08- CORAÇÕES
INQUIETOS: OS JOVENS NA BÍBLIA *
Eliseu Wisniewski[1]
[1] Presbítero da Congregação da Missão
Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontíficia Universidade Católica do
Paraná (PUC-PR).
Eis o Artigo:
Na obra, intitulada Corações
inquietos: os jovens na Bíblia (Paulus, 2025, 152 p.), o
leitor é introduzido a uma ampla galeria de personagens juvenis provenientes
tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Trata-se de figuras já consolidadas
no imaginário religioso: desde Isaac, oferecido em sacrifício por Abraão, até o
jovem discípulo João, ao lado de personagens menos evidentes, frequentemente
ocultos nas complexas tramas do texto bíblico, mas não menos significativos em
termos de densidade simbólica, frescor narrativo e potencial poético.
No núcleo da obra, o
cardeal Gianfranco Ravasi, renomado biblista e teólogo, dedica especial atenção
à juventude da figura central do cristianismo, Jesus de Nazaré. Ao abordar os
chamados “anos ocultos” de sua vida, o autor examina aspectos como o ambiente
familiar, a atividade profissional, o domínio da leitura e da escrita, bem como
possíveis elementos cronológicos de sua existência. Tal abordagem procura
responder, com base em dados históricos e contextuais, a questões
frequentemente dirigidas à condição juvenil: identidade, desenvolvimento físico
e psicológico, relações familiares, estado civil, profissão e competências
linguísticas. Diferentemente de narrativas devocionais ou ficcionais, o autor
se atém a evidências disponíveis, oferecendo, assim, um retrato mais sóbrio e,
por vezes, surpreendente do jovem Jesus, filho de Maria e portador de um
mistério transcendente.
Ravasi observa que o
percurso mais natural para explorar essa galeria de mais de cinquenta retratos
juvenis seria seguir a sequência proposta pelas próprias Escrituras, iniciando
com figuras como Caim e Abel e avançando até os personagens do Novo Testamento.
Contudo, sugere-se também uma alternativa metodológica relevante: antecipar a
consideração de Jesus, cuja centralidade teológica justifica sua precedência
interpretativa.
O autor ressalta, ainda,
um dado recorrente e, por vezes, desconcertante: a presença de uma dimensão de
fragilidade, vazio ou mesmo tragicidade nas experiências juvenis retratadas na
Bíblia. Longe de constituir um compêndio de teses abstratas, a Escritura
revela-se como um testemunho inserido na história concreta, marcada por
contradições, limites e tensões, mas também por possibilidades de redenção.
Nesse contexto, a esperança não emerge de um afastamento alienante da
realidade, mas precisamente do solo histórico onde se entrelaçam pecado e
graça. Tal dinâmica é evocada à luz da parábola da semente, que, apesar das
adversidades do terreno, encontra espaço para germinar e frutificar.
Antes de adentrar
plenamente a análise das figuras bíblicas, o autor propõe algumas considerações
introdutórias sobre a juventude enquanto etapa do desenvolvimento humano e
condição existencial. Nesse âmbito, dialoga com a psicologia da idade
evolutiva, disciplina que investiga os processos físicos, cognitivos, afetivos,
morais e espirituais que marcam a transição da infância à maturidade. Entre as
contribuições relevantes, destaca-se o modelo do psicólogo norte-americano
Lawrence Kohlberg (1927-1987), que distingue três estágios do desenvolvimento
moral: o nível pré-convencional, baseado na evitação da punição; o nível
convencional, orientado pela conformidade social; e o nível pós-convencional,
caracterizado pela adesão consciente a princípios éticos universais.
A reflexão bíblica,
segundo Ravasi, contribui para desmistificar concepções idealizadas da
juventude, frequentemente associadas à ideia de felicidade fácil ou à exaltação
da vitalidade imediata. Em contraposição a tais estereótipos, também criticados
por autores como o filósofo francês Albert Camus (1930-1960) e o escritos e
poeta irlandês Oscar Wilde (1854-1900), a Escritura apresenta a juventude em
sua complexidade, incluindo suas crises, ambiguidades e desafios.
No contexto atual, o
autor também considera o impacto da chamada “revolução digital”, que tem
contribuído para a formação de uma nova configuração antropológica,
frequentemente designada como a dos “nativos digitais”. Tal transformação
altera profundamente as formas de comunicação, interação e construção da
identidade, intensificando, ao mesmo tempo, as tensões intergeracionais já
tradicionais, como assinalado por reflexões que remontam a autores como São
João XXIII.
Apesar dos desafios,
permanece, segundo a perspectiva teológica e antropológica adotada, uma
dimensão constitutiva de inquietação positiva na juventude: uma abertura ao
sentido, à busca e à transcendência. Essa inquietação não deve ser compreendida
como mera insatisfação, mas como impulso vital orientado à plenitude.
Destinado tanto a
adultos quanto a jovens, o volume propõe-se, portanto, a oferecer elementos
para um diálogo fecundo entre gerações, no qual a Palavra de Deus desempenha um
papel formativo essencial. Por meio de uma seleção de episódios bíblicos, o
autor evidencia simultaneamente as grandezas e fragilidades da condição
juvenil, convidando a um duplo movimento: redescoberta do compromisso e do
ideal, bem como exame crítico da própria experiência.
A reflexão é enquadrada por referências bíblicas que articulam
advertência e esperança: de um lado, o reconhecimento da inclinação humana ao
mal desde a juventude; de outro, a afirmação da possibilidade de superação e
fidelidade. Nesse horizonte, destaca-se ainda a centralidade simbólica do termo
hebraico ben que remete
à ideia de construção e continuidade, sugerindo que a própria Escritura pode ser
compreendida como uma narrativa de filiação, culminando na figura de Cristo, o
Filho por excelência.
A obra em questão não
apenas apresenta um panorama das figuras juvenis na Bíblia, mas também propõe
uma leitura crítica e esperançosa da juventude, reconhecendo nela tanto suas
sombras quanto seu potencial de renovação histórica e espiritual.
https://www.vidapastoral.com.br/atualidades/coracoes-inquietos-os-jovens-na-biblia/
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