Igreja Maronita (patriarcado; sede em Bkerke, Líbano)

Tradição litúrgica antioquena ou siríaca ocidental:

  1. Igreja Católica Siríaca (patriarcado; sede em Beirute, Líbano)
  2. Igreja Católica Siro-Malancar (arcebispado maior; sede em Trivandrum, Índia)

 Tradição litúrgica caldeia ou siríaca oriental:

  1. Igreja Católica Caldeia (patriarcado; sede em Bagdá, Iraque)
  2. Igreja Católica Siro-Malabar (arcebispado maior; sede em Cochim, Índia)

https://pt.aleteia.org/2016/08/02/voce-sabia-que-a-igreja-catolica-e-constituida-por-24-igrejas-autonomas/

VOCAÇÃO À VIDA

 

 

VOCAÇÃO À VIDA

 

 

Dom Edney Gouvêa Mattoso
Bispo de Nova Friburgo (RJ)

 

Caros amigos, Deus em sua obra criadora dá o ser e a vida a tudo o que existe; forma o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, fazendo-os sinais visíveis e instrumentos eficazes de sua gratuidade e liberdade.

Nas primeiras páginas da Sagradas Escrituras lemos que Deus chama o homem à vida quando lhe inspira nas narinas o sopro da existência (cf. Gn 2,7). Este chamado é perpetuado mediante a cooperação livre e responsável dos esposos no gravíssimo dever de transmissão da vida humana (cf. Humanae vitae, 1). Por meio do dom da fecundidade, o homem participa do poder criador e da paternidade divina (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2367).

Toda a obra criadora manifesta o amor de Deus, e de modo mais pleno a vida que é dada ao homem, assim como a vocação a uma participação no seu próprio ser. É no seio da família, de onde emana a vida, que encontramos o reflexo deste amor criador (cf. Gratissimam Sane, 2).

Deus nos conhece antes mesmo de sermos concebidos no seio materno, antes de nosso nascimento nos consagrou e deu-nos uma missão (cf. Jr 1,5). É verdade que não pedimos para nascer, mas todos os dias somos impulsionados a uma resposta livre ao chamado amoroso de Deus. A vida é nossa primeira vocação!

A Igreja crê e ensina que a vida humana, mesmo se débil e com sofrimento, é sempre um esplêndido dom da Criação. Contra o pessimismo e o egoísmo que obscurecem o mundo, a Igreja está do lado da vida: e em cada ser humano sabe descobrir o esplendor do Sim do próprio Cristo (cf. Familiaris Consortio, 30).

Contudo, vivemos um contexto social e cultural que torna cada dia mais difícil essa compreensão. O progresso técnico-científico gera uma angústia profunda quanto ao futuro e um fechamento no estreito horizonte da dimensão biológica da vida. Estes dois caminhos confluem para a construção de um homem que se torna senhor da vida e da morte, incapaz de captar o caráter transcendente do seu existir como ser humano. “A vida torna-se simplesmente ‘uma coisa’, que ele reivindica como sua exclusiva propriedade, que pode plenamente dominar e manipular” (Evangelium vitae, 22).

O Papa Francisco denuncia que a difundida mentalidade do útil, da cultura do descarte, que escraviza os corações e as inteligências, reduz as relações interpessoais ao interesse de troca e exige a eliminação de seres humanos que não contribuem com a produtividade individual ou social (cf. Discurso aos ginecologistas católicos).

A esta contemporânea mentalidade diabólica contrapõe-se a verdade Evangélica – “eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10) – que reconhece na vida humana a dimensão transcendente, o sinal da obra criadora de Deus.

