4.2-HOMILIA DA COMEMORAÇÃO DE TODOS OS FIÉIS DEFUNTOS
A ESPERANÇA QUE PREPARA O ENCONTRO COM DEUS
“Que vossos
rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas” (Lc.12,35)
Depois de ter celebrado a glória e a felicidade dos Santos, no
dia 1 de Novembro, dedicamos o dia à oração de sufrágio pelos irmãos que
adormeceram na esperança da ressurreição. Tem sido assim ao longo da história.
Desde o século II, os cristãos rezavam pelos falecidos, visitando os túmulos
dos mártires. No século V, a Igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos
aqueles que haviam falecido sem família e que muitas vezes não eram lembrados.
No século X, o abade de Cluny, santo Odilon, pedia aos monges que orassem pelos
mortos. Desde o século XI, os Papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e
Leão IX (1015) ordenavam as comunidades cristãs a dedicar um dia aos mortos. No
século XIII, esse dia anual passou a ser comemorado no dia 02 de Novembro. E em
1915, o Papa Bento XV, tornou oficial, para toda a Igreja, esta comemoração.
A festa da esperança cristã: a esperança na vida eterna, na vida
em Deus! Por isto, a Igreja nos ensina que muito mais do que um dia de
tristeza, se trata de um dia celebrativo que alimenta a esperança de um dia
estarmos todos reunidos com Deus na plenitude de sua glória. Deste modo
vivenciamos a comunhão de todos os fiéis conforme rezamos na Profissão de Fé e
nos recorda o Missal Romano: “A
Igreja oferece pelos defuntos o sacrifício eucarístico da Páscoa de Cristo, a
fim de que, pela mútua comunhão entre todos os membros do Corpo de Cristo, se
alcance para uns o auxílio espiritual e para outros consolação e esperança”.
Na Primeira
leitura (Jó 19, 1.23-27ª) ouvimos um trecho do diálogo de
Jó com seus amigos. De modo semelhante ao que acontece conosco quando tentamos
consolar alguém que padece o luto, os amigos de Jó, diante de todo sofrimento
experimentado por ele, tentam lhe consolar com palavras superficiais que
revelam falta de conhecimento do amor de Deus. Jó, no entanto, revela uma
esperança até então desconhecida pelos seus amigos. Na solidão do abandono e
próximo a morte, Jó clama e afirma Deus como “redentor”. Conforme os costumes
hebreus, toda família possuía um “goel[1]” que traduzindo para nosso idioma seria
um “redentor”,
isto é, um membro da família que deveria comprometer-se a resgatar o seu
familiar em caso de escravidão, de pobreza ou de morte. Assim compreendemos que
em um grande salto de fé, Jó enxerga que Deus é o seu último e definitivo
defensor. Jó reconhece Deus como seu parente em missão para redimi-lo e resgatá-lo.
Ele está vivo e se comprometeu com ele como em um tipo de parentesco com um
vínculo indissolúvel. Por isto, afirma com ênfase: “Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão a Deus”.
Na Segunda
leitura (1Cor 15,20-24a.25-28) ao escrever para a
comunidade cristã de Corinto, o Apóstolo Paulo revela com vigoroso esplendor
aquilo que nas palavras de jó foi apenas vislumbrado. O redentor clamado por Jó
é na verdade o Filho de Deus, Jesus Cristo. Ele veio em nosso socorro e nos resgatou
da desolação da morte para onde nosso pecado havia nos precipitado. Sua
ressurreição são as “primícias”, isto é, os primeiros frutos da salvação que
Deus planejou para a humanidade. Por isto, pela estrada da vida eterna por onde
Cristo passou pela sua obediência e submissão a Deus Pai, todos nós seus
discípulos haveremos de passar se o imitarmos na entrega total do dom da vida e
da obediência a Deus. A morte veio por um homem: Adão, que rejeitando o projeto
divino afastou-se de Deus e trouxe pecado e morte ao mundo (Gn.2,17; 3,19; Rm.5,12-21).
O Homem definitivo, Jesus Cristo, ofereceu o sacrifício capaz de destronar o
pecado e trazer vida e ressurreição àqueles que creem nele.
Neste dia em que fazemos memória dos fiéis defuntos, que
acreditamos estarem vivendo sua comunhão eterna com Deus, dedicamo-nos à oração
e à reflexão sobre o mistério da morte e ressurreição. A cada domingo, ao
recitar o Credo, nós confirmamos esta verdade. Hoje, visitando os cemitérios
para rezar com saudade, afeto e amor pelos nossos falecidos, somos convidados,
mais uma vez, a renovar nossa fé na vida eterna, e também testemunhá-la com
esperança ao mundo. E é precisamente a fé na vida eterna que oferece aos
cristãos a coragem de se manter preparado para acolher a Deus, não como um
estranho desconhecido que bate a nossa porta na escuridão tenebrosa da noite,
mas como nosso Redentor. Por isto, tenhamos a certeza: não é hora de cair no
desânimo da letargia espiritual. Pois “já
é hora de despertar do sono. Agora, a salvação está mais perto de nós do que
quando abraçamos a fé”. (Rm.13,11).
Pe. Paulo Sérgio Silva
Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito.
[1] Goel (O Go’el HaDahm) do hebraico
“redimir/redentor” termo pelo qual a Bíblia hebraica e a tradição rabínica
denotam um parente relativo que possui como missão restaurar os direitos
perdidos por uma pessoa próxima. No Livro do Profeta Isaías, Deus é chamado de
Redentor de Israel. Deus é aquele que redime pessoas cativas em circunstâncias
grandiosas. Sendo o Goel/redentor aquele que toma por responsabilidade
assumir à culpa ou pagar e resgatar uma mulher de seu parente próximo. No Novo
Testamento é associado a Jesus Cristo, que ao dar a própria a vida pelos nossos
pecados, pagou um alto preço pela humanidade; resgatando-a e trazendo-a
novamente para junto de Deus.
https://diocesedecrato.org/homilia-da-comemoracao-de-todos-os-fieis-defuntos/

Nenhum comentário:
Postar um comentário