4- REFLEXÕES
PARA O 28.º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A
4.1-
MESA POSTA,
CADEIRAS VAZIAS: PRIVILÉGIOS E OPORTUNIDADES!
Não é que
não tenha nada de conteúdo social ou sociológico, mas a questão da parábola
contada por Jesus em Mateus 22,1-14 parece não se encaixar tanto nessas
categorias. Não fosse assim, os pobres convidados para o banquete do Pai do
noivo não seriam uma alternativa aos primeiros destinatários. Eles teriam sido
convidados em primeiro lugar. Também não se justificaria que um dos convidados
substitutos fosse maltratado no final da estória só porque não estivesse usando
o traje de festa. Isso também não significa que o Evangelho, no seu conjunto,
não esteja repleto de lições de partilha com os necessitados e de preferência
pelos pobres. Basta ver a releitura que Jesus fez na sinagoga de Nazaré depois
de ler o texto do profeta Isaías (Lc 4,18-19), ou o discurso do juízo final (Mt
25,31-46), ou ainda a parábola do rico opulento e do pobre, Lázaro (Lc
16,19-31). Mas, nessa parábola em particular, o tema gira em torno da
correspondência ou do descaso que os convidados podem ter com aquele que os
convidou. Os primeiros convidados não foram dignos porque não deram valor ao
convite. Por isso, foram substituídos por outros convidados que não tinham
razão nenhuma para estar na primeira lista do promotor da festa. O convidado
alternativo que não se preocupou em seguir o protocolo da veste festiva também
se tornou indigno e foi igualmente rejeitado e posto para fora. A questão,
então, gira em torno de ser digno do privilégio de ser destinatário do convite;
ou então de, pelo menos, ser digno da oportunidade que foi concedida de forma
liberal e gratuita. Nossas vidas estão cheias de situações benéficas que podem
ser para nós privilégios ou oportunidades. Alguns nascem em condições mais
favoráveis e facilitadoras do que outros. Nem todos o que se encontram em tal
situação aproveitam o que receberam. Outros, não gozam das melhores condições
desde o berço, mas se agarram às chances que a vida pode trazer. Muitos dos que
se encontram nessas condições mostram-se capazes de superar a falta da graça
que outros receberam sem terem aproveitado os dons. É isso que pode representar
alguma razão de lamentação dos homens e até de Deus. É o que nos revela o Salmo
80: “Mas meu povo não ouviu minha voz, Israel não me obedeceu. Por isso
abandonei-os à dureza do seu coração, deixando que seguisse sua própria cabeça.
Se o meu povo me ouvisse, se Israel andasse por meus caminhos, logo eu venceria
seus inimigos e contra os seus adversários levantaria a mão. Os inimigos do
Senhor o adulariam e a sorte deles estaria lançada para sempre; eu o
alimentaria com flor de trigo, e o saciaria com o mel do rochedo”. Caberia,
portanto, a cada um de nós, a partir da lição do Evangelho, nos questionarmos
sobre o que temos feito com os privilégios e as oportunidades que recebemos; se
temos correspondido ao que nos foi dado sem mérito nenhum, se temos percebido e
agarrado as graças concedidas em momentos especiais de nossa vida. Foi o que
constatei certa vez, quando ouvi de um estudante de filosofia que se dizia
muito envergonhado porque, quando lamentou com um colega de sala que ainda
precisava ler um livro muito volumoso e o prazo dado pelo professor estava se
acabando, ouviu desse colega que ele já tinha lido o livro havia muito tempo. O
motivo da vergonha era que o colega tinha um problema muito grave na vista e
quase não enxergava, precisava colocar o livro bem perto, diante dos olhos a
uma distância menor do que um palmo. Ele via bem, mas não se empenhava o
suficiente. O colega com dificuldades esforçava-se para além da conta. Mas,
voltando à correspondência ao convite de Deus, talvez seja útil recordar o
apelo mencionado no livro do Apocalipse: “Eis que estou à porta e bato, se
alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a
refeição, eu com ele e ele comigo” (Ap 3,20).
D.
Rogério Augusto das Neves Bispo Auxiliar de São Paulo Vigário Episcopal para a
Região Sé
https://arquisp.org.br/wp-content/uploads/2026/07/Ano-50A-54-28o-DOMINGO-DO-TEMPO-COMUM.pdf
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