quinta-feira, 8 de outubro de 2026

4- REFLEXÕES PARA O 28.º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A 4.1- MESA POSTA, CADEIRAS VAZIAS: PRIVILÉGIOS E OPORTUNIDADES!

 

4-  REFLEXÕES PARA O 28.º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A

 

4.1- MESA POSTA, CADEIRAS VAZIAS: PRIVILÉGIOS E OPORTUNIDADES!

 

Não é que não tenha nada de conteúdo social ou sociológico, mas a questão da parábola contada por Jesus em Mateus 22,1-14 parece não se encaixar tanto nessas categorias. Não fosse assim, os pobres convidados para o banquete do Pai do noivo não seriam uma alternativa aos primeiros destinatários. Eles teriam sido convidados em primeiro lugar. Também não se justificaria que um dos convidados substitutos fosse maltratado no final da estória só porque não estivesse usando o traje de festa. Isso também não significa que o Evangelho, no seu conjunto, não esteja repleto de lições de partilha com os necessitados e de preferência pelos pobres. Basta ver a releitura que Jesus fez na sinagoga de Nazaré depois de ler o texto do profeta Isaías (Lc 4,18-19), ou o discurso do juízo final (Mt 25,31-46), ou ainda a parábola do rico opulento e do pobre, Lázaro (Lc 16,19-31). Mas, nessa parábola em particular, o tema gira em torno da correspondência ou do descaso que os convidados podem ter com aquele que os convidou. Os primeiros convidados não foram dignos porque não deram valor ao convite. Por isso, foram substituídos por outros convidados que não tinham razão nenhuma para estar na primeira lista do promotor da festa. O convidado alternativo que não se preocupou em seguir o protocolo da veste festiva também se tornou indigno e foi igualmente rejeitado e posto para fora. A questão, então, gira em torno de ser digno do privilégio de ser destinatário do convite; ou então de, pelo menos, ser digno da oportunidade que foi concedida de forma liberal e gratuita. Nossas vidas estão cheias de situações benéficas que podem ser para nós privilégios ou oportunidades. Alguns nascem em condições mais favoráveis e facilitadoras do que outros. Nem todos o que se encontram em tal situação aproveitam o que receberam. Outros, não gozam das melhores condições desde o berço, mas se agarram às chances que a vida pode trazer. Muitos dos que se encontram nessas condições mostram-se capazes de superar a falta da graça que outros receberam sem terem aproveitado os dons. É isso que pode representar alguma razão de lamentação dos homens e até de Deus. É o que nos revela o Salmo 80: “Mas meu povo não ouviu minha voz, Israel não me obedeceu. Por isso abandonei-os à dureza do seu coração, deixando que seguisse sua própria cabeça. Se o meu povo me ouvisse, se Israel andasse por meus caminhos, logo eu venceria seus inimigos e contra os seus adversários levantaria a mão. Os inimigos do Senhor o adulariam e a sorte deles estaria lançada para sempre; eu o alimentaria com flor de trigo, e o saciaria com o mel do rochedo”. Caberia, portanto, a cada um de nós, a partir da lição do Evangelho, nos questionarmos sobre o que temos feito com os privilégios e as oportunidades que recebemos; se temos correspondido ao que nos foi dado sem mérito nenhum, se temos percebido e agarrado as graças concedidas em momentos especiais de nossa vida. Foi o que constatei certa vez, quando ouvi de um estudante de filosofia que se dizia muito envergonhado porque, quando lamentou com um colega de sala que ainda precisava ler um livro muito volumoso e o prazo dado pelo professor estava se acabando, ouviu desse colega que ele já tinha lido o livro havia muito tempo. O motivo da vergonha era que o colega tinha um problema muito grave na vista e quase não enxergava, precisava colocar o livro bem perto, diante dos olhos a uma distância menor do que um palmo. Ele via bem, mas não se empenhava o suficiente. O colega com dificuldades esforçava-se para além da conta. Mas, voltando à correspondência ao convite de Deus, talvez seja útil recordar o apelo mencionado no livro do Apocalipse: “Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a refeição, eu com ele e ele comigo” (Ap 3,20).

 

 D. Rogério Augusto das Neves Bispo Auxiliar de São Paulo Vigário Episcopal para a Região Sé

 

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