quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

7-MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV PARA O LIX DIA MUNDIAL DA PAZ 1 DE JANEIRO DE 2026 _______________________________ A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante

 7-MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV


MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV
PARA O LIX DIA MUNDIAL DA PAZ

1 DE JANEIRO DE 2026

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A paz esteja com todos vós.
Rumo a uma paz desarmada e desarmante


“A paz esteja contigo!”.

Esta antiga saudação, presente ainda hoje em muitas culturas, ganhou novo vigor nos lábios de Jesus ressuscitado na noite de Páscoa. «A paz esteja convosco!» ( Jo 20, 19.21) é a sua Palavra que não só deseja, mas realiza uma mudança definitiva naqueles que a acolhem e, consequentemente, em toda a realidade. Por isso, os sucessores dos Apóstolos exprimem todos os dias e em todo o mundo a revolução mais silenciosa: “A paz esteja convosco!”. Desde a noite da minha eleição como Bispo de Roma, quis inserir a minha saudação neste anúncio coral. E desejo reiterá-lo: esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante. Ela provém de Deus, o Deus que nos ama a todos incondicionalmente. [1]

A paz de Cristo ressuscitado

Quem venceu a morte e derrubou as barreiras que separavam os seres humanos (cf. Ef 2, 14) foi o Bom Pastor que dá a vida pelo rebanho e tem muitas ovelhas que estão fora do seu redil (cf. Jo 10, 11.16): Cristo, nossa paz. A sua presença, o seu dom e a sua vitória reverberam na perseverança de muitas testemunhas, por meio das quais a obra de Deus continua no mundo, tornando-se ainda mais perceptível e luminosa na escuridão dos tempos.

Na verdade, o contraste entre as trevas e a luz não é apenas uma imagem bíblica para descrever o sofrimento do qual está a nascer um mundo novo: é uma experiência que nos atravessa e nos surpreende diante das provações que encontramos nas circunstâncias históricas em que vivemos. Ora, para não afundarmos na escuridão, é necessário ver a luz e acreditar nela. Trata-se de uma exigência que os discípulos de Jesus são chamados a viver de maneira única e privilegiada, mas que, de muitas maneiras, sabe abrir caminho no coração de cada ser humano. A paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence. A paz tem o sopro da eternidade: enquanto ao mal se ordena “basta!”, à paz se suplica “para sempre”. O Ressuscitado introduziu-nos neste horizonte. É neste sentir que vivem os promotores da paz que, no drama daquilo que o Papa Francisco definiu como “terceira guerra mundial em pedaços”, ainda resistem à contaminação das trevas, como sentinelas na noite.

Infelizmente, o contrário é possível, ou seja, esquecer a luz: assim, perde-se o realismo e se cede a uma representação parcial e distorcida do mundo, sob o sinal das trevas e do medo. Atualmente, não são poucos aqueles que chamam de realistas as narrativas privas de esperança, cegas à beleza dos outros e esquecidas da graça de Deus que sempre age nos corações humanos, por mais feridos que estejam pelo pecado. Santo Agostinho exortava os cristãos a estabelecerem uma amizade indissolúvel com a paz, para que, guardando-a no íntimo do próprio espírito, pudessem irradiar o calor luminoso ao seu redor. Dirigindo-se à sua comunidade, ele escreveu: «Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa». [2]

Queridos irmãos e irmãs, quer tenhamos o dom da fé, quer pareça que não o temos, abramo-nos à paz! Acolhamo-la e reconheçamo-la, em vez de a considerarmos distante e impossível. Antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho. Mesmo que seja contestada dentro e fora de nós, como uma pequena chama ameaçada pela tempestade, guardemo-la sem esquecer os nomes e as histórias daqueles que a testemunharam. É um princípio que orienta e determina as nossas escolhas. Também nos lugares onde só restam escombros e onde o desespero parece inevitável, ainda hoje encontramos quem não esqueceu a paz. Do mesmo modo que, na noite de Páscoa, Jesus entrou no lugar onde se encontravam os discípulos assustados e desanimados, assim a paz de Cristo ressuscitado continua a atravessar portas e barreiras com as vozes e os rostos das suas testemunhas. É o dom que permite não esquecer o bem, reconhecê-lo como vencedor, escolhê-lo novamente e juntos.

Uma paz desarmada

Pouco antes de ser capturado, num momento de intensa confidência, Jesus disse aos que estavam com Ele: «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou». E imediatamente acrescentou: «Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde» (Jo 14, 27). A perturbação e o medo podiam, certamente, referir-se à violência que em breve se abateria sobre Ele. De modo ainda mais profundo, os Evangelhos não escondem que o que desconcertou os discípulos foi a sua resposta não violenta: um caminho que todos, Pedro em primeiro lugar, contestaram, mas que o Mestre pediu que seguissem até ao fim. O caminho de Jesus continua a ser motivo de perturbação e medo. E Ele repete com firmeza àqueles que gostariam de defendê-lo: «Mete a espada na bainha» (Jo 18, 11; cf. Mt 26, 52). A paz de Jesus ressuscitado é desarmada, porque desarmada foi a sua luta, dentro de precisas circunstâncias históricas, políticas e sociais. Os cristãos devem tornar-se, juntos, testemunhas proféticas desta novidade, conscientes das tragédias das quais muitas vezes foram cúmplices. A grande parábola do juízo universal convida todos os cristãos a, conscientemente, agir com misericórdia (cf. Mt 25, 31-46). E, ao fazê-lo, encontrarão ao seu lado irmãos e irmãs que, por caminhos diferentes, souberam ouvir a dor dos outros e se libertaram interiormente do engano da violência.

