11- REFLETINDO
COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*) (**)
"PEQUENO
TRATADO DAS GRANDES VIRTUDES, DOS PIORES VÍCIOS,
E DOS
DESLIZES MENOS GRAVES"
[Parte I]
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A VIRTUDE: O BEM. Simplificadamente, o bem é aquilo que reputamos como valioso
para nós e para os demais. Acredita-se que possa existir um bem absoluto, ou
apenas bens que dependem de diferentes culturas, épocas pessoas e
circunstâncias. O problema começa quando se insiste em transformar um bem
particular, ou o bem de um grupo, em medida universal. Quando isso acontece,
esse bem pode acabar se transformando em mal, o mal em maldade, e a maldade em
barbárie universal.
O
VÍCIO: O MAL. Se o mal é a simples ausência do bem, ou algo bem pior do que
imaginamos, não se sabe ao certo. O que com certeza se sabe é que quando o mal
se traveste de bem, e consegue arrastar e enganar multidões se passando por bem
supremo, só Deus para reverter essa espécie de adoração sem pé nem cabeça. Com
o mal não se brinca. Nem de esconde-esconde nem de queimada. De matança, então,
nem pensar. Esquece!
O
DESLIZE MENOS GRAVE: O EGOCENTRISMO MODERADO. Às vezes fazemos o bem porque
fazer o bem também nos faz bem. Gostar de reconhecimento, admiração, ou
simplesmente da agradável sensação de ter feito algo bom, de forma alguma
invalida o bem realizado. Talvez até o transforme em um bem ainda maior. O bem
que se faz, faz muito bem. Amplifica a virtuosidade e se aproxima da
bem-aventurança. Se o sermão é o da montanha ou o da planície, que diferença
isso faz? Diferença alguma! Desde que haja teleférico à disposição de quem já
está mais pra baixo do que pra cima.
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A VIRTUDE: A PRUDÊNCIA. Prudência não é exatamente o temor ou o medo de agir,
como se poderia pensar, mas sabedoria para saber quando, como e por que agir,
ou, se a situação assim o sugerir, aguardar pela melhor hora e a melhor
oportunidade. A prudência não elimina o risco; apenas procura avaliá-lo como
convém e minimizá-lo quando possível. Na vida, nem toda decisão precisa ser
imediata e nem toda oportunidade precisa ser aproveitada. “Vou deixar passar,
ok!? Mesmo assim, obrigado!”. E pronto! Caso encerrado.
O
VÍCIO: A TEMERIDADE. A coragem muda de figura quando a impulsividade toma o
lugar da racionalidade e o risco deixa de ser avaliado. Ousadia sem controle
pode acabar transformando a prudência em imprudência, a imprudência em
temeridade, e a temeridade em fracasso. Geração Fast é foda. É ansiedade e
compulsividade que não acabam mais. Haja Prozac!
O
DESLIZE MENOS GRAVE: A HESITAÇÃO. Às vezes pensamos tanto, mas tanto, antes de
tomar uma decisão, que a própria escolha começa a passar da validade por
decurso de prazo. Mas, na medida certa, voltar atrás e colher sugestões
diversas pode contribuir para não transformar a hesitação em precipitação. De
precipitar, vem precipício. Sabia disso? Se beber, não dirija. Se dirigir, não
beba. Na dúvida, não ultrapasse.
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A VIRTUDE: A CORAGEM. Coragem não é necessariamente ausência de medo, como se
costuma pensar, mas disposição para agir mesmo quando – e sobretudo – o medo
está presente. Muitas vezes ninguém percebe o medo que precisou ser vencido
para que alguém fizesse o que precisava ser feito. Digamos que essa é uma
espécie de “medo subliminar”. Já ouviu falar!? Não!? Nem eu! Para que serve!?
Deve servir para enfrentar algum tipo de perigo da mesma natureza: perigo
subliminar.