Num mundo onde se fabricam cada vez mais armas e leis que atentam contra a vida, é urgente o nosso SIM decidido e sem hesitações em sua defesa, desde a concepção até a morte natural.

 https://www.cnbb.org.br/vocacao-a-vida/

SANTO AGOSTINHO E A SABEDORIA POLÍTICA

 

SANTO AGOSTINHO E A SABEDORIA POLÍTICA

Por Alexsandro M. Medeiros

 

            Santo Agostinho foi um dos mais importantes teólogos e filósofos do período da filosofia cristã conhecido como patrística. Influenciado pelo maniqueísmo (de cuja doutrina mais tarde se tornará um grande crítico) e pelo neoplatonismo, Agostinho se converteu ao cristianismo e chegou a ser bispo em Hipona, cidade romana da África. Suas obras mais conhecidas são: Confissões e A Cidade de Deus (De Civitate Dei).

            A Filosofia de Santo Agostinho foi elaborada com base em uma aproximação entre o neoplatonismo de Plotino e Porfírio e a doutrina cristã, o assim chamado, platonismo cristão. Mas o verdadeiro e legítimo conhecimento é a teologia, e é a esses ensinamentos que o homem deve dedicar-se, pois prepara sua alma para a salvação e para a visão de Deus.

            Por influência platônica, Agostinho distingue dois tipos de conhecimento: o conhecimento através dos sentidos que é imperfeito, mutável; e o conhecimento das essências imutáveis. Todavia, se, para Platão, o conhecimento das essências imutáveis é possível a partir da teoria da reminiscência, segundo a qual a alma teria contemplado as essências no mundo das ideias antes da vida presente, Agostinho irá adaptar essa explicação à teoria da iluminação. O ser humano receberia de Deus o conhecimento das verdades eternas, o que não significa desprezar o próprio intelecto, pois, como o Sol, Deus ilumina a razão e torna possível o pensar correto. O saber, portanto, não é transmitido pelo mestre ao aluno, já que a posse da verdade é uma experiência que não vem do exterior, mas de dentro de cada um. Isso é possível porque “Cristo habita no homem interior”. Toda educação é, dessa forma, uma autoeducação, possibilitada pela iluminação divina (ARANHA, 2006, p. 178).

 

            Dentre os aspectos fundamentais da contribuição de Santo Agostinho para o desenvolvimento da Filosofia podemos mencionar: sua formulação das relações entre a teologia e a filosofia, entre fé e razão; sua teoria do conhecimento com ênfase na questão da subjetividade e da interioridade; suas reflexões sobre a moral; sua teoria da história e política, elaborada na obra Cidade de Deus. Vejamos algumas destas questões.

 

O problema da moral

            A obra prima de Santo Agostinho, as Confissões, revela um homem profundamente voltado para a sua interioridade e para esse grande mistério que é o homem, pondo a nu o seu espírito e o intenso drama vivido interiormente por ele mesmo, para alcançar um mais alto grau de espiritualidade. Esse mergulho na nossa interioridade mostra-nos a nossa real essência, revela-nos que há dentro de nós algo de mais profundo que o nosso eu exterior e é dentro desta perspectiva de uma filosofia introspectiva que Agostinho agrega uma série de conceitos fundamentais, sendo um deles precisamente a ética.

            A moral agostiniana é teísta e cristã. A nota característica da sua moral é a primazia do prático, da ação, contrariamente ao primado do teorético, do conhecimento. Além disso, a virtude não é uma ordem de razão, hábito conforme à razão, como dizia Aristóteles, mas uma ordem do amor. É fácil constatar em sua obra Confissões que a essência do homem está no amor: ama et fac quod vis (ama e faça o que quiseres).

        Entretanto a vontade é livre, e pode querer o mal, pois somos um ser limitado, podendo agir desordenadamente, imoralmente, contra a vontade de Deus e, por isso, o problema do mal tem um lugar de destaque nas reflexões do bispo de Hipona.

