sábado, 29 de março de 2025

IX- REFLEXÃO DOMINICALIII Alegria da misericórdia

 

IX-             REFLEXÃO DOMINICALIII

 

Alegria da misericórdia

Ao ler mais uma vez a parábola do filho pródigo, eu pensava que é verdadeiramente justa a ira de Deus para com os pecadores e que é mais fácil entender a justiça que a misericórdia. Que o leitor não se escandalize com este padre! Vou tentar me explicar. Você assistiu ao filme “Sequestro do metrô 123”? É um filme de ação dirigido por Tony Scott: quatro homens sequestram um metrô e um deles à cabeça vai negociando com as autoridades uma quantidade de dinheiro bastante considerável para não continuar matando os reféns. O sequestrador principal, que parece um autêntico psicopata e sem dúvida um desequilibrado mental, ao negociar por telefone encontra num dos controladores do metrô uma pessoa simpática com quem conversar. Neste diálogo há um momento em que o sequestrador de alguma maneira acaba professando-se católico. Nesse interessante diálogo, o controlador, do outro lado da linha, lhe diz que um católico não pode matar, muito menos a pessoas inocentes como aquelas que estavam no metrô, seus reféns. O sequestrador lhe diz uma frase rotunda, mas verdadeira: “o que o católico sabe é que ninguém é inocente”.

Excetuando Jesus e Nossa Senhora, ninguém é inocente! Por outro lado, é lógico: ao culpado se aplica uma pena! Isso não é muito difícil de entender. Outro exemplo: já pensou se um dia, num determinado momento, os órgãos da justiça e os policiais, num arrebato de misericórdia, resolvessem soltar todos os presos, muito deles ladrões e assassinos? Tenho certeza que a outra parte da sociedade se levantaria indignada entre protestos e diria que a justiça ficou louca. Produzir-se-ia um medo geral e nem quereríamos sair às ruas. Ficaríamos com a sensação de que a qualquer momento alguém poderia roubar-nos ou matar-nos. Não é muito mais fácil compreender que os presos fiquem na cadeia pagando o que devem? Efetivamente, a justiça é mais compreensível que a misericórdia!

O capítulo quinze do Evangelho segundo São Lucas contêm três parábolas chamadas “da misericórdia”: a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho perdido. Tudo perdido! Mas, se invertemos o quadro temos o bom pastor que busca a ovelha, a boa mulher que busca a sua moeda e o bom pai que espera e ama o seu filho pródigo. Tanto o pastor quanto a mulher têm umas atitudes que não são nada comuns, o mesmo diga-se do pai do filho pródigo. Nem naqueles tempos nem hoje em dia se atuaria dessa maneira! Pense comigo: se você fosse um pastor e tivesse cem ovelhas, delas perdesse somente uma, será que deixaria as noventa nove sozinhas, com perigo de perderem-se, para procurar somente aquela desgarrada? Será que é lógico deixar noventa e nove ovelhas sozinhas e procurar somente uma? Eu pelo menos deixaria a pobre ovelha pra lá, não correria o risco de perder noventa e nove ovelhinhas por causa de uma ovelha boba. E se você tivesse dez moedas e perdesse uma, faria como aquela mulher da parábola: acenderia a luz, varreria a casa colocando-a quase de cabeça para baixo para encontrar a única moedinha perdida? Como se não bastasse: convidaria os amigos para dar uma notícia tão efêmera como essa do encontro de uma mísera moeda? Eu pelo menos não atuaria assim!

Por último, no texto do Evangelho de hoje aparece um filho que pede a parte da herança, gasta com prostitutas e depois se apresenta ao seu pai como culpado. O pai, ao encontrá-lo, o festeja, o presenteia e faz uma festa para ele… Esse pai está louco! No fundo, dá vontade de ver esse filho malandro levar uma boa surra do pai. Não sei se você estará de acordo comigo, querido leitor, mas não é difícil entender que um bom pai corrija com fortaleza um erro cometido por um filho seu. Realmente, é mais compreensível que uma só ovelha se perca que correr o risco de perder as noventa e nove; é mais lógico deixar uma moeda pra lá que revirar a casa por uma só moedinha e depois – e isso é o cúmulo – convidar os amigos, fazer uma festa e gastar mais do que vale a moeda encontrada; é mais fácil entender que o pai desse uma bronca naquele filho sem-vergonha. Enfim, é mais fácil compreender a justiça que a misericórdia!

No entanto, a lógica do Evangelho é outra! Sem contrapor a justiça à misericórdia, a parábola nos apresenta um pai que não é o comum dos pais desta terra, mas o pai só pode ser Deus. Alguma vez escutei e disse aquela frase de que “Deus perdoa tudo, o homem perdoa muitas vezes e a natureza não perdoa nunca”. Hoje eu gostaria de defender a primeira parte: Deus perdoa tudo! Isso sim é motivo de grande alegria! Ele é o nosso Pai, cheio de amor para conosco. Nós, culpados e pecadores, cheios de boas intenções e, também, cheios de intenções torcidas e más ações, somos os queridos de Deus. Já está justificada a nossa alegria para todo o dia de hoje: Deus é Pai! Eu sou seu filho! Deus é muito bom e os sacerdotes no Sacramento da Penitência têm o Coração de Deus e, por isso, compreendem sempre. Não tenha medo e vá se confessar!

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

http://www.npdbrasil.com.br/religiao/rel_hom_gotas0156.htm#msg02

X- Campanha da Fraternidade de 2025: “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31)

 

 

 

 

X-             Campanha da Fraternidade de 2025: “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31)

 

Por Moema Miranda, ofs*

 

Em 2025, a Campanha da Fraternidade acolhe o tema mais desafiador de nosso tempo: a ecologia integral. Neste artigo, reconhecendo a profundidade da emergência ambiental que atravessamos, procuramos refletir sobre as razões das dificuldades em tratar esse como um tema central. A tradição cristã pode nos ajudar a ampliar nosso compromisso com a defesa da criação. O tempo para agir é agora.

 

1. DE ONDE PARTIMOS?

A Campanha da Fraternidade (CF) – que começou a ser celebrada nacionalmente em 1964, “como expressão da solidariedade da Igreja em favor da dignidade da pessoa humana” (CNBB, 2024, p. 15) – é uma das mais consistentes e persistentes iniciativas pastorais da Igreja no Brasil. Acompanhando a Quaresma, tempo de penitência e conversão, contribui para estimular uma espiritualidade encarnada, na qual fé e vida comunitária se abraçam. A dimensão pessoal e intransferível de nosso seguimento de Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado, realiza-se em plenitude na comunhão com toda a Igreja, o corpo místico de Cristo atuante no mundo, que, por sua vez, é o lugar da encarnação do próprio Deus. Assim, Quaresma, para nós, é tempo de penitência, conversão e expressão comprometida de solidariedade com toda a criação.