Embora hoje não sejam poucas as pessoas com o coração pronto para a paz, um grande sentimento de impotência as invade diante do curso cada vez mais incerto dos acontecimentos. Já Santo Agostinho, com efeito, assinalava um paradoxo particular: «Não é difícil possuir a paz. É mais difícil, quando muito, louvá-la. Se quisermos louvá-la, precisamos de ter capacidades que talvez nos faltem; devemos procurar as ideias certas, ponderar as frases. Se, em vez disso, quisermos tê-la, ela está lá, ao nosso alcance, e podemos possuí-la sem qualquer esforço». [3]

Quando tratamos a paz como um ideal distante, acabamos por não considerar escandaloso que ela possa ser negada e que até mesmo se faça guerra para alcançá-la. Parecem faltar as ideias certas, as frases ponderadas, a capacidade de dizer que a paz está ao nosso alcance. Se a paz não for uma realidade experimentada, guardada e cultivada, a agressividade espalha-se, tanto na vida doméstica, quanto na vida pública. Na relação entre cidadãos e governantes, chega-se a considerar uma culpa o não estar suficientemente preparado para a guerra, para reagir aos ataques e para responder à violência. No plano político, essa lógica de oposição, muito além do princípio da legítima defesa, é o dado mais atual numa desestabilização planetária que a cada dia se torna mais dramática e imprevisível. Não por acaso, os repetidos apelos para aumentar as despesas militares – e as escolhas que disso decorrem – são apresentados por muitos governantes com a justificativa da periculosidade alheia. Na verdade, a força dissuasiva do poder e, em particular, a dissuasão nuclear, encarnam a irracionalidade de uma relação entre os povos baseada não no direito, na justiça e na confiança, mas no medo e no domínio da força. Como já escrevia São João XXIII na sua época: «O resultado é que os povos vivem em terror permanente, como sob a ameaça de uma tempestade que pode rebentar a cada momento em avassaladora destruição. Já que as armas existem e, se parece difícil que haja pessoas capazes de assumir a responsabilidade das mortes e incomensuráveis destruições que a guerra provocaria, não é impossível que um fato imprevisível e incontrolável possa inesperadamente atear esse incêndio». [4]

Pois bem, ao longo de 2024, as despesas militares a nível mundial aumentaram 9,4% em relação ao ano anterior, confirmando a tendência ininterrupta dos últimos dez anos e atingindo o valor de 2,72 biliões de dólares, ou seja, 2,5% do PIB mundial. [5] Mais ainda, parece que os novos desafios devem ser enfrentados atualmente não só com um enorme esforço económico para o rearmamento, mas também com um realinhamento das políticas educativas: em vez de uma cultura da memória, que preserve a consciência adquirida no século XX e não esqueça os milhões de vítimas, promovem-se campanhas de comunicação e programas educativos em escolas e universidades, bem como nos meios de comunicação social, que difundem a percepção de que se vive continuamente sob ameaça e transmitem uma noção de defesa e segurança meramente armada.

Todavia, «quem ama verdadeiramente a paz ama também os inimigos da paz». [6] Assim, Santo Agostinho recomendava não destruir pontes e não insistir com repreensões, preferindo a via da escuta e, na medida do possível, do encontro com as razões dos outros. Sessenta anos atrás, o Concílio Vaticano II chegava à sua conclusão com a consciência da urgência de um diálogo entre a Igreja e o mundo contemporâneo. Em particular, a Constituição Gaudium et spes chamava a atenção para a evolução da prática bélica: «O perigo peculiar da guerra hodierna está em que ela fornece, por assim dizer, a oportunidade de cometer tais crimes àqueles que estão de posse das modernas armas científicas; e, por uma consequência quase fatal, pode impelir as vontades dos homens às mais atrozes decisões. Para que tal nunca venha a suceder, os Bispos de todo o mundo, reunidos, imploram a todos, sobretudo aos governantes e chefes militares, que ponderem sem cessar a sua tão grande responsabilidade perante Deus e a humanidade». [7]

Ao reiterar o apelo dos Padres conciliares e considerando o diálogo como a via mais eficaz em todos os níveis, constatamos que os recentes avanços tecnológicos e a aplicação das inteligências artificiais no âmbito militar radicalizaram a tragédia dos conflitos armados. Está-se a delinear até mesmo um processo de desresponsabilização dos líderes políticos e militares devido ao crescente “delegar” às máquinas as decisões relativas à vida e à morte das pessoas. É uma espiral de destruição sem precedentes, que compromete o humanismo jurídico e filosófico do qual qualquer civilização depende e pelo qual é protegida. É preciso denunciar as enormes concentrações de interesses económicos e financeiros privados que estão a empurrar os Estados nessa direção; mas isso não é suficiente, se ao mesmo tempo não for promovido o despertar das consciências e do pensamento crítico. A Encíclica Fratelli tutti apresenta São Francisco de Assis como exemplo desse despertar: «Naquele mundo cheio de torreões de vigia e muralhas defensivas, as cidades viviam guerras sangrentas entre famílias poderosas, ao mesmo tempo que cresciam as áreas miseráveis das periferias excluídas. Lá, Francisco recebeu no seu íntimo a verdadeira paz, libertou-se de todo o desejo de domínio sobre os outros, fez-se um dos últimos e procurou viver em harmonia com todos». [8] É uma história que quer continuar em nós e que exige unir esforços para contribuir mutuamente para uma paz desarmante, uma paz que nasce da abertura e da humildade evangélica.

Uma paz desarmante

A bondade é desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito criança. O mistério da Encarnação, que tem o seu ponto mais extremo de esvaziamento na descida aos infernos, começa no ventre de uma jovem mãe e manifesta-se na manjedoura de Belém. «Paz na terra», cantam os anjos, anunciando a presença de um Deus indefeso, pelo qual a humanidade só pode descobrir-se amada cuidando d’Ele (cf. Lc 2, 13-14). Nada tem a capacidade de mudar-nos mais do que um filho. E talvez seja justamente o pensamento nos nossos filhos, nas crianças e também naqueles que são frágeis como elas, que nos traspassa o coração (cf. Act 2, 37). A este respeito, o meu venerado Predecessor escrevia que «a fragilidade humana tem o poder de tornar-nos mais lúcidos em relação ao que dura e ao que passa, ao que faz viver e ao que mata. Talvez por isso tendamos tão frequentemente a negar os limites e a fugir das pessoas frágeis e feridas: elas têm o poder de questionar a direção que escolhemos, como indivíduos e como comunidade». [9]