O
VÍCIO: A COVARDIA. O medo nos protege, na medida em que nos põe em retirada
quando o melhor é cair fora, dar no pé o quanto antes. Mas, quando esse mesmo
medo assume as rédeas que deveriam permanecer em mãos da razão, ele passa a
decidir por nós sem nos dar a mínima bola ou explicação. Diante do medo
inventamos desculpas para justificar nossa procrastinação, e permanecemos
empacados como um burro preso no atoleiro. “Pode parar de empurrar! Parece que
o burro emburrou e atolou de vez!”. Dizem que burro é um cavalo que nunca foi
na escola. Será mesmo!?
O
DESLIZE MENOS GRAVE: A CAUTELA. Há momentos em que recuar significa reconhecer
que nem toda discussão merece ser comprada e nem toda batalha merece ser
travada. Nessas horas, retroceder pode ser a melhor estratégia de se preparar
para o próximo passo. Sun Tzu sabia disso. "A Arte da Guerra", tá
lembrado? Ouro e prata são preciosos!? A cautela é ainda mais. Acautelai-vos,
meu povo! Acautelai-vos. Ei, ei! Eu disse "acautelai-vos"; e não,
"aquartelai-vos". Fala sério! Só me faltava essa!
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A VIRTUDE: A JUSTIÇA. Justiça não é apenas dar a cada um o que é seu, ou, na
contrapartida, receber de volta o que é nosso. O Direito pode até estabelecer
regras gerais e normas necessárias, mas cabe à consciência, em última
instância, indagar do que é justo e do que pode demandar equidade. Nesse
sentido, justiça é muito mais uma questão de ética e de princípios, do que de
leis e judicialismo. “Com todo respeito, Kelsen, com toda admiração e respeito
pela Teoria Pura do Direito! Mas sou mais Miguel Reale, com a alternativa da
tridimensionalidade: o Direito como norma, fato e valor”.
O
VÍCIO: A INJUSTIÇA. Todos somos, de algum modo e em certa medida, julgadores e
juízes "ad hoc" ou ocasionais da vida do outro. Da própria, então,
nem se diga. Bendita consciência! Nessas horas, a boa intenção pode não bastar
para impedir uma injustiça, mas julgar sem ela já é começar julgando
injustamente. Agora, se o inferno está ou não, cheio de reta ou boa intenção,
isso já não é comigo. Não me diz respeito. Tô fora! Tanto do inferno, quanto
dessa maledetta confusão.
O
DESLIZE MENOS GRAVE: A PARCIALIDADE AFETIVA. É humano, e humanamente
compreensível, olhar com mais benevolência para quem amamos, admiramos ou para
com quem nos identificamos. Mas esse olhar começa a ser problemático quando a
proximidade afetiva passa a ser o principal peso no prato da balança. A boa
intenção pode ser absolutamente boa, como já foi dito e queria Kant, mas ainda assim pode ser absolutamente
insuficiente. Se é suficiente para manter a gente fora do inferno,
provavelmente. Já para entrar no céu, há quem diga que é exigido senha,
credencial e passaporte.
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A VIRTUDE: A GENEROSIDADE. Entre tantas outras definições, generosidade pode
ser entendida como a disposição em compartilhar tempo, conhecimento, atenção,
afeto e presença, para citar apenas alguns dos bens mais preciosos. A
excelência da generosidade – ou, se se preferir, sua virtuosidade – consiste em
dividir ou compartilhar sem transformar o receptor em um potencial devedor. Ou
seja, compartilhar porque podemos e desejamos fazê-lo, e não porque talvez
possamos precisar e cobrar tempo depois. Sinceramente!? Aquela passagem bíblica
do administrador infiel e desonesto é difícil de digerir. Engolir, então, mais
ainda. Com todo respeito e reverência para com as Escrituras consideradas
Sagradas, claro. Quem sou eu para questionar a Palavra de Deus! Resposta do
Criador: "Imagem e semelhança minha, por um lado, um cabeça de bagre, por
outro".