 

O problema do mal

            Agostinho foi profundamente impressionado pelo problema do mal – de que dá uma vasta e viva fenomenologia. Se tudo provém de Deus, que é o Bem e fonte de todas as coisas, de onde provém o mal? A solução deste problema por ele achado foi a sua libertação e a sua grande descoberta filosófico-teológica. Antes de tudo, Agostinho nega a realidade metafísica do mal. O mal não é ser, mas privação de ser, como a obscuridade é ausência de luz. “Podemos começar a descrever o “mal” a partir do que ele não é: o “mal” não é uma realidade. Ele é privação. Ele é ausência de bem. Ele não é uma realidade existente. Só o bem é real” (FERRAZ, 2014, p. 79). Tal privação é imprescindível em todo ser que não seja Deus, enquanto criado, limitado. Destarte é explicado o assim chamado mal metafísico, que não é verdadeiro mal, porquanto não tira aos seres o que lhes é devido por natureza.

 

            Além do mal metafísico existe também o mal moral. Existe realmente a má vontade que livremente faz o mal; ela, porém, não é causa eficiente, mas deficiente, sendo o mal não-ser. Este não-ser pode unicamente provir do homem, livre e limitado, e não de Deus, que é puro ser e produz unicamente o ser. Assim devemos considerar a prática do mal não como causa eficiente, mas deficiente de uma ação viciosa, porquanto o mal não tem realidade metafísica. O pecado, pois, tem em si mesmo imanente a pena da sua desordem, porquanto a criatura, não podendo lesar a Deus, prejudica a si mesma, determinando a dilaceração da sua natureza.

            O mal moral entrou no mundo humano pelo pecado original e atual; por isso, a humanidade foi punida com o sofrimento, físico e moral, além de o ter sido com a perda dos dons gratuitos de Deus. O mal moral é o pecado, e o pecado é uma conseqüência do mau uso que fazemos do nosso livre-arbítrio. “Com efeito, no plano moral o mal jaz nos atos das criaturas racionais, notadamente no ‘livre arbítrio’. Mais especificamente, o mal reside no mau uso do ‘livre arbítrio’” (FERRAZ, 2014, p. 80). E nas palavras do próprio Agostinho (1995, p. 69): “o mal moral tem sua origem no livre-arbítrio de nossa vontade”. Já o mal físico (doenças, sofrimentos etc), por sua vez, tem origem a partir do pecado original; é uma conseqüência do mal moral. Remediou este mal moral a redenção de Cristo, Homem-Deus, que restituiu à humanidade os dons sobrenaturais e a possibilidade do bem moral; mas deixou permanecer o sofrimento, consequência do pecado, como meio de purificação e expiação. E a explicação última de tudo isso – do mal moral e de suas conseqüências – estaria no fato de que é mais glorioso para Deus tirar o bem do mal, do que não permitir o mal. Resumindo a doutrina agostiniana a respeito do mal, diremos: o mal é, fundamentalmente, privação de bem (de ser); ou uma conseqüência do mau uso que fazemos do nosso livre-arbítrio.

            A causa do pecado está no abuso que fazemos da nossa vontade livre. Levar uma vida feliz ou infeliz depende de nossa boa vontade: “é pela vontade que merecemos e levamos uma vida louvável e feliz; e pela mesma vontade, que levamos uma vida vergonhosa e infeliz” (AGOSTINHO, 1995, p. 60). A nossa felicidade estará assegurada, sob a condição de praticarmos livremente o bem: “nada, a não ser a vontade, poderá destronar a alma das alturas de onde domina, e afastá-la do caminho reto” (AGOSTINHO, 1995, p. 67).

              Deus é bom e não pode ser origem do mal.

 

[...] se sabes ou acreditas que Deus é bom — e não nos é permitido pensar de outro modo —, Deus não pode praticar o mal. Por outro lado, se proclamamos ser ele justo — e negá-lo seria blasfêmia —, Deus deve distribuir recompensas aos bons, assim como castigos aos maus. E por certo, tais castigos parecem males àqueles que os padecem. É porque, visto ninguém ser punido injustamente — como devemos acreditar, já que, de acordo com a nossa fé, é a divina Providência que dirige o universo —, Deus de modo algum será o autor daquele primeiro gênero de males a que nos referimos [que alguém pratica o mal], só do segundo [que alguém sofre algum mal] (AGOSTINHO, 1995, p. 25).