São João XXIII foi o primeiro a introduzir a perspectiva de um desarmamento integral, alcançado somente através da renovação do coração e da inteligência. Assim escreveu ele na Carta encíclica Pacem in terris: «Todos devem estar convencidos de que nem a renúncia à competição militar, nem a redução dos armamentos, nem a sua completa eliminação, que seria o principal, de modo nenhum se pode levar a efeito tudo isto, se não se proceder a um desarmamento integral, que atinja o próprio espírito, isto é, se não trabalharem todos em concórdia e sinceridade, para afastar o medo e a psicose de uma possível guerra. Mas isto requer que, em vez do critério de equilíbrio em armamentos que hoje mantém a paz, se abrace o princípio segundo o qual a verdadeira paz entre os povos não se baseia em tal equilíbrio, mas sim e exclusivamente na confiança mútua. Nós pensamos que se trata de objetivo possível, por tratar-se de causa que não só se impõe pelos princípios da reta razão, mas que é sumamente desejável e fecunda de preciosos resultados». [10]

Este é um serviço fundamental que as religiões devem prestar à humanidade sofredora, vigiando sobre a crescente tentativa de transformar em armas até mesmo pensamentos e palavras. As grandes tradições espirituais, assim como o reto uso da razão, fazem-nos ir além dos laços de sangue e étnicos, ou daquelas fraternidades que reconhecem apenas quem é semelhante e rejeitam quem é diferente. Hoje vemos como isso não é óbvio. Infelizmente, faz parte do panorama contemporâneo, cada vez mais, arrastar as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada. Os fiéis devem refutar ativamente, antes de tudo com a sua vida, estas formas de blasfémia que obscurecem o Santo Nome de Deus. Por isso, juntamente com a ação, é mais do que nunca necessário cultivar a oração, a espiritualidade, o diálogo ecuménico e inter-religioso como caminhos de paz e linguagens de encontro entre tradições e culturas. Em todo o mundo, é desejável que «cada comunidade se torne uma “casa de paz”, onde se aprende a neutralizar a hostilidade através do diálogo, onde se pratica a justiça e se conserva o perdão». [11] Hoje, mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia, através de uma criatividade pastoral atenta e generativa.

Por outro lado, isso não deve desviar a atenção de todos da importância da dimensão política. Aqueles que são chamados a assumir responsabilidades públicas, nos mais altos e qualificados cargos, investiguem «a fundo qual a melhor maneira de se chegar à maior harmonia das comunidades políticas no plano mundial; harmonia, repetimos, que se baseia na confiança mútua, na sinceridade dos tratados e na fidelidade aos compromissos assumidos. Examinem de tal maneira todos os aspectos do problema para encontrarem no nó da questão, a partir do qual possam abrir caminho a um entendimento leal, duradouro e fecundo». [12] É o caminho desarmante da diplomacia, da mediação, do direito internacional, infelizmente contrariado por violações cada vez mais frequentes de acordos alcançados com grande esforço, num contexto que exigiria não a deslegitimação, mas sim o fortalecimento das instituições supranacionais.

Hoje, a justiça e a dignidade humana estão, mais do que nunca, expostas aos desequilíbrios de poder entre os mais fortes. Então, como viver num tempo de desestabilização e conflitos, libertando-se do mal? É necessário motivar e apoiar todas as iniciativas espirituais, culturais e políticas que mantenham viva a esperança, combatendo a difusão de «atitudes fatalistas a respeito da globalização, como se as dinâmicas em ato fossem produzidas por forças impessoais anónimas e por estruturas independentes da vontade humana». [13] Se, efetivamente, «a melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores», [14] deve se contrapor a tal estratégia o desenvolvimento de sociedades civis conscientes, de formas de associativismo responsável, de experiências de participação não violenta, de práticas de justiça restaurativa em pequena e grande escala. Leão XIII já o salientava claramente na Encíclica Rerum novarum: «A experiência que o homem adquire todos os dias da exiguidade das suas forças, obriga-o e impele-o a agregar-se a uma cooperação estranha. É nas Sagradas Letras que se lê esta máxima: “Mais valem dois juntos que um só, pois tiram vantagem da sua associação. Se um cai, o outro sustenta-o. Desgraçado do homem só, pois; quando cair, não terá ninguém que o levante” ( Ecl 4, 9-10). E esta outra: “O irmão que é ajudado por seu irmão, é como uma cidade forte”» ( Pr 18, 19). [15]

Que isso seja um fruto do Jubileu da Esperança, que levou milhões de seres humanos a redescobrirem-se peregrinos e a iniciarem em si mesmos aquele desarmamento do coração, da mente e da vida, ao qual Deus não tardará em responder, cumprindo as suas promessas: «Ele julgará as nações, e dará as suas leis a muitos povos, os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se adestrarão mais para a guerra. Vinde, Casa de Jacob! Caminhemos à luz do Senhor» (Is 2, 4-5).

Vaticano, 8 de dezembro de 2025

LEÃO PP. XIV

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[1] Cf. Bênção “Urbi et Orbi”, Loggia central da Basílica de São Pedro (8 de maio de 2025).

[2] Agostinho de Hipona, Sermo 357, 3.

[3] Ibid., 1.

[4] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 111.

[5] Cf. SIPRI Yearbook: Armaments, Disarmament and International Security (2025).

[6] Agostinho de Hipona, Sermo 357, 1.

[7] Conc. Ecum. Vat. II, Cost. past. Gaudium et spes, 80.

[8] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 4.

[9] Id., Carta ao Diretor do jornal italiano “Corriere della Sera” (14 de março de 2025).

[10] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 113.

[11] Discurso aos Bispos da Conferência Episcopal Italiana (17 de junho de 2025).

[12] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 118.

[13] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 42.

[14] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 15.