Neste ano, o tema da CF, escolhido por sugestão da Comissão Episcopal Especial para Mineração e Ecologia Integral, tem uma atualidade desafiadora. Escrevo este artigo quando, em nosso país, as chamas de incêndios comprovadamente criminosos destroem florestas e matas, afetando incontáveis vidas humanas e não humanas: sofrem e choram flores, rios, aves, peixes e pessoas, sufocadas pela fumaça e pelo calor. A CF, então, amplia seu sentido de solidariedade para abranger não apenas a “dignidade da pessoa humana”, como no início, mas também a todos os seres viventes, a toda a biosfera. Acolhe os seres não humanos, como florestas e rios, seres que sentem dor e morrem. Assim,
a fraternidade que a CF suscita é expandida em espírito profundamente franciscano e se torna, no mundo, chamado à fraternidade universal. A água irmã e a terra mãe se unem em oração, para que a CF estimule atitudes de penitência e conversão pessoal e social na mesma proporção dos pecados ecológicos que presenciamos.

Na Quaresma de 2025, sabemos que o mundo estará ainda mais quente do que agora: os acontecimentos ambientais que atravessamos não são passageiros. Eles, no entanto, não podem nos deixar paralisados. Como fiéis seguidores do Ressuscitado, experimentamos e alimentamos a esperança apocalíptica que nasce em meio à catástrofe; que resplandece mesmo na noite escura; que nos acompanha na travessia dos abismos profundos, alimentada pela confiança em que não estamos sós: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o final dos tempos” (Mt 28,20), disse-nos Jesus. Assim, alimentados pela teimosa esperança dos que vencem a morte, devemos e podemos nos preparar desde já para que a Quaresma de 2025 nos encontre dispostos a gestos concretos de cuidado com toda a criação.

2. PARA VER, DEVEMOS ABRIR OS OLHOS, O CORAÇÃO E A ALMA

Quando cantamos hinos de louvor e júbilo pela incrível beleza da criação, sentimos nosso coração em festa, como se realmente juntássemos nossa voz à voz dos anjos. Quando olham maravilhados os ipês floridos ou as noites estreladas, o orvalho da manhã ou a aurora de cada novo dia, os poetas fazem versos e festejam a beleza deste planeta tão especial em que vivemos e ao qual pertencemos; onde somos, existimos e nos movemos. Sim, o nosso é um planeta muito especial. Único. Em todo o cosmos que a ciência humana já pode enxergar, existem trilhões de outros planetas, bem como bilhões de estrelas semelhantes ao Sol. Em nenhum deles, porém – até onde os telescópios alcançam –, existem condições propícias à vida: lá não podemos habitar. Lá não podemos louvar a Deus. Aqui na terra, ao contrário, nos nossos mais de quatro bilhões de anos, a vida floresceu de forma cada vez mais densa, plural e ampla. Como diz a canção: “A vida depende da vida para sobreviver”. Desde seu começo, a vida gerou mais vida, criando a biosfera.
O nosso é um “planeta simbiótico” (Margulis, 2001, p. 1), onde as espécies vivas interagem entre si e com todos os elementos planetários: a hidrosfera, a atmosfera etc. Aqui, toda a vida é alimentada pela energia que vem do Sol e, com ela, podemos dizer que somos seres cósmicos. A natureza, portanto, não é apenas a paisagem onde nós, seres humanos, desenvolvemos nossas atividades, sejam elas salvíficas ou não. Como disse o papa Francisco, aqui “tudo está interligado” e os seres dependem uns dos outros. Portanto, neste universo, “composto por sistemas abertos […], [somos levados] a pensar o todo como aberto à transcendência de Deus, dentro da qual se desenvolve. A fé permite interpretar o significado e a beleza misteriosa do que acontece” (LS 79).

No entanto, no Ocidente, desde a Modernidade, ou seja, há pelo menos quinhentos anos, a natureza começou a ser compreendida como “recurso”: como meio de produção destinado à economia humana. Como se fosse inerte, morta, um mecanismo desencantado. O sucesso, em termos tecnológicos e econômicos, possibilitado por essa concepção fez que as noções de “progresso” e “desenvolvimento”, por nós hoje compartilhadas, implicassem extrair, saquear e devastar a terra, os rios, os mares e florestas, de forma incompatível com o metabolismo do planeta. Se entendemos que a Terra é um “superorganismo vivo”, vamos compreender facilmente que tirar da terra, sem dar tempo de regenerar; derrubar, sem esperar renascer; poluir, sem deixar descansar, exaure, cansa e mata. A economia baseada no uso intensivo de petróleo e carvão leva todo o sistema planetário a um estresse desmedido: ao colapso. Nosso sistema alimentar, baseado na indústria da carne e da soja, no envenenamento da água, do solo e do ar pelo uso abusivo de agrotóxicos, para exportação a grandes distâncias, sem descanso e sem trégua, adoece o planeta tanto quanto os corpos humanos.

O mais problemático é que esse modelo se baseia em ideias interiorizadas pela maior parte das nossas sociedades, segundo as quais consumir é sinal de sucesso. Como dizem alguns filósofos, o capitalismo é uma religião, e o shopping center, que estimula para o consumo desmedido de itens desnecessários a parte da população que pode pagar por eles, é seu grande templo. Por isso, é preciso levar a sério a pergunta: “não seria o capital um novo deus, que nos torna novamente devedores?” (Han, 2014, p. 18).

O papa Francisco, na exortação Evangelii Gaudium, afirmou que “a realidade é superior à ideia” (EG 231-233): quer dizer, a realidade, e não nossas ideias sobre ela, tem precedência. Infelizmente, porém, muitas vezes nossas ideias mais viscerais, mais profundamente internalizadas ao longo de anos, dificultam a compreensão das mudanças profundas pelas quais estão passando nosso planeta e nossas sociedades. Assim, ainda que vejamos – com nossos olhos físicos – as chamas das queimadas e o alagamento de cidades inteiras, a morte de pessoas queridas e de muitos outros seres vivos por desastres e catástrofes provocadas pela ação humana, ainda acreditamos – com os olhos de nossas ideias, de nossa mente – que construir estradas, extrair petróleo e abrir minas é sinal de progresso. É o que os cientistas chamam de “dissonância cognitiva”: nossos olhos veem, mas nossas ideias não registram a magnitude das mudanças. Assim, vemos, mas não enxergamos. Aplica-se ao nosso tempo o que disse Jesus: “Eles, vendo, não veem e, ouvindo, nem ouvem nem entendem” (Mt 13,13).

O sistema que organiza nossa economia, o capitalismo, estrutura-se, como o próprio nome diz, em torno do “capital”. Os interesses de crescimento do capital é que definem seu propósito e sentido. Lamentavelmente, nem sempre o que é bom para o capital é também bom para as pessoas, para os rios, para a atmosfera, enfim, para o mundo da vida. Apenas um exemplo: quando moramos em um lugar onde existe água abundante e de boa qualidade, nenhum de nós vai pagar para usar a água. Ela flui, e todos os seres dela se beneficiam: as lavadeiras, os girassóis, os peixes e as pessoas. Nesse lugar onde há água em abundância, ela é um bem valioso, mas não é mercadoria. Portanto, não tem preço. Todos ganham mais vida e saúde com a pureza da água, mas ninguém ganha dinheiro. Ou seja, esse lugar é muito bom para a vida, mas não é bom para o capital, porque ali não há um dono que lucra com a privatização da água! Trata-se de um dos vários paradoxos do sistema capitalista: quanto mais escasso um bem, mais valioso para o capital.