O
VÍCIO: A AVAREZA. Avareza não diz respeito apenas a dinheiro, herança e
riqueza, como comumente poderia se pensar. O avarento pode ser excessivamente
econômico em quase tudo: no tempo, na atenção, nos elogios, no afeto e sei lá
mais em quê, incluindo, claro, no soldo. Soldo, de dinheiro, e não soldo de
solda nem de soldado. No frigir dos ovos, o avarento experimenta um paradoxo
dramático: quanto mais ele acumula, menos disposição para compartilhar ele
demonstra. Mas talvez seu maior entrave seja mesmo com a morte: além de levar
tudo, ainda leva junto o dito cujo. E não adianta tentar negociar. Sem chance.
Para piorar, leva tudo cobrando juros, dividendos e correção monetária. Todo
avarento deve ter um parafuso avariado. Ou meio solto. Só pode!
O
DESLIZE MENOS GRAVE: A COMPLACÊNCIA. Às vezes oferecemos mais do que deveríamos
oferecer, avançamos quando deveríamos recuar, dizemos sim quando o não seria o
melhor a ser dito. Tudo em nome do bom entendimento e da sagrada comunhão de
vontades. Isso pode até ser compreensível em determinadas situações. O erro se
instaura quando se começa a transformar a exceção em regra e a regra em
princípio. Aí o boi acaba indo para o brejo. E quando o boi vai para o brejo,
como reza o ditado, a vaca e a boiada toda vão atrás.
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A VIRTUDE: A COMPAIXÃO. Compaixão é reconhecer que a perda, a dor e o
sofrimento do outro também nos dizem respeito. O pó do qual um foi feito, é o
mesmo pó do qual foi feito o outro. Até que se prove o contrário, Deus não cria
lixo. Quem recicla sabe disso. Mas classificar como lixo o que foi criado à
imagem e semelhança do Criador pode acabar sendo um tiro pela culatra:
desclassifica o próprio classificador.
O
VÍCIO: A CRUELDADE. Em sentido inverso à compaixão, a crueldade começa quando a
dor, o sofrimento e a perda do outro deixam de ter qualquer relação comigo,
contigo e conosco. Com vós, convosco e com vocês também. Não nos toca. Não nos
diz respeito. Tô nem aí! Vá se danar! Desse “nada tenho a ver com isso” para a
indiferença, e da indiferença para o desprezo, costuma ser um passo.
Detalhezinho de nada: a crueldade nem sempre grita, mas ainda assim pode ser
gritante. Por vezes, simplesmente passa ao largo, desviando o olhar como se
fosse um cego que só enxerga o que quer enxergar e o que lhe diz respeito. Não
um cego de nascença, mas um cego da indiferença. Lente de quarenta e cinco
graus, com cegueira térmica chegando a cinquenta. Lupão!
O
DESLIZE MENOS GRAVE: A PIEDADE SENTIMENTALISTA. Podemos sentir pena, nos
comover e até morrer de comiseração diante da dor e do sofrimento do outro.
Isso é bom. Nada contra. Talvez até haja uma centelha do divino nesse impulso
para o bem bem intencionado. Mas é pouco. Sinto muito! Muito pouco.
Absurdamente necessário, mas absolutamente insuficiente.
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A VIRTUDE: A HUMILDADE. Humildade é reconhecer que não sabemos tudo, não
podemos tudo e, acima de tudo, que nem sempre temos razão em tudo. Ufa! Só um
minuto! É possível, sim, como não!? – ser superior em alguma coisa sem se
sentir superior a qualquer pessoa. Quem se julga um ser superior raramente
trata o outro com o mesmo respeito e dignidade com que espera ser tratado.
“Sabe com quem está falando!?”. “Sei sim! Com um cabeça de pudim metido a
besta! Desculpe! Esqueci o vossa excelência!”. Supremo!
O
VÍCIO: A SOBERBA. A soberba entra em cena quando o valor atribuído a si mesmo
insiste em ocupar espaço além do necessário e do suficiente. Conhecimento vira
superioridade, experiência vira autoridade e opinião vira certeza. Já não basta
saber: é preciso estar acima. Custe o que custar. De tudo e de todos, de
preferência. A soberba acaba transformando a sabedoria, que é um bem desejável,
em um mal que acabou escapando da caixa de Pandora. Difícil é capturar e
devolver esse bendito mal ao seu lugar, STF. Suprema Tribuna de Faraós.