[15] Leão XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de maio de 1891), 37.

https://www.vatican.va/content/leoxiv/pt/messages/peace/documents/20251208-messaggio-pace.html

8- "O NOVO QUE JÁ NASCE VELHO: RESSIGNIFICANDO O CONCEITO DE 'ANO NOVO'" Lindolivo Soares Moura(*)

 

 

8- "O NOVO QUE JÁ  NASCE VELHO: RESSIGNIFICANDO

O  CONCEITO  DE 'ANO NOVO'"

Lindolivo Soares Moura(*)

   "O objetivo de um  ano  novo  não  que nós  deveríamos ter um novo ano,  e  sim  que  nós  deveríamos ter uma  nova alma" (G.K.Chesterton);

Todo santo ano é a mesma coisa: ainda mal digerimos o peru da Ceia de Natal, e lá vem a Ceia da antevéspera do Ano Novo! Comilança pra cá, bebelança pra lá, bejim bejim, bracim bracim, e depois pé na estrada, cada um de volta ao seu lugar. Permeando tudo, renovam-se os votos, os augúrios e as felicitações: primeiro, de um santo e feliz Natal; uma semana depois, de um feliz e próspero Ano Novo. Do vermelho do Papai Noel e das festas natalinas ficam apenas as contas e duplicatas a pagar. Duplicatas, "triplicatas", e até "quadruplicatas", diga-se de passagem, em razão da incontida euforia em direção às compras que tais tempos costumam suscitar. Assim é que uma semana depois o vermelho deixado pela festança cede lugar ao branco da esperança: pipocam fogos, renovam-se pedidos, refazem-se promessas e os céus se enchem de colorido. Que os deuses nos ajudem e que o ano entrante seja melhor e menos sofrido! Se o Natal faz renascer o Filho, o Ano Novo se encarrega de ressuscitar o restante da Trindade, ficando a tríade completa: Pai, Filho, e Espírito Santo! O resto do ano é um coro só, pra cá  e pra lá, de "Deus nos acuda!". É tanto pedido de ajuda, que de tempos em tempos a "Santa Madre" não tem outra alternativa senão abrir Concurso para pretendente à santidade, única maneira de conseguir atender a demanda cada vez mais  desenfreada.

É triste! Mais que isso: é lamentável! Para a grande maioria das pessoas o Novo Ano envelhece rápido! Muito rápido! Rápido até demais! As queixas, os queixumes e as lamúrias mal respeitam a "Oitava do Natal" para reentrarem em cena. Muita gente segue ainda agarrada degustando o esqueleto do peru, só que agora ao embalo de prantos e lamentações, e não mais de "oh! Senhor!", "Deus de Amor!" e "noite feliz!". Há cenas que fazem lembrar coisa típica de pós velório e de defunto mal enterrado: puro choro, luto, pranto e lamentação, seguida de lenga lenga, fé de menos e muita reclamação! A "ladainha de todos os santos" é rapidamente acompanhada de uma ladainha de "ais" e "ais" e queixas que não acabam mais! Vez por outra, claro, faz-se uma pausa para respirar e tentar lubridiar tanta adversidade: e lá vem carnaval,  feriado, dia santo, e  "epiqueias" de alívio enganador e passageiro. Depois tudo retorna ao "normal". Normal que para a grande maioria não costuma ser nada bom, por sinal! Mas que círculo vicioso é esse afinal? Por quais razões o Novo Ano acaba sempre ficando velho antes da hora para tantas pessoas, sem sequer esperar pelo próximo Natal? Parei para refletir, e ocorreu-me sugerir algumas possíveis razões, que a partir de agora deixo flutuando no ar. Fica a seu critério prosseguir, parar por aqui, ou retornar mais tarde quando o ânimo recobrar.

Começamos o novo ano fazendo votos e suplicando. E como pedimos! E como imploramos e suplicamos! Sem problemas; não parece haver nada de errado com isso. Cedo se aprende que "rezar nunca é demais". Mas cada desejo e súplica, convenhamos , deveriam ser acompanhados não apenas de uma reta intenção mas também de uma sincera disposição de quem pede ou suplica: o que estamos realmente dispostos a fazer, deixar de fazer se for o caso, investir ou sacrificar para que tal desejo e tal súplica se tornem realidade no ano entrante? Graça alguma deveria ser suplicada sem que antes deixemos bem claro qual será nossa contribuição para que o pedido ou a graça se realizem. Ausente essa condição, orar e suplicar não passa de abuso e exploração da misericórdia divina!  Essa é uma tentação que todos deveríamos evitar.

Procrastinação: esta é uma das principais agravantes para que o sucesso da realização dos pedidos que fazemos e dos augúrios que recebemos não se concretize. Procrastinar é a maneira mais eficaz de sabotar tanto aquilo que se pede como aquilo a que se propõe. E o que é pior: procrastinamos na maioria das vezes por razões "inconscientes".  Se sabotar a si mesmo já é o fim,  fazê-lo sem sequer estar ciente disso é sem dúvida mais trágico ainda. Antes de se fazermos qualquer  pedido, nos dispormos a fazer qualquer coisa, ou nos determinarmos  a atingir qualquer meta, deveríamos nos capacitar em vencer a procrastinação. Buscar ajuda profissional é quase sempre o melhor caminho, mas quase sempre suplicar passe de mágica costuma fazer parte do pacote. Resultado da estratégia: nosso pedido pode ter sido atendido, o entregador estar à porta para fazer a entrega, mas a gente simplesmente não abre pra verificar. Claro: depois de um tempo ele vai  embora. É assim que muitas oportunidades acabam sendo literalmente "desperdiçadas", e nossa vontade e nossa determinação transformadas em fumaça pelo fantasma da procrastinação. O "Novo" ficando para o ano seguinte.

Cultivar "olho grande" ou "olho gordo" também pode retardar e até impedir a chegada do "Novo". Muita gente não se dá conta, mas esse costuma ser um poderoso empecilho a dificultar o sucesso e a realização de toda e qualquer pretensão. Deveríamos pedir e batalhar sobretudo - e antes de tudo -  pelo que é necessário à nossa subsistência, e não, abusar da misericórdia divina suplicando sempre por um corpo mais perfeito, aquilo que nos encantou numa vitrine, ou o que o vizinho, parente ou concorrente conseguiram alcançar. Olho grande ou olho gordo tornam a pessoa ansiosa e eternamente insatisfeita. Pais são responsáveis por satisfazer as necessidades, e não necessariamente os desejos e expectativas mirabolantes de seus filhos. Um trabalho digno é sem dúvida uma súplica bem mais sensata do que pedir para ganhar na loteria. Ou, o que seria ainda pior, poder usufruir de uma herança, mesmo que para isso tenha que almejar pela perda dos pais, do companheiro, do sócio e de tantos outros consórcios mais.

