sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

7- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)

 

7- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)

Lindolivo Soares Moura



"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

                      [Parte V-02]

            "Onde  houver  discórdia, que  eu leve a união!" 

               [Atribuída a  São Francisco de Assis]

Obs.: esta quinta parte, tópico 02, dá sequência e complementa as anteriores, de mesmo título.

ONDE HOUVER DISCÓRDIA, QUE EU LEVE A UNIÃO!

De acordo com Lou Marinoff, quando uma das partes de um relacionamento percebe que o investimento no vínculo feito pelo parceiro está se tornando desproporcional e demasiado aquém daquele que ela própria vem realizando, isso tem se constituído em uma das principais razões para que a parte que se considera “lesada” busque ajuda terapêutica. Ainda segundo Marinoff, muitas esposas estão dispostas a aceitar um investimento financeiro menor por parte do marido - quando é ele o principal mantenedor - desde que isso se traduza em um maior investimento de tempo, afeto e cuidado direcionado ao vínculo conjugal e à vida compartilhada, incluindo elas mesmas e os filhos. Evidentemente, como toda regra comporta exceções, esta também as possui; ainda assim, parece razoável admiti-la como uma regra geral, válida e sustentável.

Isso nos permite afirmar que uma segunda porta pela qual a discórdia pode acabar ingressando em um relacionamento seja o déficit de investimento afetivo e emocional para com o vínculo conjugal e para com a família de um modo geral, o que pode ocorrer tanto por iniciativa de um dos cônjuges quanto de ambos. É claro que as razões que levam a esse déficit podem ser diversas e distintas, cabendo ao terapeuta lidar com cada uma delas em sua singularidade. De nossa parte, optamos por abordar aquela que consideramos mais abrangente e mais genérica e que, justamente por essa característica, costuma atingir um número de relacionamentos bastante expressivo. Refiro-me ao investimento direcionado ao campo profissional quando ele se sobrepõe, em grau de importância - e, portanto, de tempo e de dedicação - ao investimento dispensado ao vínculo conjugal e/ou familiar.

Quando o trabalho deixa de ser meio e passa a ocupar o lugar de fim último - para certos cônjuges essa inversão não é assumida mas é internamente presumida - o relacionamento tende a ser deslocado para um plano secundário, passando a ser sustentado quase exclusivamente por rotinas e compromissos formais. O prejuízo, nesse caso, não se limita à diminuição do tempo compartilhado, mas atinge diretamente a qualidade da presença, da escuta, do envolvimento e do cuidado mútuo. O investimento profissional - a princípio, necessário e legítimo - transforma-se em fator de desequilíbrio quando carece de limites e mantém sob pressão contínua o espaço da troca e da intimidade afetiva. A isso se somam o desgaste progressivo e a escassez de energia emocional, que reduzem a capacidade de acolhimento e de resposta às demandas do parceiro. Gradualmente, o diálogo se empobrece, as prioridades se alteram de modo silencioso, e o vínculo deixa de ser alimentado por escolhas livres e conscientes, passando a ser nutrido com o que "sobra". O relacionamento passa a ser administrado como qualquer outro campo da vida, o que compromete sua força integradora, enfraquece o sentimento de pertença e fragiliza sua sustentação ao longo do tempo.

À luz da psicologia humanista de Abraham Maslow, essa dinâmica torna-se mais facilmente compreensível. Para Maslow, o dinheiro e os bens materiais possuem valor eminentemente instrumental: são úteis para atender necessidades básicas - sobretudo as fisiológicas e as de segurança - mas não constituem, em si mesmos, fonte de satisfação profunda ou de realização duradoura - exatamente por isso são chamados de "fatores insatisfacientes". Uma vez assegurado um patamar mínimo de estabilidade e segurança, o acréscimo de recursos passa a gerar retornos psicológicos cada vez menores, revelando-se incapaz de suprir - e por vezes até agravando - carências relacionadas ao sentimento de pertencimento, ao sentido da vida e à construção da autoestima. Quando o investimento profissional e financeiro ocupa o lugar dessas necessidades superiores - que de acordo com Maslow ocupam o ápice da pirâmide - corre-se o risco de confundir provisão com cuidado e estabilidade com vínculo. O resultado é um funcionamento eficiente, porém afetivamente empobrecido, no qual o relacionamento se mantém abastecido de meios e bens materiais, mas privado daquilo que efetivamente o nutre em sua dimensão mais profunda. A afirmação de Marinoff se compreende sobretudo nesse sentido.

Não importa que ambos os cônjuges se encontrem na condição de mantenedores materiais: sempre haverá, implícita ou explicitamente manifesta, a expectativa de que o vínculo conjugal seja reconhecido e tratado como o bem mais precioso e, por isso mesmo, merecedor dos melhores investimentos de tempo e de afeto. O fato de que as necessidades de sobrevivência e de segurança - que, segundo Maslow, ocupam a base da pirâmide - reclamem atenção mais imediata, em nada altera essa hierarquia de valor e de sentido. O problema é que muitos mantenedores tendem a acreditar que, se são bons provedores, são também, automaticamente, bons maridos, boas esposas e bons pais. Trata-se de um equívoco traiçoeiro, embora ocorra com frequência. Quando a discórdia se depara com essa brecha e por ela se insinua, não é raro que surjam no consultório justificativas do tipo: “dedico toda a minha vida ao meu casamento; trabalho de manhã à noite, de segunda a sábado, mês após mês, ano após ano para proporcionar qualidade de vida ao meu casamento e à minha família”. O que não se percebe é que a dedicação pode estar sendo plena e integral, porém dirigida não ao vínculo conjugal e sim ao trabalho. Os fins passam a ser tratados como meios, na exata proporção em que os meios passam a ocupar, silenciosamente, o lugar de fins. O grau de insatisfação aumenta e, com ele, o teor de discórdia. Desnecessário dizer que, a essa altura, os corações já estão transitando por vias separadas, e a paz já solicitou visto de saída. Seguramente, Francisco não ignorava esse tipo de cilada, ao fazer sua súplica implorando pela superação da discórdia, o retorno da concórdia e a restauração da paz.

Obs.: esta quinta parte, tópico 02, continua e será complementada pela sexta parte de mesmo título.

(* ) Reflexão enviada de Vitória(ES) via WhatApp.

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