O
DESLIZE MENOS GRAVE: A MODÉSTIA EXCESSIVA. Às vezes diminuímos nossas
qualidades e até nós mesmos, por pura educação, timidez, insegurança, ou pelo
simples receio de parecermos arrogantes. Há certa elegância nesse modo de ser e
de se comportar. Mas a modéstia se transforma em arapuca quando começa a
cortejar a culpa como par da próxima dança. Mas a modéstia se transforma em
arapuca quando começa a cortejar a culpa como par da próxima dança. Aí, não tem
jeito! A emenda acaba ficando pior que o soneto. Dançou de vez.
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A VIRTUDE: A TRANSPARÊNCIA. Na falta de uma melhor definição, transparência é a
disposição de manter uma relação leal com a verdade, consigo mesmo e com os
outros. Não significa necessariamente dizer tudo o que sabemos,y pensamos ou
somos de uma só vez – há um tempo para cada coisa debaixo do céu. Antes,
significa não construir deliberadamente uma realidade falsa para obter com ela
ganho ou vantagem indevida. Para ser franco, sincero e transparente – e conseguir
sobreviver dignamente – pode até ser
necessário ocultar certas coisas, em certas situações e em certos momentos. Só
a boa intenção é sempre e absolutamente boa em toda e qualquer situação,
segundo Kant. Ainda assim, há quem levante controvérsias. Controvertidamente.
O
VÍCIO: A DISSIMULAÇÃO. Dissimulação não é apenas manter certa pose ou imagem
com a intenção de ser bem visto por todos e sair bem na foto. Mais que isso, é
construir uma aparência destinada a produzir no outro uma impressão falsa,
objetivando não perder algo ou ganhar alguma coisa, ou ambas as coisas juntas.
Ela pode ser discreta, elegante e até socialmente conveniente. Mas, quer queira
quer não, continua sendo enganação. Tal
como engana a raposa e dissimula o camaleão. Tem gente que dissimula tanto, que
no fim acaba enganando até o espelho. "Diz aí, meu irmão! Hoje eu tô ou
não tô bonitão!?". Por questão de segurança, dessa vez vou deixar de fora
a balança.
O
DESLIZE MENOS GRAVE: A OMISSÃO PRECAVIDA. Nem tudo o que sabemos, pensamos ou
sentimos precisa ser dito ou revelado seca e imediatamente. Às vezes, silenciar
uma informação é apenas uma forma prudente de preservar a si mesmo, de
preservar alguém, ou simplesmente aguardar o momento mais adequado para revelar
o que precisa ser comunicado. O problema começa quando a precaução vira
estratégia para esconder deliberadamente aquilo que o outro tem o direito de
saber. Aí, a omissão deixa de ser precaução e começa a mudar de nome.
Triadicamente: negligência,
irresponsabilidade e leviandade. O sujeito tanto se camuflou de árvore, que
acabou virando poste no Alasca.
Obs.: Esta primeira parte continua e será completada pelas
partes seguintes, de mesmo título.
(*) Texto enviado pelo
autor, via Whatsapp de Vitória (ES).
(**)Possui
graduação em teologia pelo Instituto teológico pio XI (1983), graduação em
Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (1997), graduação em
Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, ciências e letras (1986) e
mestrado em Filosofia pela Pontificia Universidade Gregoriana ,Roma -
Itália(1988) . Foi por 11 anos consecutivos professor de filosofia jurídica e
psicologia Jurídica do Centro Universitário de Vila Velha, ES.Durante esses 11
anos foi Coordenador Pedagógico por 05 anos e de Ensino por 1 ano e meio do mesmo
Curso de Direito. Atualmente é terapeuta de grupo, individual, vocacional,
Consultório Clínico Psicológico particular. Formou-se recentemente em
Psicodrama (02 anos) pelo Instituto Pegasus de Vitória, ES. Atualmente, cursa a
pós graduação TCC - Terapia Cognitivo Comportamental.