Uma regra de ouro para atrair o "Novo" é sugerida pela Sabedoria: reclamar menos e agradecer mais. O tempo que investimos em rancor, amargura, ressentimento e reclamações, é literalmente um tempo perdido. Quando reconhecemos e agradecemos mais pelo que já temos, sem obsessão em forma de súplica por aquilo que ainda "não temos", acabamos nos surpreendendo: terminamos sendo agraciados ainda mais com surpresas gratificantes  "até quando" e "quando menos" esperamos. A energia que corre em nossa mente é como o sangue que corre em nossas veias: precisa ser de boa, se possível de excelente qualidade. Se aprendemos a ser felizes com o pouco, é certo que o muito não nos trará inquietude e ansiedade. A experiência tem mostrado que a ambição impede dormir bem, e a inveja deixa sufocado até mesmo quem muito tem.

"Novo" tem que ser em primeiríssimo  lugar eu, você, e não os outros e tampouco o ano que bate à porta. Desejar a alguém um feliz Natal, aniversário ou "Ano Novo", deve ser antes de tudo expressão de um compromisso: comprometo-me a me esforçar para ser diferente e melhor para com você, para com nosso vínculo, para com tudo que diga a nosso respeito,  para que assim o meu e seu ano seja melhor! Votos e augúrios são uma espécie de compromisso, não uma promessa por um lado e tampouco somente uma carta de boas intenções por outro. Se não formos capazes ou não estivermos dispostos a ser melhores e diferentes, melhor não fazermos votos e nem expressarmos felicitações. Energia positiva se traduz em gestos e compromissos, sejam eles explicitados de forma clara ou não. Todo voto ou desejo deve ser um compromisso assumido de sermos parte do "Novo" que desejamos a alguém. E, claro, do "Novo" que desejamos a nós mesmos.

Felicitar e desejar o "Novo" significa também estar disposto a compartilhar toda energia positiva e construtiva com a qual somos agraciados. Para que isso seja possível é preciso expandir ao máximo nossos conceitos de "pátria", "próximo", "família", "irmãos", para que o "Novo" esteja ao alcance de todos, sem distinção. Boa parte do que somos ou possuímos não nos veio senão por dom e graça; apenas a outra parte reflete nosso esforço e nosso mérito. Tudo que estiver ao nosso alcance pode e deve ser compartilhado: física, material, afetiva, emocional e humanamente. Todos precisam e são merecedores de um quinhão dos benefícios de nosso êxito  e de nosso sucesso na vida, para poderem nutrir expectativas não só de um ano melhor, mas também de uma vida melhor. Não ajuntemos e acumulemos apenas para nós mesmos: a chuva e o sol nascem para todos, sem qualquer tipo de preconceito, seleção ou discriminação. Cada um de nós pode ser ao menos parte do "Novo" na vida de alguém.

Ser canal e veículo para que o "Novo" aconteça significa também aprender a exercitar nosso contraponto até encontrarmos a excelência do nosso equilíbrio pessoal. Se por hábito e inatamente costumamos falar muito, procuremos ouvir mais; se temos o costume de falar alto, diminuamos progressivamente o tom; se pouco contribuímos com as tarefas comuns, esforcemo-nos um pouco mais progressivamente; se perdemos facilmente a calma, procuremos ser mais tolerantes; se temos dificuldade em demonstrar afeto, determinemo-nos a ousar um pouco mais; e por aí segue o leque das possibilidades. Os elos e os vínculos entre as pessoas são construídos com pequenos gestos, poucas palavras, e muito, muito afeto. Se não foi bem esse o nosso legado como filhos, não façamos disso uma desculpa: "construamo-lo" para com os nossos entes queridos, não importa o tempo e o quanto for necessário para isso. Cada vida singular é construída de certo número de anos. Viver muito é muito bom, mas viver bem e cercado de afeto é melhor ainda. Ser "Novo, tornar-se  "Novo" a cada dia e a cada oportunidade: o Novo Ano nos coloca também esse difícil mas precioso desafio.

"Tornar novas todas as coisas", incluindo o ano entrante, pode ser também estabelecer um pacto conosco mesmos no sentido de não explorar as pessoas: em  sentido nenhum, e  quem quer que elas sejam. Não importa o quanto estejamos lhes pagando por um serviço, a posição que estamos ocupando, nossa classe ou nosso status social. Se servir é um dom, sentir-se explorado fere, machuca,  além de ser expressão de maldade. Por outro lado, uma palavra de gratidão, um gesto inesperado, um estimulo ou um simples "muito obrigado" possuem um valor terapêutico maior que qualquer cifra monetária. A humanidade de uma pessoa - sua dignidade, se preferirmos - não se mede antes em números ou cifras, mas sobretudo em palavras e gestos de conforto, gratidão e reconhecimento. Isso não significa de forma alguma menosprezar e menos ainda ignorar a pobreza e a miséria real das pessoas. Mas é preciso ter cuidado: afeição desprovida de justiça expressa hipocrisia,  generosidade que nasce da exploração espelha falsidade.