 

            A fórmula agostiniana em torno da liberdade pode ser assim descrita: em Adão – antes do pecado original – é: poder não pecar; depois do pecado original é: não poder não pecar; nos bem-aventurados será: não poder pecar. É preciso levar em consideração que a vontade humana, para Agostinho, é impotente sem a graça. O problema da graça – que tanto preocupa Agostinho – tem, além de um interesse teológico, também um interesse filosófico, porquanto se trata de conciliar a causalidade absoluta de Deus com o livre arbítrio do homem. O livre-arbítrio é a capacidade de decidir e agir livremente e pode ser influenciado pela vontade (voluntas) e que por isso precisa da graça divina para não se deixar influenciar pelo pecado. “Tal distinção pode ser esclarecida especialmente a partir do ‘livro VIII’, das “Confissões”, em que Agostinho mantém que a vontade humana carece da Graça Divina” (FERRAZ, 2014, p. 78). A graça divina é necessária para que o homem “lute contra a concupiscência e se torne digno diante de Deus” (FERRAZ, 2014, p. 81).
 

Santo Agostinho e a Política

 

            O pensamento político de Santo Agostinho tem como referência duas tradições: a da cultura greco-romana e das escrituras judaico-cristãs. Agostinho se serve da crítica que o historiador Salústio faz sobre as causas que levaram o Império Romano à ruína, com a submissão do povo à escravidão, a opressão, a usura dos senadores que aumentava cada vez mais os tributos e os encargos militares. A República Romana caíra por falta de domínio das paixões desordenadas e uma delas é o apego ao poder que levou alguns governantes a serem injustos, tiranos, chegando mesmo a oprimir o povo. Também deve ser mencionado o desejo desenfreado pelo poder e a ânsia de dominar que levou o Império Romano a empreender diversas guerras, responsáveis pelo enfraquecimento paulatino da República Romana. Agostinho encontra no Império Romano a prova de que todo governo que coloca seu apoio apenas na matéria e despreza os valores religiosos está fadado ao fracasso.

            Como o ser humano é um todo, a política deve se esforçar para proporcionar aos cidadãos da pátria terrena condições para a prática do culto ao Deus verdadeiro e preparar os homens para a Cidade Celeste. O pensamento Agostiniano acerca da política está permeado e fundamentado na transcendência do ser humano. Ele se articula com a Teologia.

            Agostinho entende que o homem por si mesmo não concretizará o ideal de um Estado verdadeiramente justo sem o auxílio Divino, pois cada ser humano traz consigo a marca do pecado, das paixões desordenadas, do desejo de dominar e muitas vezes até colocar seus semelhantes debaixo dos pés, esses homens carregam a marca da concupiscência de nossos primeiros pais: Adão e Eva. É evidente que o Estado só realizará plenamente os interesses de seus cidadãos quando for permeado pelos valores do Evangelho. Para Agostinho, nenhum Estado cumprirá com êxito sua função enquanto não se esforçar por valorizar a dimensão espiritual da pessoa humana e ter como meta de ação o princípio cristão da caridade. A caridade se sobressai neste ponto pois quem ama a Deus e ao próximo não irá com certeza manipular e nem dominar seu próximo apenas por interesses espúrios e exclusivistas pensando apenas nas suas próprias satisfações pessoais.

            Existe uma relação próxima entre a política e a ética agostiniana se considerarmos que a ética cristã do amor ao próximo e da caridade não se limita ao indivíduo, mas se dirige ao bem comum, ao social. O princípio da caridade preservaria os homens de agirem egoisticamente, visando apenas seus interesses particulares em detrimento de si e da coletividade.  O Amor a Deus e ao próximo é a base não apenas da ética agostiniana, mas fundamento de uma sociedade justa. Ultrapassa a subjetividade do indivíduo, lança luzes sobre o seu agir e sua vida em sociedade. A lei do amor a Deus é a regra da vida moral e também social para Santo Agostinho. Não há, com efeito, justiça nem nenhuma das virtudes sobre as quais se fundamenta o Estado, sem o amor de Deus e do próximo.