A grande e dramática questão é que o uso intensivo e abusivo dos bens da natureza, compreendidos como “recursos naturais”, está levando nosso planeta à exaustão. Passamos a viver um novo regime climático, que exige urgentemente a “reorganização do nosso mundo material”. Como diz o filósofo Bruno Latour, a emergência climática faz que a habitabilidade do planeta seja central. Portanto, ela deveria se “tornar a questão prioritária, à qual todas as demais questões políticas e econômicas estão agora sujeitas. O novo regime climático introduz uma inversão completa da cosmogonia”. Pensávamos que éramos “proprietários” da Terra, quando, na verdade, somos posseiros, passageiros, peregrinos (Latour, 2022).

Efetivamente, o verso do “Cântico das criaturas”, de São Francisco, antecipa em séculos a conclusão das ciências contemporâneas: a Terra nos sustenta e governa. Se ela governa, define os limites. Aceitar e reconhecer limites é urgente e indispensável em um planeta que é limitado, vivo, autopoiético. Assim, garantir que a Terra continue a ser habitável, diz-nos o filósofo, deveria ser o centro de nossa ação política. A expressão “cuidar de nossa Casa Comum”, portanto, deve ser entendida assim: estabelecer como prioridade absoluta a garantia da habitabilidade do planeta e, com base nesse propósito, organizar todas as nossas ações políticas, econômicas, culturais, educacionais e sociais. Sem o planeta Terra, não temos “plano B” para acolher a vida.

Com esse olhar, que compromete toda a nossa emoção, nossa alma e nosso futuro, cumpre-nos levar muito a sério o que nos diz o Texto-base da Campanha da Fraternidade de 2025:

A origem da crise socioambiental no mundo e no Brasil é complexa e tem muitas faces, envolvendo uma conjunção de fatores históricos, sociais, econômicos e políticos. O modelo de desenvolvimento capitalista, baseado na exploração dos patrimônios naturais, na queima de combustíveis fósseis, como os derivados do petróleo, na expansão desenfreada do consumo e na relação mercantilista com a natureza, tem contribuído para uma série de problemas ambientais, como a degradação do solo, o desmatamento, o extrativismo predatório, a poluição, a escassez de água, o comprometimento da biodiversidade com a extinção de algumas espécies e as mudanças climáticas (CNBB, 2024, n. 26).

O novo regime climático exige de nós uma conversão inédita. Nunca antes nossa espécie esteve confrontada de maneira tão definitiva com uma exigência como essa. Portanto, não temos modelos que nos conduzam no percurso de volta ao compromisso e ao respeito com nossa Casa Comum. Sabemos, porém, a direção. Como afirmou o papa Francisco na Exortação Apostólica Laudate Deum, devemos seguir para a “reconciliação com o mundo” (LD 69). Precisamos alterar as ideias e as práticas que nos levaram a tornar a Terra um lugar inóspito para a vida. Os povos indígenas, os quilombolas, os geraizeiros, os ribeirinhos e os camponeses têm muito a nos ensinar sobre o modo de viver em comunhão com a Terra, e a tradição cristã permite que tenhamos uma bússola para essa transição tão urgente! Vejamos.

3. AMAR COMO JESUS AMOU

 Nossa Igreja tem um longo e belo percurso de cuidado com a criação. Desde São João XXIII, todos os papas foram explícitos na condenação à exploração desmedida dos bens da natureza. As conferências episcopais de todos os continentes vêm continuamente emitindo pronunciamentos nessa mesma direção. Aqui no Brasil, foram várias as Campanhas da Fraternidade desenvolvidas com temas ecológicos. Também as pastorais sociais, já com a criação do Conselho Pastoral dos Pescadores, em 1970, do Conselho Indigenista Missionário, em 1972, e da Comissão Pastoral da Terra, em 1975, atuam firmemente em defesa da criação.

Foi como herdeiro dessa sólida tradição que, em 2015, o papa Francisco escreveu a primeira encíclica ecológica de nossa Igreja, a Laudato Si’. A encíclica completará dez anos em 2025 e tem sido uma referência indispensável, dentro e fora da Igreja, para os que buscam caminhos de conversão ecológica. A encíclica integra a Doutrina Social da Igreja, devendo ser lida e estudada como parte de um compromisso profundo e renovado do magistério.

A magnitude da crise ambiental, no entanto, exige que reconheçamos, como fez o papa Francisco, que muitas vezes uma interpretação equivocada dos textos bíblicos foi utilizada como justificativa para atitudes de domínio despótico sobre a natureza. Diz o papa:

foi dito que a narração do Gênesis, que convida a “dominar” a terra (cf. Gn 1,28), favoreceria a exploração selvagem da natureza, apresentando uma imagem do ser humano como dominador e devastador. Mas esta não é uma interpretação correta da Bíblia, como a entende a Igreja. Se é verdade que nós, cristãos, algumas vezes interpretamos de forma incorreta as Escrituras, hoje devemos decididamente rejeitar que, do fato de ser criados à imagem de Deus e do mandato de dominar a terra, se deduza um domínio absoluto sobre as outras criatura. É importante ler os textos bíblicos no seu contexto, com uma justa hermenêutica, e lembrar que nos convidam a “cultivar e guardar” o jardim do mundo (cf. Gn 2,15) (LS 67, grifo nosso).

 Assim, a Campanha da Fraternidade de 2025 nos convida a uma leitura profunda, comprometida e inspiradora dos textos sagrados, com uma hermenêutica apropriada. Com isso, a dimensão de carinho e amor pela criação vai se nos revelando de forma apaixonante. Toda criação é fruto do amor de Deus, que cria e admira, vendo que “tudo era muito bom” (Gn 1,31). A primeira narrativa bíblica “contempla o ser humano no meio dos elementos que, na fé do Israel bíblico, têm grande importância. Não cabe ao ser humano uma autonomia absoluta em relação aos seres criados. A bênção e a Aliança não são apenas para o ser humano, mas para ‘toda a carne sobre a terra’ (Gn 9,17)” (CNBB, n. 67). Assim, a arrogância humana, que alimenta o que o papa Francisco identifica como um “antropocentrismo despótico” (LS 68), não tem base bíblica. Ao contrário, implica uma distorção das Sagradas Escrituras. Nosso Deus é Deus da vida. Deus que dá a Vida. O valor intrínseco de todas e de cada uma de suas criaturas se revela na Bíblia: a água, o ar e o vento, os animais e as plantas não existem para nós. Eles têm valor em si mesmos e, como nos dizem os Salmos, louvam a Deus com sua existência.