 "Professores são pesados: afundam! Palhaços são leves: flutuam!". Calma! Nada contra os professores e educadores! São e continuarão sendo com certeza nossos grandes mestres. A analogia pede porém passagem para que possa falar da "leveza", da "sensibilidade" e da "delicadeza". Todos somos como pedras preciosas que precisam passar pelo cadinho, ser "polidas",  "lapidadas", para que assim possamos cumprir de forma eficiente e melhor nossa missão no planeta. O "Novo" de um novo ano pressupõe também esse processo de transformação da "rudeza", da "aspereza" e da "rispidez" em "leveza" , "brandura", "candura", "suavidade" e "amabilidade". Claro que renovar-se nesse sentido não é tarefa fácil, principalmente para os que se consideram "por  natureza" rígidos, pouco maleáveis, e por vezes duros de coração. Mas toda virtude consiste antes de tudo no esforço e na disposição, e não necessariamente no "quantum" da aquisição. Gratificante é saber que se há propósito em ação, é certeza de haver graça em jogo. Mas todo dom e toda graça supõem a natureza, contam com ela, e pouco ou nada podem por vezes sem ela. Se o antigo foi ou era rude, bruto ou "casca grossa" como se diz, o "Novo" pode ser  menos, cada vez menos, quem sabe até o ponto de entrelaçar-se na linha do tempo com a leveza, a serenidade, a benevolência e a paz. Como qualquer músculo de nosso corpo, requer-se para isso treino, persistência, e acima de tudo o mais importante: não desistir jamais! Se "chronos" é graça, "kairós" é construção. Cada ano que chega, e que nos é concedido, não é novo nem velho: em si mesmo é apenas e tão somente "chronos", cronologicamente passível de ser medido em meses, dias, horas, minutos e segundos; assim como por esta ou aquela estação. Para ser ou se transformar em "kairós" - "Novo", como almejamos - "chronos" precisa ser permeado de mudanças, transformações, ressignificações e rematrizações. Fisica, material, temporal e espacialmente cada ano será sempre um "ano velho", a cada ano cada vez mais velho. Isso é "Chronos", e isso é absolutamente "inevitável". Mental, espiritual, afetiva e emocionalmente, esse mesmo ano estará sempre aberto ao novo, ao diferente, à completude e ao amadurecimento: isso é "kairós", e isso é absolutamente "opcional". Desafiar "chronos" resultará sempre numa mera perda de tempo: mais cedo ou mais tarde, como afirma Rubem Alves, "o fio de ouro se romperá", para todos e para cada um de nós. Invistamos pois  todo o nosso melhor no que é "opcional" e está ao nosso alcance - "kairós" - e sejamos criteriosos nessa escolha. O que chamamos de "felicidade" transcorre sim, com certeza, na linha do tempo de "chronos". Mas só vamos encontrá-la e experimentá-la no inevitável entrelaçamento com "kairós". Caso contrário, o que chamamos de "eternidade" não será mais que uma "inevitável, eterna e absoluta perda de tempo". O "Novo" do ano entrante não chega com a "virada" do ano: precisa ser construído e forjado a cada novo mês, dia, hora, minuto e segundo! Feliz Construção do "Novo" pra você! Feliz Vida Nova para todos e para cada um de nós!

 (*) Texto enviado pelo autor via whatsApp, de Vitória(ES)

9-SANTO AGOSTINHO “Felizes os que mereceram receber Cristo em sua casa”

 

 

9-SANTO AGOSTINHO

“Felizes os que mereceram receber Cristo em sua casa”

As palavras de nosso Senhor Jesus Cristo nos advertem que, em meio à multiplicidade das ocupações deste mundo, devemos aspirar a um único fim. Aspiramos porque estamos a caminho e não em morada permanente; ainda em viagem e não na pátria definitiva; ainda no tempo do desejo e não na posse plena. Mas devemos aspirar, sem preguiça e sem desânimo, a fim de podermos um dia chegar ao fim.

Marta e Maria eram irmãs, não apenas irmãs de sangue, mas também pelos sentimentos religiosos. Ambas estavam unidas ao Senhor; ambas, em perfeita harmonia, serviam ao Senhor corporalmente presente. Marta o recebeu como costumam ser recebidos os peregrinos. No entanto, era a serva que recebia o seu Senhor; uma doente que acolhia o Salvador; uma criatura que hospedava o Criador. Recebeu o Senhor para lhe dar o alimento corporal, ela que precisava do alimento espiritual. O Senhor quis tomar a forma de servo e, nesta condição, ser alimentado pelos servos, por condescendência, não por necessidade. Também foi por condescendência que se apresentou para ser alimentado. Pois tinha assumido um corpo que lhe fazia sentir fome e sede.

Portanto, o Senhor foi recebido como hóspede, ele que veio para o que era seu, e os seus não o acolheram. Mas, a todos que o receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,11-12). Adotou os servos e os fez irmãos; remiu os cativos e os fez co-herdeiros. Que ninguém dentre vós ouse dizer: Felizes os que mereceram receber a Cristo em sua casa! Não te entristeças, não te lamentes por teres nascido num tempo em que já não podes ver o Senhor corporalmente. Ele não te privou desta honra, pois afirmou: Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes (Mt 25,40).

Aliás, Marta, permite-me dizer-te: Bendita sejas pelo teu bom serviço! Buscas o descanso como recompensa pelo teu trabalho. Agora estás ocupada com muitos serviços, queres alimentar os corpos que são mortais, embora sejam de pessoas santas. Mas, quando chegares à outra pátria, acaso encontrarás peregrinos para hospedar? encontrarás um faminto para repartires com ele o pão? um sedento para dares de beber? um doente para visitar? um desunido para reconciliar? um morto para sepultar? Lá não haverá nada disso. Então o que haverá? O que Maria escolheu: lá seremos alimentados, não alimentaremos. Lá se cumprirá com perfeição e em plenitude o que Maria escolheu aqui: daquela mesa farta, ela recolhia as migalhas da palavra do Senhor. Queres realmente saber o que há de acontecer lá? É o próprio Senhor quem diz a respeito de seus servos: Em verdade eu vos digo: ele mesmo vai fazê-los sentar-se à mesa e, passando, os servirá (Lc 12,37).

Fonte: Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (Sermo 103, 1-2. 6: PL 38, 613.615) (Séc.V)

https://comunidadeoasis.org.br/sermao-de-santo-agostinho-felizes-os-que-mereceram-receber-a-cristo-em-sua-casa/

10-MENSAGEM DE ANO NOVO DA CNBB

 

10-MENSAGEM DE ANO NOVO DA CNBB

“A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo” (Rm 5,5).