            Para Santo Agostinho, a política constitui uma atividade fundamental para que no seio da sociedade humana haja o bem e a paz  e onde Deus não está presente a paz temporal torna-se impossível.

            Aos governantes cabe a função de conduzir corretamente a sociedade desde que seus interesses sejam pautados pelo desejo em servir e prestar culto ao verdadeiro Deus. O bispo de Hipona reconhece que o exercício do poder temporal só encontrará sua verdadeira realização quando governantes e súditos se deixarem conduzir pela Bondade Divina. Os que foram chamados para governar devem fazê-lo com a mente e o coração voltados para a eternidade, ou pátria celeste.

 

A Cidade de Deus

 

            A obra De Civitate Dei, escrita em 22 livros (ou capítulos), descreve o mundo dividido entre o dos homens (o mundo terreno) e o dos céus (o mundo espiritual): a cidade terrestre e a cidade celeste. A obra trata dos mais variados e complexos assuntos que vão desde a origem e substancialidade do bem e do mal, do pecado, da culpa e da morte, até questões do direito, da lei e das penas,  da contingência e da necessidade, da ação humana e do destino no desenvolvimento da História.

            O livro apresenta a história humana a partir do conflito entre a Cidade Terrena (ou Cidade do Homem) e a Cidade de Deus. Cada uma destas duas cidades têm características peculiares: na primeira, os homens se ocupam dos prazeres efêmeros do mundo presente ao passo que na segunda as pessoas põem de lado o prazer terreno para se dedicarem às verdades eternas de Deus, reveladas através da fé cristã. De certo modo Agostinho apresenta a história do mundo como a guerra universal entre Deus e o Mal.

            Agostinho está certo de que em todos os tempos haverá “em todos os povos” cidadãos dos “dois reinos”, do de Cristo e do demônio, em constante luta. É sob este aspecto de temporalidade, de transitoriedade, de implicação sobretudo na liberdade e nos “vícios da humana fragilidade” que podemos falar de ambivalência e de ambiguidade da cidade dos homens e dos seus bens próprios. O homem é, antes de tudo, fundamentalmente, limitado enquanto criatura, feita do nada. Mas ele é criatura racional, livre e que de fato peca livremente, afastando-se do seu Criador. Por isso a ordem à qual se refere Santo Agostinho na De Civitate Dei só será uma realidade quando o exercício da função política for fundado no verdadeiro Amor, na caritas (caridade). Sendo, porém, uma instituição exercida por homens marcados pelo pecado, a política para ser vivida com autenticidade e justiça necessita da graça de Cristo.

            A obra De Civitate Dei está dividida em duas partes. A primeira parte contém 10 livros e é uma espécie de crítica da religião e filosofia de Roma, correspondente à Cidade Terrena. A segunda parte contém 12 livros e se refere a distinção entre a cidade de Deus e a cidade terrena.

            Na primeira parte, os cinco primeiros livros constituem uma espécie de crítica da religião pagã e refutam aqueles que defendem que a adoração politeísta é necessária a fim de garantir a prosperidade mundial, e que todas estas calamidades avassaladoras caíram sobre nós em consequência da sua proibição. Os livros 6 a 10 contém a crítica da filosofia pagã e Agostinho se dirige àqueles que admitem que tais calamidades aconteceram em todos os tempos, e que sempre haverão de acontecer, à raça humana, e que elas se repetem constantemente em formas mais ou menos desastrosas, variando somente no cenário, nas ocasiões e nas pessoas a quem elas atingem, mas, apesar de admitirem isto, defendem que a adoração dos deuses é vantajosa para a vida que há de vir.