O Texto-base da Campanha da Fraternidade mostra também como, na experiência do Êxodo, o Israel bíblico recebe de Deus mandamentos nos quais o cuidado com a preservação da natureza está claramente expresso: “O legislador israelita já reconhece a necessidade de que leis ambientais protejam a fauna e flora”, da mesma forma que “as leis mosaicas ordenam o respeito às plantas. […] Mais ainda: a generosidade da terra estimula o ser humano a ser generoso com toda a criação, da qual ele é parte integrante” (CNBB, 2024, n.74-76).

Jesus de Nazaré, “por pertencer ao povo judeu, bem conheceu as tradições contidas na Torá. […] Como um camponês galileu, integrado com a criação, observa atentamente a sociedade e o ambiente ao seu redor” (CNBB, 2024, n. 80). Nas parábolas, são constantes as referências aos elementos da natureza: sementes, figueiras, solo, mar. Na compreensão de Jesus, toda a terra é “pensada como cocriadora”, porque, se o ser humano lança a semente, é a terra que a acolhe e a transforma em fruto. Portanto, somos chamados a ser corresponsáveis, a compartilhar, a perceber nossa integração em um mundo onde o sopro, a ruah de Deus, habita e continua criando.

Na celebração da Eucaristia, a profunda comunhão de Jesus com todo o mundo da vida se apresenta em sua plenitude. O texto da CF nos remete a esta imagem tão linda, delineada pelo papa Francisco na Laudato Si’: “no apogeu do mistério da encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através de um pedaço de matéria. Não o faz acima, mas dentro, para podermos encontrá-lo no nosso próprio mundo” (LS 236). No prólogo do Evangelho de São João, uma poesia de imensa beleza espiritual, o sentido profundo da encarnação e da criação e a ligação entre elas se explicitam plenamente. Cristo é o Alfa e o Ômega, por quem e para quem todas as coisas foram feitas. O Deus que liberta é o que cria. Por isso, também o papa Francisco ensina que nos cabe compreender o todo da criação “como aberto à transcendência de Deus, dentro do qual se desenvolve” (LS 79). Podemos sentir/pensar, portanto, que todo o universo, com seus bilhões de anos e incontáveis astros e estrelas, está envolvido em uma espécie de “teosfera”, onde o Espírito de Deus, que soprou no início, continuamente cria e recria. E nós, humanos, podemos e devemos encontrar um lugar de paz e aconchego nessa maravilhosa esfera da vida; assumir o lugar de cocriadores, humilde e plenamente integrados, contribuindo para o embelezamento do mundo e para a plenificação, nele, do Santo Espírito de Deus.

4. E, AGORA, AGIR NO MUNDO…

 A força criadora do amor de Deus inspira, mas também exige que cada um de nós, seguidores de Jesus de Nazaré, se ponha em ação neste tempo de catástrofes inusitadas. Se foi a ação humana que propagou o atual caos climático, somos nós os responsáveis por reverter o mal que espalhamos. Um primeiro passo é reconhecer que nem todos os humanos são igualmente responsáveis pela destruição. O papa Francisco, na Exortação Apostólica Laudate Deum, identifica a “elite do poder” como a beneficiária do caos e também, por sua ganância ilimitada, como sua geradora, impondo um modo de vida incompatível com o planeta, desenvolvido segundo o “paradigma tecnocrático”. A aliança entre o poder econômico e o poder dos Estados tem levado, muitas vezes, as políticas públicas a favorecer uma “economia que mata”. No Brasil, vemos que as isenções fiscais, os incentivos e as pesquisas não raro subsidiam práticas agrícolas destrutivas da natureza. Ademais, estamos entre os países mais violentos com os defensores dos direitos humanos e dos direitos da natureza. A cada ano, os relatórios de violência no campo demonstram como os povos indígenas, os camponeses, os quilombolas que defendem seus territórios estão submetidos a ameaças constantes. O assassinato da Irmã Dorothy, que em 2025 completa vinte anos, mostra que os mártires contemporâneos, assim como os do tempo de Jesus, seguem alvejando suas roupas em sangue inocente, enquanto esperam por justiça na terra dos vivos.

Na Laudate Deum, o papa nos chama a um “multilateralismo de baixo”: a ação dos povos, em alianças locais e globais, é o melhor, senão o único caminho seguro para a “reconciliação com o mundo”. Por isso, a Campanha da Fraternidade deve nos fortalecer para, em comunidade e comunhão, buscarmos caminhos de libertação. A conversão ecológica, como vimos, não é um percurso fácil. No entanto, atuando juntos, como irmãos e irmãs, seguidores de Cristo, podemos dar uma contribuição decisiva na busca de alternativas radicais e profundas a um modo de vida desrespeitoso com os outros seres criados e incompatível com o planeta. Nesse caminho, as pequenas ações, os gestos cotidianos, a mudança dos hábitos alimentares, do modo de vida e de consumo, contam muito. Não são, todavia, suficientes. Precisamos de uma mudança sistêmica. Assim, devemos também nos informar e atuar decisivamente na defesa dos territórios dos povos indígenas e quilombolas, na promulgação de leis e políticas públicas que favoreçam o cuidado com a natureza. Nossas escolas devem reaprender e ensinar, desde a mais tenra idade, formas de vida harmonizadas com a Terra. Não há tempo a perder. Agora é o momento de agir!

Que o Deus da vida nos guarde, acompanhe e conduza nesse caminho de volta para a Casa, nosso planeta Terra. Uma morada de muitos quartos, onde todos os seres criados são bem-vindos. Também nós, a humanidade peregrina.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CNBB. Campanha da Fraternidade 2025: Texto-base. Brasília, DF: CNBB, 2024.

FRANCISCO, Papa. Laudate Deum: Exortação Apostólica sobre a crise climática. [Vaticano]: Libreria Editrice Vaticana, 2023. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/es/apost_exhortations/documents/20231004-laudate-deum.html. Acesso em: 3 out. 2024.

FRANCISCO, Papa. Laudato Si’: Carta Encíclica sobre o cuidado da Casa Comum. [Vaticano]: Libreria Editrice Vaticana, 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/es/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso em: 3 out. 2024.

HAN, B. C. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Ayine, 2018.

LATOUR, B. O novo regime climático impõe uma nova forma de fazer política. Instituto Humanitas Unisinos, São Leopoldo, 28 mar. 2022. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/617246-todos-se-sentem-traidos-entendemos-que-esse-modelo-nao-e-mais-possivel-entrevista-com-bruno-latour. Acesso em: 3 out. 2024.

MARGULIS, L. O planeta simbiótico: uma nova perspectiva da evolução. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

Moema Miranda, ofs*

*leiga franciscana, integra a coordenação da Rede Igrejas e Mineração. É assessora da Comissão Episcopal Especial para Mineração e Ecologia Integral (CEEM) e professora do Instituto Teológico Franciscano (ITF).

 

https://www.vidapastoral.com.br/edicao/campanha-da-fraternidade-de-2025-deus-viu-que-tudo-era-muito-bom-gn-131/

XI- SANTOS DE DE 01 DE ABRIL A 06 DE ABRIL

 

XI-             SANTOS DE DE 01 DE ABRIL A 06 DE ABRIL

 

Santo do dia 01 de Abril

Santo Hugo de Grenoble, Bispo (†1132). Apoiou a obra dos monges de Cluny na sua diocese e trabalhou na reforma do clero propugnada por São Gregório VII.