Há poucos dias, celebramos o Natal de nosso Senhor Jesus Cristo. Naquela noite santa, o anjo já o disse aos pastores, e hoje repete a nós: “Não temais! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo” (Lc 2,10). Por ocasião do encerramento do Ano Jubilar, em nossas dioceses, e praticamente do ano civil, dirigimo-nos ao povo brasileiro com uma mensagem de esperança, mas, ao mesmo tempo, de grave preocupação. Como pastores, exultamos com as vitórias e conquistas e nos inquietamos – e até nos indignamos! – com alguns retrocessos no campo da ética e do cuidado com os pobres. Neste ano, são várias as notícias que nos fazem felizes e renovam nossas esperanças. No âmbito da saúde, ficamos felizes com o aumento da taxa média de médicos pelo número de habitantes e agradecemos a Deus pelo Sistema Único de Saúde. No campo econômico, alegramo-nos com a retirada de algumas tarifas norte-americanas sobre vários produtos brasileiros, a estabilidade da inflação, a taxa de desemprego em queda, o relativo crescimento do PIB, o significativo aumento do cooperativismo e a abertura de novos mercados internacionais. Orgulhamo-nos da realização da COP-30, em Belém do Pará, e também nos enleva o fato de o Brasil consolidar sua liderança em energias renováveis. A Igreja se fez presente, não como protagonista político, mas desejosa de contribuir para a construção de caminhos comuns diante da crise climática e o cuidado com a “Casa Comum”. Aumentou significativamente o investimento privado em sustentabilidade, em práticas ambientais, sociais e de governança (ESG). Os movimentos populares se alegram, sobretudo, com a realização do Plebiscito Popular sobre a redução da jornada de trabalho e a taxação proporcional à riqueza. Constatamos experiências positivas. Contudo, há também várias situações que nos entristecem e preocupam. No âmbito da convivência democrática, o ano de 2025 foi marcado por profundas tensões e retrocessos sociais, que deixaram feridas abertas no tecido social. Algumas experiências fragilizaram seriamente a confiança nas instituições e desafiaram as pessoas de boa vontade, que acreditam numa sociedade mais justa e fraterna. Entre essas, destacam-se: o pagamento exorbitante de juros e amortizações da dívida, que deixa o país sem capacidade de maior investimento em educação, saúde, moradia e segurança; o enfraquecimento da ética e o aumento da corrupção na vida pública; a fragilização dos mecanismos democráticos, por causa de interesses econômicos e disputas de poder; a flexibilização de marcos legais essenciais, como a Lei da Ficha Limpa; o desrespeito pelos povos originários e tradicionais, agravado pela aprovação do Marco Temporal no Congresso Nacional; as ameaças à proteção ambiental, intensificadas pelas mudanças na Lei Geral do Licenciamento; a desigualdade social, que continua marginalizando muitos; o aumento da violência, especialmente o feminicídio e outros crimes motivados pela intolerância; o uso de drogas e o crescimento de “economias ilícitas”; a perda de decoro e a falta de responsabilidade por parte de algumas autoridades, especialmente do nosso Congresso Nacional. Discursos de ódio, manipulação da verdade, violências, radicalismos ideológicos e interesses particulares não podem se sobrepor ao bem comum. Tais realidades ferem a dignidade humana e obscurecem a vocação democrática do país. O poeta Thiago de Mello traduz esse valor numa bela imagem: “Faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar”. A presença do Deus que se faz criança, simples e próxima, renova nossa convicção de que nenhuma escuridão é definitiva e que a esperança é força transformadora para quem caminha em busca do bem comum. Por isso, reafirmamos que nenhum projeto político pode se sobrepor à vida, ao respeito à pessoa humana, à justiça social e ao cuidado com a casa comum. Reiteramos a sacralidade da vida humana, desde a concepção até seu fim natural. Ela é o primeiro dos direitos, dom gratuito de Deus, e não pode ser relativizada ou negociada. Por isso, manifestamo-nos firmemente contra qualquer iniciativa de legalização do aborto no Brasil. Defender a vida, contudo, implica também lutar contra a fome, a miséria e a desigualdade. Defender a vida significa criar condições para que “todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). A democracia, com sua exigência de diálogo, suas instituições, seus freios e contrapesos, é patrimônio do povo brasileiro e precisa de cuidado e promoção. Embora imperfeita, ela é terreno fértil onde a justiça e a verdade podem se abraçar (cf. Sl 85,10) e florescer. Como discípulos e discípulas de Jesus Cristo, somos chamados a ser testemunhas credíveis e exemplares, artesãos da paz, construtores de pontes, promotores da caridade política e da responsabilidade social. A nação precisa reencontrar o caminho da pacificação, do diálogo e do respeito mútuo! Desejamos e trabalhamos pela paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante, por um mundo e por um ser humano pacificados e reconciliados no amor (cf. Ef 2,14), a fim de concretizar o sonho de Jesus Cristo, expresso de modo tão belo por Dom Helder Câmara: “Sem esperança, temos as mãos e os pés amarrados. Somos escravos sem perspectiva de libertação”. Não caminhamos na escuridão; somos peregrinos de esperança! Que a luz do Menino Deus ilumine nossas famílias, comunidades e nação. Que o Natal acenda em nossos corações a coragem de recomeçar, e que o ano de 2026 nos encontre firmes no testemunho cristão, com o desejo de mudar o mundo, empenhados na oração, nutridos pela Palavra e pela Eucaristia. Que a Mãe Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, nos acompanhe nesta travessia. Brasília .

 DF, 29 de dezembro de 2025

 Dom Jaime Cardeal Spengler Dom João Justino de Medeiros Silva Arcebispo da Arquidiocese Arcebispo da Arquidiocese de de Porto Alegre – RS Goiânia -GO Presidente da CNBB 1 º Vice-Presidente da CNBB Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa Dom Ricardo Hoepers Arcebispo da Arquidiocese Bispo Auxiliar da Arquidiocese De Olinda e Recife - PE de Brasília - DF 2° Vice-Presidente da CNBB Secretário-Geral da CNBB

https://www.cnbb.org.br/wp-content/uploads/test-for-pdf/mensagem-de-ano-novo-2026-1.pdf

https://youtu.be/S4dVY5c4X9s?si=2rJcRZJLync4KOIj

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

BEM-VINDO AO SB SABENDO BEM DE 28 DE DEZEMBRO DE 2025- SAGRADA FAMÍLIA




 DOMINGO,  28 de dezembro  DE 2025

FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA, JESUS, MARIA E JOSÉ

Encerramento do Ano Jubilar 2025 - Peregrinos de Esperança

 

"FAMÍLIA: BERÇO DO AMOR, DA ESPERANÇA E DA VOCAÇÃO!"

https://youtu.be/rb8_nIlIpg0?si=geabQH8QIzDWpyKX


SB SABENDO BEM INFORMA

 

Caro(a) Leitor(a) amigo(a):

O meu abraço fraterno e uma ótima semana a todos!

