4.3-26 de abril – 4º DOMINGO
DA PÁSCOA (FCFR)**
O Cristo
ressuscitado é pastor e porta que conduz à vida em abundância
Por Luiz Alexandre Solano Rossi*; Pe. Francisco Cornélio Freire
Rodrigues**
I. INTRODUÇÃO GERAL
Todos os anos, a
liturgia do 4º Domingo da Páscoa utiliza um trecho do capítulo 10 do Evangelho
segundo João, o que justifica o título de “domingo do Bom Pastor” atribuído a
este dia, uma vez que, no referido capítulo, Jesus é apresentado como o “Bom
Pastor”.
A imagem do pastor
sempre foi muito cara a Israel, um povo de origens ligadas à vida pastoril. Por
isso, desde o Antigo Testamento, foi aplicada a Deus, o pastor por excelência,
e às lideranças políticas e religiosas. Essa imagem está explicitamente presente
na liturgia deste domingo no salmo, na segunda leitura e no Evangelho.
Implicitamente, é possível identificá-la também na primeira leitura, pois
aceitar o Ressuscitado como Senhor e Cristo é, acima de tudo, reconhecê-lo como
pastor.
Oportunamente, o papa
São Paulo VI instituiu este domingo também como o dia mundial de oração pelas
vocações sacerdotais e religiosas, conferindo grande responsabilidade à Igreja
ao celebrar este dia: reconhecer o pastoreio único do Cristo ressuscitado e
ajudar a suscitar homens e mulheres para viver e agir à sua maneira, cuja
característica principal é a capacidade de amar em profundidade, a ponto de dar
a vida pelos outros (cf. Jo 10,11).
II. COMENTÁRIOS AOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (At 2,14a.36-41)
A primeira leitura é a
continuação do discurso de Pedro no dia de Pentecostes, cuja leitura foi
iniciada no domingo passado. Embora o discurso seja atribuído ao apóstolo, sua
construção é obra de Lucas, o autor do livro, e apresenta os elementos
essenciais da primeira pregação apostólica, cujos destinatários principais eram
judeus, como atesta o próprio texto: “Que todo o povo de Israel reconheça com
plena certeza” (v. 36a).
Como a ressurreição foi
anunciada com bastante ênfase nos versículos anteriores, conforme a leitura do
domingo passado (2,14a.22-33), no trecho lido hoje é apresentada a necessidade
de conversão como consequência do reconhecimento de que Jesus de Nazaré,
crucificado e ressuscitado, foi constituído por Deus como Senhor e Cristo –
quer dizer, como Messias (v. 36b).
Ao dizer que os ouvintes
“ficaram com o coração aflito” (v. 37a), o autor alude ao remorso de terem sido
responsáveis pela crucifixão e, ao mesmo tempo, ensina que o anúncio do Cristo
ressuscitado é irresistível: é impossível ficar indiferente a essa maravilha
realizada por Deus. Daí a pregação se torna, na prática, um diálogo com a
assembleia, o que reflete provavelmente uma fórmula litúrgica utilizada durante
o rito de admissão ao batismo na época da redação do livro dos Atos dos Apóstolos:
após a homilia, os ouvintes perguntavam o que deveriam fazer (v. 37b), e o
pregador respondia com um programa composto de três etapas fundamentais – a
conversão, o batismo e a abertura ao dom do Espírito Santo (v. 38) –, como
exigências concretas para a adesão plena a Jesus Cristo.
Essas exigências,
inicialmente apresentadas aos judeus, são destinadas à humanidade inteira (v.
39). Diante da salvação ofertada por Deus por meio do seu Filho, o ser humano é
chamado à conversão, o que significa uma mudança de mentalidade para acolher o
Espírito Santo e viver nova vida, assimilando os ensinamentos e o comportamento
de Jesus. O batismo, nesse contexto, é a porta de entrada para a nova vida em
Cristo, a vida em abundância que ele mesmo anunciou no Evangelho (Jo 10,10).
A conclusão (v. 40-41),
mais do que descrever fatos concretos, revela o otimismo do autor e funciona
como um estímulo aos pregadores futuros: o anúncio coerente do Ressuscitado,
compreendendo o testemunho, é capaz de transformar corações e estruturas.
2. II leitura (1Pd 2,20b-25)
A primeira carta de
Pedro, da qual é tirada a segunda leitura desta celebração, foi escrita no
final dos anos 80 d.C., provavelmente em Roma, por um discípulo do apóstolo
Pedro. É uma espécie de homilia destinada aos cristãos recém-batizados,
especialmente aos da Ásia Menor, que enfrentavam dificuldades na vivência do
Evangelho. Essas dificuldades eram causadas tanto por conflitos internos nas
comunidades quanto por perseguições externas.
O trecho lido neste dia
foi construído à luz do quarto cântico do Servo sofredor (Is 53,4-12); nele, o
autor descreve o exemplo de Jesus diante do sofrimento, exortando os cristãos a
fazer o mesmo (v. 21). O batismo agrega na mesma comunidade pessoas que antes
poderiam ter vivido conflitos entre si. Uma vez batizadas, isto é, introduzidas
na comunidade, todas as pessoas devem assumir a postura de Jesus, que sofreu
por ter feito o bem (v. 20b), sem jamais recorrer à violência (v. 23). A
resposta cristã ao mal só pode ser o bem, mesmo diante do sofrimento. Não se
trata de mensagem de resignação, mas de esperança; é um chamado a viver o amor
acima de tudo e a acreditar na sua força transformadora.