Santo do dia 02 de Abril

São Francisco de Paula, eremita (†1507). São Pedro Calungsod, catequista e mártir (†1672). Nascido nas Filipinas, partiu com os missionários jesuítas para evangelizar as Ilhas Marianas, na Oceania. Foi martirizado por nativos pagãos na ilha de Guam. 

Santo do dia 03 de Abril

São Sisto I, Papa (†128). Romano de nascimento, foi o sexto sucessor de São Pedro. Regeu a Igreja no tempo do imperador Adriano.

Santo do dia 04 de Abril

Santo Isidoro, Bispo e Doutor da Igreja (†636). Beato Guilherme Cuffitelli, eremita (†1411). Terciário franciscano que, renunciando à paixão pela caça, abraçou a vida eremítica em Scicli, na Sicília, e passou 57 anos na solidão e na pobreza.

Santo do dia 05 de Abril

São Vicente Ferrer, presbítero (†1419). São Geraldo, abade (†1095). Iniciado na vida monástica em Corbie, sua cidade natal, tornou–se abade de São Vicente de Laon. A influência de vocações levou- o a fundar vários mosteiros, entre os quais o da Sauve-Majeure, na Aquitânia.

Santo do dia 6 de Abril

Beata Pierina Morosini, virgem e mártir (†1957). Jovem de 26 anos que morreu defendendo sua virgindade, em Fiobbio di Albino (Itália).

https://www.xl1.com.br/santo-do-dia/conheca-os-santos-do-mes-de-abril/

XII- REFLETINO COM LINDOLIVO SOARES MOURA ( * ) "SERIA O FILHO MAIS VELHO, O PERVERSO? VERSO, REVERSO, E O LADO CONTROVERSO DA PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO"

 

XII-            REFLETINO COM LINDOLIVO SOARES MOURA ( * )

 

 

"SERIA O FILHO  MAIS VELHO, O PERVERSO? VERSO, REVERSO, E O LADO CONTROVERSO DA PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO"

                       

"Se é verdade que o corpo  é revelador de nossa idade, não é  menos verdade  que  a mente seja reveladora  de  nossa mentalidade" [L.S.M.]

 

Se nossa "hipótese diagnóstica" faz sentido, mesmo admitindo outras igualmente válidas, os três principais personagens da Parábola do Filho Pródigo - o Pai, o Filho mais Novo e o filho mais Velho - são representativos de três diferentes "mentalidades", e não, como geralmente se pensa e se crê, de três diferentes pessoas ou de três diferentes faixas etárias. Tampouco ignoramos as eventuais razões pelas quais a Parábola não fala e sequer menciona a presença de uma mãe e de uma possível irmã, na estória. Apenas estamos optando por trabalhar com os fatos e os personagens citados, ainda que em forma de "hipótese diagnóstica", como já mencionado, deixando a tarefa de interpretar as possíveis razões dessa lacuna ou "ausência" para quem eventualmente tenha interesse sobre o assunto e se disponha a abordá-lo. Nossa pergunta final, portanto, pode ser assim equacionada: que diferentes mentalidades tanto o autor quanto o redator da Parábola do Filho Pródigo - Jesus e Lucas, respectivamente - parecem pretender retratar com essa paradigmática "estória"? As três "mentalidades" com as quais você estará interagindo a seguir, não representam necessariamente minha interpretação preferida para a Parábola. Antes, representam minha intenção e minha tentativa de identificar a intenção primeira e primordial tanto de seu criador como de seu redator. Apenas e tão somente uma tentativa; nada mais que isso. Feita essa ressalva, podemos prosseguir com nosso objetivo principal já mencionado. Um primeiro ponto parágrafo, com sua permissão, claro, talvez possa ser considerado bem-vindo.

 

A MENTALIDADE DA AUTONOMIA IMPULSIVA, REPRESENTADA PELO FILHO E IRMÃO MAIS JOVEM, O PRÓDIGO.

Essa mentalidade pode ser caracterizada, antes e acima de tudo, pelo desejo intenso de liberdade, independência e autonomia, ancoradas na percepção e na crença de que a felicidade se encontra fora dos limites da casa paterno-materna e para além dos limites das regras e normas estabelecidas. Revela-se com mais nitidez na intenção, na escolha e na atitude de quem pretende "descobrir o mundo e a vida" sem se preocupar minimamente com as consequências de sua decisão resoluta e de sua atitude por vezes um tanto precipitada. Orientada pela impulsividade a pessoa acaba tomando decisões baseadas no sentimento e na emoção do momento, sem considerar, como deveria, as prováveis repercussões e consequências futuras de médio e longo prazo. É bastante comum que pais, cuidadores e educadores, interpretem tal mentalidade como sintoma e expressão de indisciplina, insubordinação e rebeldia, visto que nela está impregnada certa visão das regras e normas como estruturas limitantes e até incapacitantes, e não como recursos resguardadores de cuidado e  ampliadores de proteção. Paralela e complementariamente, tal mentalidade quase sempre se faz acompanhar de certa percepção megalomaníaca e de uma acentuada ilusão de autossuficiência, fazendo com que a pessoa - quase sempre jovens e adolescentes  - esteja convencida de que pode viver sem depender de ninguém para absolutamente nada, confiando apenas em seus próprios recursos e em sua auto suficiência. A herança, no caso específico da Parábola em foco, era vista como nada mais que um direito, e como tal foi reivindicada: "dá-me a parte da herança que me cabe"; nem uma palavra a mais. Na maioria das vezes caberá à experiência, quase sempre pela via da  da provação, da dor e do sofrimento, ser a grande interpeladora e mestra dessa mentalidade, visto que o princípio de realidade mais cedo ou mais tarde acaba se impondo e decretando árduas e inesperadas consequências, decorrentes da decisão precipitada e das escolhas imprudentemente malfeitas.

 

Do ponto de vista psicológico, a mentalidade da "autonomia impulsiva" é comum em pessoas que acreditam que a felicidade está antes de tudo, e sobretudo, em algo externo e distante, uma espécie de "utopia" idealizada, que na juventude e na adolescência é percebida não exatamente como algo irrealizável, e sim como algo inesgotável, de caráter aventureiro e desafiador. Para completar o quadro, a falta de experiência e a imaturidade emocional terminam dificultando e por vezes impedindo uma avaliação mais equilibrada e realista das próprias deficiências, fragilidades e limitações. A dor, o sofrimento e a decepção, assim como o impacto que as inúmeras e inesperadas surpresas acabam portando consigo, acabam funcionando como um "ponto de virada", de tomada de consciência e de "caída em si", visando a reconstrução interna em favor de uma visão menos utópica, menos excessivamente otimista e mais realista, ainda que permeada de esperança, como quer e ensina Ariano Suassuna. Por outro lado, a mentalidade da "autonomia impulsiva" pode refletir também um comportamento de esquiva e de fuga, ora em razão das exigências e responsabilidades inerentes a cada fase específica da vida, ora motivado pelo desconforto inevitável  de uma rotina que cerceia a liberdade e a autonomia dos espíritos mais aventureiros e desbravadores, ou simplesmente porque se vive em um lar ou em um ambiente percebidos como  limitantes e "castradores" para quem se percebe como sendo águia e se vê tratado e constrangido a viver como galinha. Quando finalmente a realidade se impõe com toda sua nudez e sua força, costuma provocar um  choque impactante, decorrente do flagrante contraste entre um mundo utopicamente idealizado e o mundo concreto e real, percebido como insano e brutal. Impõe-se assim a necessidade de um novo "recomeço", alicerçado em percepções e crenças mais verossímeis e mais realistas. O Filho Pródigo não foi com certeza poupado desse confronto, o que pode ter sido determinante tanto para sua tomada de consciência como para sua decisão corajosa em empreender o caminho de volta para casa, com todas as consequências adversas que tal decisão poderia eventualmente acarretar.