ACESSE SEMPRE O BLOG: sbsabendobem.blogspot.com e divulgue aos seus amigos, conhecidos e contatos nas redes sociais. Comente, faça sugestões. Agradeço!

Escreva para: sbsabendobem@gmail.com

SEJA BEM-VINDO! SEJA BEM-VINDA!

 

SEJA BEM-VINDO AO SB SABENDO BEM DA FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA 2025

 

SEJA BEM-VINDO AO SB SABENDO BEM

 

Irmãos e irmãs sejam bem-vindos para juntos celebrarmos a festa da Sagrada Família. O amor da Família de Nazaré é para nós fonte de alegria e certeza de que ser família é responder ao chamado de Deus.

 

O nascimento de Cristo é viva realidade, sinal de fé e esperança para todos. Participando hoje da festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, nos é demonstrado a importância da família para Deus. Isso nos propõe uma profunda reflexão sobre a vida e virtudes da família de Nazaré, na Igreja, nas famílias e no mundo. Iluminados pelos ensinamentos bíblicos, saibamos olhar a realidade concreta de nossas famílias e renovar em nós a esperança e a importância de abri-las a Deus e colocá-las na dinâmica do amor.

Celebrando o mistério do nascimento de Cristo, a Igreja comemora hoje a Sagrada Família de Nazaré: Jesus, Maria e José. Nessa família nasceu e cresceu o Verbo de Deus, para um dia assumir sua missão salvadora no mundo. Em Nazaré, a família vivia em torno de Jesus. Da mesma forma, deve viver a família cristã. Somente assim poderá experimentar o dom da paz. Hoje, nossa Arquidiocese, em comunhão com a Igreja no mundo inteiro, conclui o Ano Jubilar. Agradeçamos ao Senhor o dom desse tempo de graça vivido e supliquemos que perseveremos no caminho da esperança.

Hoje, festa da Sagrada Família, encerramos o Ano Jubilar em nossas Dioceses. "O Ano Jubilar da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo que nos apresentou e nos guiou a um tempo de esperança na vida da Igreja a todos os cristãos e cristãs. Que a nossa fé e a esperança tenham sido renovadas em nossa vida reafirmando que a esperança não decepciona!"

 

   Celebra-se a festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José no domingo após o Natal. Esta festa desenvolveu-se a partir do século XIX, no Canadá e, depois, em toda a Igreja, a partir de 1920. No início, era celebrada no domingo após a Epifania. Esta festa tem o intuito de apresentar a Sagrada Família de Nazaré como "verdadeiro modelo de vida" (Coleta), no qual as nossas famílias possam se inspirar e encontrar ajuda e conforto.

 “Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo”. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: do Egito chamei o meu filho". Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino”. José levantou-se, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel. Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judeia, no lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Ao receber o aviso divino em sonhos, retirou-se para a região da Galileia, onde foi morar na cidade de Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: “Será chamado Nazareno” (Mt 2,13-15,19-23).

Família “em movimento”

O que mais chama a atenção na leitura do texto do Evangelho são os muitos verbos de "movimento": partir, levantar-se, fugir, refugiar-se, morar... O mapa geográfico também não fica muito atrás: Belém, Egito e, depois, Nazaré. Podemos encontrar, com certeza, a chave destes "movimentos" na citação do profeta Oséias: "Do Egito chamei meu filho": lugar de refúgio para os perseguidos e ponto de partida do Êxodo de Israel. Desta forma, a Família de Nazaré retoma o caminho de tantos perseguidos e refugiados, ao longo da história, mas, ao mesmo tempo, confia na mão poderosa de Deus, que sabe libertar seu povo.

A experiência da Sagrada Família leva-nos a pensar nas tantas famílias que, hoje, estão "em movimento". Essas famílias, certamente, são obrigadas a deixar suas casas e suas terras em busca de paz, serenidade e trabalho; faz-nos pensar também naquela apreensão, que nossas famílias cultivam, pela preocupação de não chegar ao final do mês, por causa dos problemas econômicos, da instabilidade emocional dos cônjuges, do medo das doenças...

Seguindo o exemplo da Família de Nazaré, as nossas famílias, como as famílias humanas, podem aprender a deixar-se guiar pela poderosa mão de Deus. Por um lado, em muitas situações, sentimo-nos "refugiados", estrangeiros na nossa própria terra ou no coração de quem amamos; por outro, todos os obstáculos e dificuldades podem transformar-se em uma oportunidade de "êxodo" e de "conversão", que nos conduzem à serenidade, à paz, à estabilidade.

O Espírito Santo fala às famílias de hoje

O Espírito Santo continua, ainda hoje, a guiar "todos os povos", "todos os casais", "todos os pais". Porém, temos que ouvir o que o Espírito nos fala. Se o Filho de Deus vem ao nosso encontro, através de um Menino, e se o nosso olhar de fé pode captar esta presença, então temos que lembrar que as coisas do dia a dia tem sua importância; os encontros cotidianos nunca são inúteis ou puras coincidências. Por isso, é preciso manter nosso olhar de fé, dentro e ao nosso redor, pois podemos encontrar ou rejeitar a presença de Deus em todos os lugares, porque tudo é um sinal, para quem acredita.

Evangelho da família

 

Viver o Evangelho da família, sobretudo hoje, não é fácil: somos criticados ou atacados porque defendemos a vida, desde o seio materno. No entanto, o Evangelho nos mostra o caminho, talvez exigente, para vivermos uma vida digna, em nível pessoal e familiar, mas fascinante e totalizante: um caminho que, ainda hoje, merece confiança e crédito, sob o exemplo e intercessão da Família de Nazaré. Em toda família há momentos de felicidade e tristeza, de tranquilidade e dificuldades. Esta é a vida. Viver o "Evangelho da família" não nos dispensa de passar por dificuldades e tensões, momentos de alegre fortaleza e de triste fragilidade. As famílias feridas e marcadas pela fragilidade, fracassos, dificuldades... podem reviver, se souberem haurir da fonte do Evangelho; assim, poderão encontrar novas possibilidades para recomeçar.

https://www.vaticannews.va/pt/feriados-liturgicos/sagrada-familia-de-nazare.html