Preparai os caminhos do Senhor! – Lc 3,1-6
Caros irmãos e irmãs,
Neste segundo domingo do advento, a Liturgia da
Palavra nos faz um apelo à conversão, à renovação, no sentido de eliminar todos
os obstáculos que impedem a chegada do Senhor ao nosso mundo e ao coração dos
homens. Esta missão é uma exigência que é feita a todos os batizados, chamados
a dar testemunho da salvação que Jesus Cristo veio trazer.
Lançando inicialmente um olhar para a primeira
leitura, retirada do livro do Profeta Baruc, seu conteúdo sugere que o
“caminho” de conversão é um verdadeiro êxodo da terra da escravidão para a
terra da felicidade e da liberdade. Durante o percurso, somos convidados a
despir-nos de todas as cadeias que nos impedem de acolher a proposta de uma
vida nova que Deus nos faz. Somos convidados a viver este tempo numa serena
alegria, confiantes no Senhor que não desiste de nos apresentar uma proposta de
salvação, apesar dos nossos erros e dificuldades.
A reflexão sobre este texto pode ser feita
lembrando que o advento é um tempo favorável, que nos possibilita sair da terra
da escravidão para a terra da liberdade. Neste tempo somos especialmente
confrontados com as cadeias que ainda nos prendem e somos convidados a
percorrer um novo caminho de regresso à cidade nova da alegria e da paz.
Uma das frases da Primeira Leitura nos diz: “Vê os teus filhos… estão
cheios de alegria porque Deus se lembrou deles” (Br 5,5). E é exatamente
nesta atmosfera de alegria e de confiança serena na ação salvadora do nosso
Deus que somos convidados a viver este tempo de mudança e a preparar a vinda do
Senhor.
O Evangelho apresenta o profeta João Batista, a nos
convidar a uma transformação total quanto à forma de pensar e de agir, quanto
aos valores e às prioridades da vida. Para que Jesus possa caminhar ao encontro
da humanidade é necessário que os corações estejam livres e disponíveis para
acolher a Boa Nova do Reino. É esta missão profética que Deus continua, hoje, a
confiar-nos.
Antes de começar a descrever a ação salvadora de
Jesus no meio dos homens, São Lucas vai apresentar João Batista, o profeta que
veio preparar a chegada do Messias de Deus. O evangelista começa por situar o
quadro de João Batista num determinado enquadramento histórico. Nomeia 7
personagens, desde o imperador Tibério César, até ao sumo sacerdote Caifás, num
esforço de situar no tempo os acontecimentos da salvação. É uma história
concreta, com acontecimentos concretos, que podem ser ligados a um determinado
momento histórico vivido. A figura de João Batista aparece como “uma voz
que grita no deserto” a exortar-nos a preparar os caminhos do coração para que
o Cristo Jesus possa ir ao encontro de cada homem.
E o evangelista São Lucas situa num espaço
geográfico a atividade profética de João: ele prega em “toda a região do rio
Jordão”. Trata-se de uma região bastante povoada, sobretudo depois das
construções de Herodes e de Arquelau. O anúncio profético de João destina-se
aos homens, que são convidados a acolher o Messias que está para fazer a sua
aparição no mundo. Finalmente, concretiza-se o âmbito da missão: João “proclama
um batismo de conversão, para a remissão dos pecados”. Para acolher o Messias
que está para chegar, é necessário um processo de conversão que leve a um rever
a vida, as prioridades, os valores; pois somente nos corações verdadeiramente
transformados, o Messias encontrará lugar.
Provavelmente o batismo administrado por João era o
batismo de imersão na água, um rito comum na cultura judaica. Significava a
morte a um passado que ficava simbolicamente sepultado na água. Utilizava-se no
âmbito civil para indicar, por exemplo, a emancipação do escravo; e, no
religioso, para a conversão do recém-convertido, indicando o início de uma nova
vida, ou seja, a mudança de vida: o passado de injustiça e de erros fica
sepultado.
Devemos distinguir entre a figura externa e a
mensagem de João. Ele se apresentava vestido como um dos antigos profetas,
especialmente Isaías (cf. 2Rs 1, 8). Vestia uma túnica de pele e a amarrava com
um cinto. Esta forma de vestir foi copiada pelos outros profetas. A vestimenta
externa de João era um tecido de pelos de camelo, o mesmo com o qual se teciam
as lonas das tendas dos nômades do deserto. Servia de proteção contra os raios
solares e, como capa, o protegia da chuva. Além dessa veste extremamente
rústica, havia na vida de João um outro detalhe que chamava a atenção das
multidões, sua comida: gafanhotos e mel silvestre. Tudo indicava a austeridade
de João e sua independência dos homens, de modo a depender unicamente de Deus.
Enquanto prosseguimos o caminho do Advento,
enquanto nos preparamos para celebrar o Natal de Cristo, ressoa também em nós
esta chamada de João Baptista à conversão: “Arrependei-vos, dizia, porque está
próximo o reino dos céus” (Mt 3,1-2). É um convite urgente a abrir o coração e
a acolher o Filho de Deus que vem entre nós. O Pai, escreve o evangelista
João, não julga ninguém, mas confiou ao Filho o poder de julgar, porque é Filho
do homem (cf. Jo 5, 22.27). E é hoje, no presente, que se decide o nosso
destino futuro; é com o comportamento concreto que temos nesta vida que
decidimos o nosso destino eterno. No findar dos nossos dias na terra, no
momento da morte, seremos avaliados com base na nossa semelhança ou não com o
Menino que está para nascer na pobre gruta de Belém, porque é Ele o critério de
medida que Deus deu à humanidade. O Pai celeste que no nascimento do seu Filho
Unigênito nos manifestou o seu amor misericordioso, nos chama a seguir os seus
passos fazendo da nossa existência um dom de amor.
Mediante o Evangelho, João Batista continua a falar
através dos séculos, a cada geração. As suas palavras claras e duras ressoam
também para os homens e as mulheres do nosso tempo. A “voz” do grande profeta
pede que preparemos o caminho ao Senhor que vem, nos desertos de hoje, desertos
exteriores e interiores, sequiosos da água viva que é Cristo.
João Baptista, portanto, tem um grande papel a
desempenhar, mas sempre em função de Cristo. Quanto a nós, hoje temos a tarefa
de ouvir aquela voz para conceder a Jesus, Palavra que nos salva, espaço e
acolhimento no coração. Neste Tempo de Advento, preparemo-nos para ver, com os
olhos da fé, na Gruta humilde de Belém, a salvação de Deus (cf. Lc 3, 6).
Escutemos o convite de Jesus no Evangelho e nos
preparemos para reviver com fé o mistério do nascimento do Redentor, que encheu
o universo de alegria; preparemo-nos para acolher o Senhor no seu incessante
vir ao nosso encontro nos acontecimentos da vida, na alegria ou no sofrimento,
na saúde ou na doença; preparemo-nos para encontrá-lo na sua vinda última e definitiva.
Continuemos o nosso caminho ao encontro do Senhor
que vem, permanecendo prontos para o receber no coração e na vida inteira, o
Emanuel, o Deus que vem habitar conosco. Confortados pela sua palavra,
invoquemos a proteção materna de Maria, Virgem da esperança, que ela nos guie a
uma verdadeira conversão interior, para que possamos sintonizar os nossos
pensamentos e ações com a mensagem do Evangelho, e assim possamos preparar
dignamente a vinda do Senhor que está para chegar. Assim seja.
Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ
https://www.presbiteros.org.br/homilia-de-d-anselmo-chagas-de-paiva-osb-ii-domingo-do-advento-ano-c/
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