 

Do ponto de vista espiritual o personagem retratado pelo filho mais novo da Parábola, o Pródigo, parece representar aqueles que buscam sentido e significado antes de tudo em experiências externas, prazerosas porém passageiras, mas que por fim terminam se dando conta de que a realização maior e mais plena do ser humano não se encontra naquilo que ele conquista, possui ou está em condições de possuir, material e economicamente falando, e sim naquilo que se é e na pessoa na qual  cada um vai se tornando ao longo da vida. Essa nova e mais rica percepção - que os orientais chamariam de "iluminação" - culminando com a decisão coranosa e determinada do Filho Pródigo em retornar à casa paterno-materna, sugere a experiência de um autêntico "despertar espiritual", representado pelo aprendizado da mais importante das lições: a de que o amor e a misericórdia são muitíssimo mais poderosos que qualquer erro ou tomada impulsiva de decisão por parte do ser humano. Dessa forma, a epopéia do Filho Pródigo retrata inequivocamente uma trajetória paradigmática, proposta como advertência e orientação, por um lado, e como referência de amor e misericórdia incondicionais, por outro. Com certeza o filho que   decide partir e deixar a casa paterno-materna não era mais o mesmo que a ela retornava tempos depois. O pai-personagem com certeza sabia disso; já o filho mais velho-personagem, com certeza não. Sua mentalidade era bem outra, como veremos a seguir.

 

A MENTALIDADE DA JUSTIÇA MERITOCRÁTICA REPRESENTADA PELO FILHO E IRMÃO MAIS VELHO.

Tal mentalidade está alicerçada, antes e acima de tudo, na percepção e na crença de que esforço e obediência inevitavelmente atraem e devem resultar em privilégios específicos e reconhecimento diferenciado. Quem a adota vê e percebe a vida e o viver de forma rígida, austera, rigorosa e implacável, esperando que as regras e as normas sejam rigorosamente cumpridas por todos, e que consequências e recompensas  sejam distribuídas proporcionalmente, de acordo com o mérito, o esforço e a abdicação de cada um. Observe como tal mentalidade porta consigo um senso de justiça próprio, reputado como ideal e percebido como inquestionável, segundo o qual tudo deve ser distribuído rigorosa e proporcionalmente de acordo com o espírito de sacrifício e o mérito de cada qual. Quem pensa e age dessa forma acabará  obviamente tendo grande dificuldade em lidar com afetos e sentimentos de gratuidade, compaixão, generosidade, e, claro, perdão. Não consegue entender por quais razões alguém que  "errou", "traiu", "escolheu mal", "fez mal uso da liberdade", "malversou bens e riquezas", deva ser recebido, acolhido e reincluído, celebrado e festejado, como se fosse uma espécie de ovelha perdida ou um "morto-recém-ressuscitado". Paradoxalmente, como não poderia deixar de ser, o sentimento primeiro e mais forte que se apodera de tais pessoas é o de "injustiça". Compara-se de pronto e sem rodeios com o beneficiário da remissão da dívida e do perdão do pecado, concluindo que sua fidelidade permanente e seu árduo trabalho não estão sendo reconhecidos e valorizados como seria justo e esperado que assim acontecesse. Tomada de ressentimento, frustração e decepção, a pessoa que se vê assim injustiçada começa interna e silenciosamente a desenvolver um sentimento de amargura, mágoa, desgosto e ressentimento, que finalmente descambam para uma raiva e um ódio sem limites, tanto para com quem perdoa, acolhe e reintegra, como para com quem é perdoado, acolhido e reintegrado. Ao perceber que o mundo não funciona da forma como ela julga e espera ser tratada, tal pessoa termina desencandeando um processo doentio de autocomiseração, por se sentir injustiçada, insuficientemente reconhecida, e pouco valorizada, sobretudo quando confrontada com aqueles que ela considera não serem merecedores de absolutamente nada.

 

Do ponto de vista psicológico pessoas com mentalidade meritocrática costumam ter um forte senso de responsabilidade e uma grande necessidade de reconhecimento e de validação externa. Tendem a medir e Aquilatar seu valor pelo que fazem e se esforçam por fazer, e não pelo que são e se esforçam por ser, o que quase sempre acaba resultando em desequilíbrio  afetivo e insegurança emocional. Não raro a dificuldade em lidar com a compaixão alheia tem sua origem no medo intenso e irracional de que seu próprio esforço possa ser inútil, e portanto não valer a pena. Isso pode acabar gerando graves conflitos interpessoais, pois quem pensa e se comporta dessa forma espera que os outros vivam de acordo com os mesmos critérios rígidos, austeros e implacáveis adotados por sua pessoa. Quando tais expectativas não se confirmam, a desconfiança e o ressentimento acabam tomando lugar e fazendo com que a pessoa vá se afastando cada vez mais do convívio e da interação saudável com os demais, sejam pessoas do seu círculo de trabalho, de escola, de amizade, e de outros mais.

 