Diante disso, além de
modelo a ser imitado, Jesus é reconhecido como o autêntico pastor que resgatou
a todos da condição de ovelhas desgarradas (v. 25), levando-os à condição de
pessoas livres e justas, por ter carregado sozinho o pecado de todos (v. 24).
Como pastor que ama incondicionalmente, mesmo perseguido e ultrajado, sua
resposta é sempre o amor. É assim, portanto, que devem agir também os cristãos.
3. Evangelho (Jo 10,1-10)
O capítulo 10 do
Evangelho segundo João é marcado pelo uso abundante da imagem do Bom Pastor
aplicada a Jesus. O Evangelho deste dia corresponde aos dez primeiros versículos
desse capítulo, no qual Jesus se apresenta também como a porta das ovelhas,
reforçando sua identidade de único mediador entre Deus e a humanidade. Para
compreender melhor todo o capítulo, sobretudo o trecho lido nesta celebração, é
necessário recordar alguns elementos do capítulo anterior. Após ter curado um
cego de nascença (9,1-7), Jesus foi hostilizado por alguns fariseus (9,13-16),
que não aceitavam a origem divina da sua autoridade (9,16.29) e contestavam a
veracidade da cura. O Evangelho deste dia, portanto, faz parte da resposta de
Jesus aos fariseus, os verdadeiros cegos (9,39-41).
A solene fórmula de introdução “em verdade, em verdade” do v. 1
(em grego: amén, amén) indica a importância do que será ensinado; significa que se
trata de catequese vital para a comunidade cristã, como de fato essa é, pois
diz respeito à própria identidade de Jesus enquanto único pastor credenciado
pelo Pai para cuidar do rebanho. Assim, em uma pequena parábola, construída
segundo um paralelismo antitético, Jesus contrapõe o comportamento do pastor ao
do ladrão e assaltante (v. 1-5). Com essa comparação, ele acusa os dirigentes
políticos e religiosos do seu tempo de agirem como ladrões, alertando a
comunidade para não se deixar enganar. Só é autorizado a cuidar do rebanho quem
entra pela porta (v. 2), o pastor verdadeiro que é ele mesmo, pois foi enviado
pelo Pai. Enquanto os líderes de Israel exploravam e oprimiam o povo, Jesus
afirma que ser pastor é estabelecer uma relação familiar com as ovelhas,
mediante a escuta que gera confiança (v. 3); é promover a libertação das
ovelhas e arriscar-se por elas, caminhando à sua frente em busca de liberdade e
dignidade (v. 4). Quando o pastor é autêntico, as ovelhas não se perdem, porque
conhecem e escutam somente a sua voz (v. 5); essa voz é o Evangelho, por meio
do qual Jesus fala em todos os tempos.
A não compreensão dos
interlocutores de Jesus (v. 6), os fariseus, só confirma a cegueira em que
viviam (9,40-41). Diante disso, Jesus passa a falar de maneira mais direta, em
primeira pessoa, ainda que simbolicamente, apresentando-se como a porta das
ovelhas (v. 7). Assim, a denúncia contra os dirigentes de Israel se torna ainda
mais dura, pois revela a ilegitimidade do poder exercido até então. São eles os
ladrões e assaltantes a quem as ovelhas não devem escutar (v. 8). Só tem
credibilidade diante de Deus quem passa por Jesus, a porta (v. 9). A imagem da
porta representa, portanto, sua condição de único mediador entre Deus e a
humanidade. A dinâmica do entrar e sair, facilitada pela porta, é sinal de
liberdade: quem passa por Jesus é pessoa livre, pode entrar e sair e encontra
pastagem (v. 9) – a vida em abundância que ele mesmo veio comunicar ao mundo
(v. 10). Essa vida em abundância é, na verdade, a vida livre, digna e plena de
amor; não se trata de uma vida para o além, mas da realização plena do ser
humano neste mundo.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
As três leituras apontam
Jesus como o pastor autêntico e fonte de vida em abundância. Para participar
dessa vida, no entanto, é necessário passar por ele mediante o batismo e a
conversão contínua (I leitura), adotar seu jeito de viver (II leitura),
aceitá-lo como a única porta de acesso ao Pai e ouvir sua voz (Evangelho).
Pedir oração por todas as vocações necessárias à edificação da comunidade
cristã, especialmente pelas lideranças em atividade (bispos, presbíteros,
religiosos[as] e cristãos leigos e leigas), para que sejam promotoras de vida
em abundância.
Luiz
Alexandre Solano Rossi*; Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues**
*é doutor em Ciências da
Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e pós-doutor em
História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em Teologia
pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor no programa de
mestrado e doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná
(PUCPR) e no Centro Universitário Internacional (Uninter).
**é presbítero da diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica
pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É
licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia – Insaf (Recife)
e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma).
Professor na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN), é autor do
roteiro do 4º Domingo da Páscoa.
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/26-de-abril-4o-domingo-da-pascoa-fcfr/
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