            Na segunda parte Agostinho expõe suas próprias opiniões sobre o assunto: os quatro primeiros livros contêm um relato da origem do que Agostinho chama de as duas cidades: a cidade de Deus e a cidade do mundo, a partir da separação dos anjos bons dos maus, da criação humana e uma análise detalhada do Livro do Gênesis. Os quatro livros seguintes tratam da história e progresso das duas cidades e a partir de alguns acontecimentos como o tempo anterior e após o Dilúvio, além da história da cidade de Deus desde Samuel, até Davi e Jesus. Os últimos quatro livros tratam dos destinos merecidos das duas cidades. Do fim das duas cidades e a felicidade do povo de Cristo, das profecias, dos castigos eternos e da felicidade eterna.

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

AGOSTINHO, Santo. O Livre Arbítrio. Tradução de Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Paulus, 1995. (Coleção Patrística)

ARANHA, Maria Lúcia de A. Idade Média: a educação mediada pela fé. In: ____. História da Educação e da Pedagogia: Geral e Brasil. 3. ed. São Paulo: Editora Moderna, 2006, p. 154-193.

FERRAZ, Carlos Adriano. Elementos de ética. Pelotas: NEPFil online, 2014. Acessado em 18/06/2019.

 


https://www.sabedoriapolitica.com.br/filosofia-politica/filosofia-medieval/santo-agostinho/

SUGESTÃO DE LEITURAS

 

 

SUGESTÃO DE LEITURAS

1. O Despertar de Tudo, de David Graeber e David Wengrow

 

Lançado no Brasil em agosto de 2022, O Despertar de Tudo é de autoria dos historiadores David Graeber e David Wengrow.

O livro lança um novo olhar sobre a história da humanidade, trazendo aspectos pouco conhecidos para traçar uma linha do tempo histórica desde o surgimento da agricultura até os dias contemporâneos. Assim, trata de assuntos como a desigualdades, democracia, liberdade e escravidão.

Pouco tempo depois de publicada, a obra já se tornou um sucesso de vendas e vem recebendo elogios da crítica especializada.

https://www.culturagenial.com/dicas-livros/

02- O mundo de Sofia 

– 19 novembro 2012

 

Edição Português  por Jostein Gaarder (Autor), Leonardo Pinto Silva (Tradutor)

Às vésperas de seu aniversário de quinze anos, Sofia Amundsen começa a receber bilhetes e cartões-postais bastante estranhos. Os bilhetes são anônimos e perguntam a Sofia quem é ela e de onde vem o mundo. Os postais são enviados do Líbano, por um major desconhecido, para uma certa Hilde Møller Knag, garota a quem Sofia também não conhece. O mistério dos bilhetes e dos postais é o ponto de partida deste romance fascinante, que vem conquistando milhões de leitores em todos os países e já vendeu mais de 1 milhão de exemplares só no Brasil. De capítulo em capítulo, de “lição” em “lição”, o leitor é convidado a percorrer toda a história da filosofia ocidental, ao mesmo tempo que se vê envolvido por um thriller que toma um rumo surpreendente.

https://www.amazon.com.br/mundo-Sofia-Jostein-Gaarder/dp/8535921893/ref=asc_df_8535921893/?tag=googleshopp00-20&linkCode=df0&hvadid=379773314816&hvpos=&hvnetw=g&hvrand=15943609333017714168&hvpone=&hvptwo=&hvqmt=&hvdev=c&hvdvcmdl=&hvlocint=&hvlocphy=1001773&hvtargid=pla-333762632810&psc=1

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domingo, 16 de julho de 2023

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DOMINGO,  23 DE JULHO DE 2023

                                               

16.º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

ANO VOCACIONAL NACIONAL

A PACIÊNCIA MISERICORDIOSA DE DEUS

 

III DIA MUNDIAL DOS AVÓS E IDOSOS “A sua misericórdia se estende de geração em geração

 

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