Do ponto de vista da espiritualidade a Parábola parece sugerir que o filho mais velho representa aqueles que seguem rigorosamente as regras e normas e esperam um reconhecimento adequado e uma retribuição proporcional por isso, mas se esquecem que Deus não pauta sua conduta e seu comportamento tomando como base o mérito e a justiça estritamente humana, e sim impulsionado pela força de seu amor infinito e incondicional. A rigor a doutrina ou ideologia do mérito não encontra respaldo nem no ensino e menos ainda na prática pastoral de Jesus. Pelo contrário, inúmeras outras parábolas não deixam dúvidas a esse respeito, e tampouco deixam margem para interpretações diferentes e forçadas. Ele declara abertamente que veio para que todos - sem exceção a essa regra - tenham vida, mas não uma vida qualquer, e sim uma vida  plena e abundante. Isso, a começar pelos mais pobres e miseráveis, os doentes e enfermos, os segregados e excluídos, os pequenos e esquecidos, os que estão nus, famintos, sedentos e aprisionados. É com esses que Ele se identifica e manifesta seu desejo de ser identificado. Dessa forma, o grande desafio para os ideólogos, os defensores e os doutrinadores da assim chamada "justiça meritocrática", passa a ser a imperiosa necessidade de compreender que a graça transcende o mérito, que o amor supera a justiça, e que nosso vínculo e nossa relação -  seja para com Deus, seja entre nós humanos - não se baseia em promessas, trocas e escambos de qualquer tipo. E se o mérito, com certeza, tem seu lugar e seu valor numa eventual "história da salvação", ainda assim não podemos nos esquecer, como faz questão de nos lembrar Santo Agostinho, que "quando Deus coroa nossos méritos, nada mais faz que coroar seus próprios dons". Se o Filho mais Velho continuou do lado de fora recusando-se a entrar, apesar dos insistentes apelos do Pai para que ele entrasse, se alegrasse e se juntasse ao coro dos que se regozijavam e agradeciam pelo retorno do filho e do irmão, com certeza não terá sido por falta de amor, de reconhecimento, e muito menos por um ato de injustiça do Pai para com ele, e sim, única e exclusivamente em razão de sua convicção doentia e de sua ideologia meritocrática vétero-testamentária caduca e ultrapassada. Ainda assim sua atitude está longe de poder ser classificada como torpe, cruel, e muito menos perversa. O que ela de fato denota é uma intenção sincera e reta, porém ainda arraigada numa ideologia religiosa chamada "justiça meritocrática", que até mesmo escritos e livros religiosos vétero-testamentários - como é o caso do Livro de Jó - já haviam questionado, colocado sob suspeita, e trazido à discussão. Com o Novo [Testamento], e em especial com o ensinamento e a prática de Jesus, essa discussão definitivamente se encerra. De uma vez por todas, para ser bem claro. "In perpetuum!".

(* ) Reflexão enviada de Vitória –ES pelo autor, via whatsApp

XIII- SANTO AGOSTINHO E O FILHO PRÓDIGO A parábola do filho pródigo à luz de Santo Agostinho

 

 

XIII-             SANTO AGOSTINHO E O FILHO PRÓDIGO

A parábola do filho pródigo à luz de Santo Agostinho

 

Por Frei Mário Spergio OSA.

A partir do Sermão 112A, este artigo analisa a parábola do filho pródigo sob a perspectiva de Santo Agostinho, destacando temas como afastamento espiritual, conversão interior e misericórdia divina. Com uma interpretação simbólica e atemporal, o texto oferece reflexões profundas sobre a relação entre Deus e cada um de nós.

 

A parábola do filho pródigo, narrada unicamente por Jesus no Evangelho de Lucas, é uma das mais conhecidas e certamente mais profundas. Trata-se de uma das parábolas de Jesus mais estudadas, comentadas e apreciadas tanto por crentes quanto por não crentes. De certo modo, todos nós, em algum momento da vida, acabamos nos identificando com algum dos memoráveis personagens da parábola.

 

Santo Agostinho nutria uma particular veneração por esta história, tanto que, em muitas passagens das Confissões, estabeleceu um paralelo entre o errático filho pródigo e sua própria trajetória inquieta.

 

Neste artigo, pretendemos seguir de perto as ideias e intuições de Santo Agostinho sobre a leitura dessa parábola lucana. Tomaremos como ponto de partida o Sermão 112A, que nos oferece uma interpretação rica, simbólica e cheia de nuances, ajudando-nos a refletir também sobre nossa trajetória espiritual.

 

Os dois filhos: duas histórias, um só Pai

Santo Agostinho interpreta simbolicamente os dois filhos da parábola como dois povos: o mais velho representa o povo judeu, que permaneceu fiel à Lei e ao único Deus, enquanto o mais novo simboliza os pagãos, que se afastaram do Criador para seguir ídolos e paixões desordenadas. O bispo de Hipona sublinha que ambos os filhos recebem do Pai uma herança preciosa: alma, inteligência, memória e engenho, dons dados para que conhecessem e adorassem o Criador. Sobre isso, Agostinho escreve: “Qual é a herança que receberam? A alma, com todas as suas faculdades, isto é, inteligência, memória e engenho.” (Sermão 112A, 1)

 

O filho mais novo, ao partir para uma “terra distante”, afasta-se espiritualmente e materialmente do Pai, desperdiçando os dons recebidos em uma vida desordenada e dissoluta. Segundo Agostinho, essa terra distante simboliza o esquecimento do Criador e a adesão ao pecado.

 

Atenção: essa distância não é apenas geográfica ou espacial, mas sobretudo existencial. Podemos estar fisicamente próximos, mas espiritualmente distantes do Pai. Ainda no seu sermão, Agostinho identifica as "meretrizes" do relato com as paixões e os ídolos, que frequentemente nos afastam de Deus.

 

O vazio da distância

A fome que o filho sente longe do Pai, para Agostinho, nada mais é do que a fome da Verdade, que somente Deus pode oferecer à sua criatura. Como recorda o texto bíblico, o jovem, querendo saciar-se, pede ao “chefe daquela região” que lhe dê trabalho. O chefe daquela região, segundo Agostinho, é um símbolo do diabo, que lhe confia a missão ingrata e impura de cuidar de porcos — uma imagem que, por excelência, representa a impureza, o pecado e a condição miserável daquele que se entrega à escravidão espiritual. “Ele é enviado ao campo, para cuidar dos porcos, ou seja, aos pecadores. A fome é a falta de pão celeste, de alimento espiritual, de Cristo.” (Sermão 112A, 2)

 

As bolotas, que não satisfazem o filho mais novo, para o Doutor da Graça, simbolizam os ensinamentos mundanos, ideias que enchem os ouvidos, mas que não nutrem a alma e o coração. Essa situação experimentada pelo filho pródigo reflete o vazio de quem busca prazer e sentido naquilo que não pode oferecer plenitude.

 

Voltando a si, voltou para o Pai

O momento culminante na história é aquele em que o filho "volta a si". Agostinho, mestre da interioridade, enfatiza que, antes de retornar à casa do Pai, ele precisava reencontrar-se consigo mesmo. Enfim, não se pode encontrar Deus enquanto se está disperso e perdido de si mesmo. “Não teria ele voltado ao Pai se antes não tivesse voltado a si mesmo. E como voltou a si? Reconhecendo sua condição.” (Sermão 112A, 3)

 

Deus, como Pai misericordioso, é o verdadeiro protagonista da parábola. Ele não apenas aguarda o retorno do filho, mas o avista de longe e corre ao seu encontro. Agostinho interpreta essa atitude do Pai como a expressão mais cabal do Deus de Jesus Cristo: o Deus do perdão e do abraço, que ama incondicionalmente seus filhos e nunca os abandona. “O Pai corre ao encontro. De fato, Deus não é lento em perdoar aquele que se arrepende; não é demorado em correr ao seu encontro.” (Sermão 112A, 3)

 

