4- REFLEXÕES
PARA O 4.º DOMINGO DA PÁSCOA
4.1- EU
SOU A PORTA DAS OVELHAS
No coração do tempo pascal,
a Igreja eleva hoje seu olhar para Cristo ressuscitado e o contempla sob o
título que revela o íntimo de sua missão: o Bom Pastor. Não se trata apenas de uma
imagem pastoral, mas de uma categoria cristológica fundamental, na qual se
manifesta o modo como Deus se relaciona com seu povo. No Evangelho proclamado,
Jesus afirma com solenidade: “Eu sou a porta das ovelhas”. Esta afirmação
carrega uma densidade teológica profunda. Cristo não apenas conduz ao Pai: Ele
é o acesso, o mediador único e necessário entre Deus e a humanidade. Toda
vocação autêntica nasce e se configura a partir desta verdade: ninguém é pastor
por si mesmo; ninguém entra no ministério por ambição, conveniência ou projeto
pessoal. O verdadeiro pastor entra pela porta, que é Cristo, chamado por Ele e
enviado em seu nome. Ao contrapor o pastor verdadeiro aos ladrões e
assaltantes, Jesus denuncia toda forma de exercício do ministério que não brota
da comunhão com Ele. O ladrão “sobe por outro lugar”, isto é, busca o poder, o
prestígio ou o domínio. O pastor, ao contrário, vive da lógica pascal: dar a
vida. Ainda que neste trecho Jesus não fale explicitamente do sacrifício, toda
a perícope aponta para a cruz, onde o Bom Pastor manifestará plenamente sua
identidade. O texto afirma que as ovelhas reconhecem a voz do pastor. Aqui
tocamos um ponto essencial da teologia vocacional: a vocação nasce da escuta.
Antes de qualquer resposta humana, há uma voz que chama. Deus não chama em
abstrato, mas interpela pessoalmente. A voz do Bom Pastor não violenta a
liberdade, mas a desperta. Não confunde, mas ilumina. Não promete sucesso, mas
plenitude. Em um mundo saturado de vozes concorrentes, discernir a voz de Cristo
exige silêncio interior, vida sacramental, intimidade com a Palavra e
acompanhamento espiritual sério. É assim que Deus chama a todos a participar da
sua messe, com uma vocação específica! Neste Domingo do Bom Pastor, somos
convidados a nos perguntar: que vozes temos escutado? Em meio a tantas
propostas, ideologias e promessas vazias, é fácil seguir caminhos que parecem
atraentes, mas que não passam pela “porta” que é Cristo. A voz do Bom Pastor
não grita, não confunde, não oprime; ela orienta, liberta e conduz à vida.
Neste Domingo Mundial de Oração pelas Vocações, a Igreja suplica ao Senhor da
messe que suscite pastores segundo o seu coração: homens e mulheres, leigos e
leigas configurados a Cristo, pobres, obedientes e castos, capazes de entrar pela
porta, de permanecer no redil e de não fugir diante do lobo. Por fim, este
Evangelho nos recorda que toda a Igreja é chamada a viver em estado vocacional.
Cada batizado é convidado a escutar, discernir e responder. A fecundidade
vocacional da Igreja está diretamente ligada à sua fidelidade ao Bom Pastor.
Que neste tempo pascal, ao ouvirmos novamente a voz do Ressuscitado, renovemos
nossa confiança n'Aquele que é a Porta, o Pastor e a Vida. Sigamos Cristo, o
Bom Pastor, certos de que com Ele nada nos faltará, e de que somente n’Ele
encontramos a verdadeira vida em abundância.
Dom
Cícero Alves de França Bispo Auxiliar de São Paulo Vigário Episcopal para a
Região Belém
https://arquisp.org.br/wp-content/uploads/2026/01/Ano-50A-29-4o-DOMINGO-DE-PASCOA.pdf
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