7- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)

"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO
CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"
[Parte V-02]
"Onde houver discórdia, que eu leve a união!"
[Atribuída a São Francisco de
Assis]
Obs.: esta quinta parte, tópico 02, dá sequência e complementa as anteriores,
de mesmo título.
ONDE HOUVER
DISCÓRDIA, QUE EU LEVE A UNIÃO!
De acordo com Lou Marinoff, quando uma das partes de um relacionamento
percebe que o investimento no vínculo feito pelo parceiro está se tornando
desproporcional e demasiado aquém daquele que ela própria vem realizando, isso
tem se constituído em uma das principais razões para que a parte que se
considera “lesada” busque ajuda terapêutica. Ainda segundo Marinoff, muitas esposas
estão dispostas a aceitar um investimento financeiro menor por parte do marido
- quando é ele o principal mantenedor - desde que isso se traduza em um maior
investimento de tempo, afeto e cuidado direcionado ao vínculo conjugal e à vida
compartilhada, incluindo elas mesmas e os filhos. Evidentemente, como toda
regra comporta exceções, esta também as possui; ainda assim, parece razoável
admiti-la como uma regra geral, válida e sustentável.
Isso nos permite afirmar que uma segunda porta pela qual a discórdia pode
acabar ingressando em um relacionamento seja o déficit de investimento afetivo
e emocional para com o vínculo conjugal e para com a família de um modo geral,
o que pode ocorrer tanto por iniciativa de um dos cônjuges quanto de ambos. É
claro que as razões que levam a esse déficit podem ser diversas e distintas,
cabendo ao terapeuta lidar com cada uma delas em sua singularidade. De nossa
parte, optamos por abordar aquela que consideramos mais abrangente e mais
genérica e que, justamente por essa característica, costuma atingir um número
de relacionamentos bastante expressivo. Refiro-me ao investimento direcionado
ao campo profissional quando ele se sobrepõe, em grau de importância - e,
portanto, de tempo e de dedicação - ao investimento dispensado ao vínculo
conjugal e/ou familiar.
Quando o trabalho deixa de ser meio e passa a ocupar o lugar de fim
último - para certos cônjuges essa inversão não é assumida mas é internamente
presumida - o relacionamento tende a ser deslocado para um plano secundário, passando
a ser sustentado quase exclusivamente por rotinas e compromissos formais. O
prejuízo, nesse caso, não se limita à diminuição do tempo compartilhado, mas
atinge diretamente a qualidade da presença, da escuta, do envolvimento e do
cuidado mútuo. O investimento profissional - a princípio, necessário e legítimo
- transforma-se em fator de desequilíbrio quando carece de limites e mantém sob
pressão contínua o espaço da troca e da intimidade afetiva. A isso se somam o
desgaste progressivo e a escassez de energia emocional, que reduzem a
capacidade de acolhimento e de resposta às demandas do parceiro. Gradualmente,
o diálogo se empobrece, as prioridades se alteram de modo silencioso, e o
vínculo deixa de ser alimentado por escolhas livres e conscientes, passando a
ser nutrido com o que "sobra". O relacionamento passa a ser
administrado como qualquer outro campo da vida, o que compromete sua força
integradora, enfraquece o sentimento de pertença e fragiliza sua sustentação ao
longo do tempo.
À luz da psicologia humanista de Abraham Maslow, essa dinâmica torna-se
mais facilmente compreensível. Para Maslow, o dinheiro e os bens materiais
possuem valor eminentemente instrumental: são úteis para atender necessidades
básicas - sobretudo as fisiológicas e as de segurança - mas não constituem, em
si mesmos, fonte de satisfação profunda ou de realização duradoura - exatamente
por isso são chamados de "fatores insatisfacientes". Uma vez
assegurado um patamar mínimo de estabilidade e segurança, o acréscimo de
recursos passa a gerar retornos psicológicos cada vez menores, revelando-se
incapaz de suprir - e por vezes até agravando - carências relacionadas ao
sentimento de pertencimento, ao sentido da vida e à construção da autoestima.
Quando o investimento profissional e financeiro ocupa o lugar dessas
necessidades superiores - que de acordo com Maslow ocupam o ápice da pirâmide -
corre-se o risco de confundir provisão com cuidado e estabilidade com vínculo.
O resultado é um funcionamento eficiente, porém afetivamente empobrecido, no
qual o relacionamento se mantém abastecido de meios e bens materiais, mas
privado daquilo que efetivamente o nutre em sua dimensão mais profunda. A
afirmação de Marinoff se compreende sobretudo nesse sentido.
Não importa que ambos os cônjuges se encontrem na condição de
mantenedores materiais: sempre haverá, implícita ou explicitamente manifesta, a
expectativa de que o vínculo conjugal seja reconhecido e tratado como o bem
mais precioso e, por isso mesmo, merecedor dos melhores investimentos de tempo
e de afeto. O fato de que as necessidades de sobrevivência e de segurança -
que, segundo Maslow, ocupam a base da pirâmide - reclamem atenção mais
imediata, em nada altera essa hierarquia de valor e de sentido. O problema é
que muitos mantenedores tendem a acreditar que, se são bons provedores, são
também, automaticamente, bons maridos, boas esposas e bons pais. Trata-se de um
equívoco traiçoeiro, embora ocorra com frequência. Quando a discórdia se depara
com essa brecha e por ela se insinua, não é raro que surjam no consultório
justificativas do tipo: “dedico toda a minha vida ao meu casamento; trabalho de
manhã à noite, de segunda a sábado, mês após mês, ano após ano para
proporcionar qualidade de vida ao meu casamento e à minha família”. O que não se
percebe é que a dedicação pode estar sendo plena e integral, porém dirigida não
ao vínculo conjugal e sim ao trabalho. Os fins passam a ser tratados como
meios, na exata proporção em que os meios passam a ocupar, silenciosamente, o
lugar de fins. O grau de insatisfação aumenta e, com ele, o teor de discórdia.
Desnecessário dizer que, a essa altura, os corações já estão transitando por
vias separadas, e a paz já solicitou visto de saída. Seguramente, Francisco não
ignorava esse tipo de cilada, ao fazer sua súplica implorando pela superação da
discórdia, o retorno da concórdia e a restauração da paz.
Obs.: esta quinta parte, tópico 02, continua e será complementada pela sexta
parte de mesmo título.
(* ) Reflexão enviada de Vitória(ES) via WhatApp.
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