O novilho gordo e a festa da reconciliação

O banquete celebrado com o novilho gordo, segundo Agostinho, nada mais é do que uma imagem do sacrifício de Cristo. O Filho, morto e ressuscitado, é o alimento espiritual oferecido na Eucaristia, único capaz de saciar verdadeiramente, que acolhe aqueles que retornam à comunhão com Deus. “É o mesmo Cristo que foi morto por nós e ressuscitou; é ele quem nos nutre em sua Igreja. Este é o novilho gordo.” (Sermão 112A, 4)

 

O irmão mais velho e a tentação do orgulho

O irmão mais velho, ao se recusar a entrar na festa, nos lembra de algo muito humano: a dificuldade de aceitar o perdão dado a quem, aos nossos olhos, “não merece”. Para Agostinho, ele representa os judeus da época apostólica, que se ressentiam ao ver os pagãos acolhidos na Igreja sem que estes passassem pelos rigores da Lei mosaica. “Os judeus disseram entre si: ‘Estamos aqui servindo a Deus sob o peso da Lei, e agora eles, sem trabalharem como nós, são recebidos e feitos filhos’.” (Sermão 112A, 5)

 

Esse ciúme, porém, vai além de uma questão histórica. Ele é um retrato do orgulho e do julgamento que todos, em algum momento, podemos sentir. É a dificuldade de reconhecer que a graça de Deus não é conquistada por mérito, mas é gratuita, oferecida a todos.

 

Mesmo assim, o Pai não desiste do irmão mais velho. Ele sai de casa, vai ao encontro dele e o convida com paciência a fazer parte da festa. Esse gesto mostra que, para Deus, ninguém está fora do alcance da sua misericórdia.

 

Uma parábola para todos os tempos

A história do filho pródigo — ou melhor, do Pai Misericordioso — é muito mais do que um conto antigo. É sobre nós. Todos, em algum momento, somos como o filho mais novo, que se afasta e precisa voltar, ou como o mais velho, que luta com a dureza do próprio coração.

 

O Pai, no entanto, não faz distinção. Ele ama os dois filhos com a mesma intensidade e paciência. Sempre está de braços abertos, esperando que todos voltem para Ele. Santo Agostinho expressa isso de forma tocante: “Não existe alegria maior para Deus do que a conversão de um pecador.” (Sermão 112A, 6)

 

Conclusão

A mensagem de Santo Agostinho no Sermão 112A continua atual porque fala de algo essencial: a possibilidade de recomeçar. Quantas vezes nos sentimos em uma “terra distante”? Pode ser uma crise espiritual, escolhas erradas ou apenas aquele vazio que parece impossível de preencher.

 

O que essa parábola nos ensina, com a ajuda de Agostinho, é que nunca é tarde para voltar. Não importa quão distante estejamos, Deus está sempre pronto para nos acolher. O Pai não exige explicações complicadas nem perfeição. Basta reconhecer a própria miséria, levantar-se e dar o primeiro passo. O resto, Ele faz.

 

Fonte Centro de Estudos Agostinianos

 

https://www.osabrasil.org/noticia/post/a-parabola-do-filho-prodigo-a-luz-de-santo-agostinho

XIV- DICAS DE LEITURAS

 

XIV-  DICAS DE LEITURAS

 

 

01 As coisas que você só vê quando desacelera

Autor: Haemin Sunim

Vivemos num mundo repleto de coisas para fazer e somos bombardeados por informações de todos os lados. Os desafios da sua profissão e toda essa correria estejam te tirando o tempo precioso com você mesmo e deixando de desenvolver sua mente e espiritualidade.

Escrito pelo mestre zen-budista sul-coreano Haemin Sunim, As coisas que você só vê quando desacelera é um desses livros sobre espiritualidade que devem ser lidos para quem deseja tranquilizar os pensamentos e cultivar a calma e o autoconhecimento.

O autor mostra, com muita delicadeza, como podemos entender nossas emoções, relacionamentos, trabalho, desejos e aspirações e nossa espiritualidade como uma diferente forma de olhar e como praticar a atenção plena pode mudar a forma como lidamos com tudo o que acontece conosco e o que fazemos.

Neste livro você vai perceber que a forma que olhamos para o mundo é um espelho das coisas que acontecem em nossa mente. Assim, quando você está com a mente leve e alegre, o mundo também estará. Quando você cultivar pensamentos negativos o mundo ficará triste e sombrio. E quando você for capaz de descansar sua mente, o mundo fará o mesmo.

Haemin Sunim é escritor e um dos mais influentes professores de zen budismo da Coreia do Sul. Seus livros já livros venderam mais de 3 milhões de exemplares em seu país e são considerados obras populares não apenas para meditação, mas para superar os desafios da vida cotidiana, que são muitos em nossos dias.

Características:
Capa comum: 256 páginas
Editora: Editora Sextante; Edição: 1ª (2 de outubro de 2017)

2 O livro da Gratidão

Autor: Carolina Chagas

A felicidade é uma busca constante no nosso dia a dia. Porém, muitas vezes a vida exige que você sempre corra atrás de mais e mais realizações pessoais.

Você precisa enfrentar uma grande quantidade de dificuldades, problemas e obstáculos o dia todo e tem que superá-las dia após dia sem folga.

Entretanto, no meio disso tudo é preciso parar e ver tudo o que tem ao seu redor que merece a sua gratidão. Nem sempre é fácil fazer esse exercício, mas com certeza você sabe que quem é grato e sabe externar isso, tem a vida mais leve e é mais feliz.

Este livro vai te lembrar, através de lindas frases e exercícios, de todos os motivos pelos quais você pode ser grato e te ensina a praticar aquilo que nascemos para fazer.

Características:
Capa comum: 120 páginas
Editora: Fontanar; Edição: 1ª (12 de abril de 2017)

03-  Propósito – A coragem de ser quem somos

Autor: Sri Prem Baba

“Saber qual é o propósito é saber o que viemos fazer aqui, e o que viemos fazer aqui está intimamente relacionado àquilo que essencialmente somos, ou seja, o programa individual da alma está relacionado à consciência do Ser.

Assim como a laranjeira só pode dar laranjas, o ser humano só pode dar um tipo de fruto: o amor, pois o amor é a sua essência.

Porém, o amor é um fruto que pode se manifestar de infinitas maneiras. Cada alma traz consigo dons e talentos que são a maneira única que o amor se expressa através de nós.” Sri Prem Baba

Sri Prem Baba nasceu em São Paulo. Estudou Psicologia e Yoga. Tornou-se discípulo do mestre Sri Sachcha Baba Maharaj Ji, da linhagem indiana Sachcha.

Como líder humanitário e mestre espiritual, fundou o movimento global Awaken Love com o propósito de restabelecer e elevar os valores humanos para despertar a consciência amorosa. Ele divide seu tempo entre o Brasil e a Índia, onde ministra cursos, oferece palestras e retiros.

É autor de Transformando o sofrimento em alegria e Amar e ser livre: as bases para uma nova sociedade. É também autor das mensagens de sabedoria que chama de “Flor do dia”, distribuídas diariamente para milhares de pessoas e traduzidas para vários idiomas.

Características:
Capa comum: 160 páginas
Editora: Editora Sextante; Edição: 1ª (16 de novembro de 2016)

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