4-REFLEXÕES PARA O DOMINGO DA FESTA
DO BATISMO DO SENHOR
4.1-11 de janeiro –
BATISMO DO SENHOR
Por
Junior Vasconcelos do Amaral*
Eis o meu servo, eis o meu
eleito!
I.
INTRODUÇÃO GERAL
Jesus é batizado no Jordão, embora não necessitasse ser
batizado, pois não era pecador. Contudo, o sentido que Jesus dá ao batismo nos
faz lembrar de sua solidariedade para com os que procuravam o batismo no tempo
de João Batista – os pecadores e pobres – e, até os dias de hoje, para com
aqueles que são congregados e enxertados na vida da fé da Igreja. O batismo é
nossa participação no mistério da paixão, morte e ressurreição do Senhor. Pelo
batismo, morremos para o pecado e ressurgimos para a vida nova dos eleitos, a
fim de servirmos o mundo com nossos dons e testemunho.
Na primeira leitura,
o profeta Isaías, no cântico do Servo, dá testemunho acerca daquele que é o
Servo de Deus para servir o povo, como eleito; não como um privilégio, mas como
uma missão. O Servo de Adonai, que será no Novo Testamento (NT) Jesus Cristo, é
constituído, de acordo com a segunda leitura, como Ressuscitado, Senhor de
todos. Jesus, segundo o Antigo Testamento (AT), foi ungido para fazer o bem e
salvar a todos, expulsando os demônios. Ele é o eleito de Deus que desejou ser
batizado para solidarizar-se com seu povo, o qual procurava João no Jordão para
redimir-se de seus pecados, de acordo com o Evangelho deste domingo. Jesus, em
seu batismo, aproxima-se dos pecadores, pois sua missão é salvar a todos,
curando os que estavam feridos no coração.
II.
COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1.
I leitura (Is 42,1-4.6-7)
O profeta Isaías, no primeiro cântico do
Servo (Is 42), fala a respeito do Servo de Deus, o eleito do Senhor, sobre
quem o Espírito de Deus pairou – assim como em Jesus, no Evangelho desta festa
(Mt 3,16). A eleição é a imagem tipológica para pensar, desde o AT, a pessoa de
Jesus, que desce ao rio Jordão para ser batizado por João. A eleição, na
Sagrada Escritura, não é sinal de honra, mas de serviço. O Servo do Senhor é
uma figura isaiana corporativa, que cumpre uma missão, a vontade de Deus; ele é
o Eved
Adonai. Quatro são os cânticos dedicados ao Servo (Is 42,1-7; 49,1-6;
50,4-9; 52,13-53,12), o qual constitui um personagem revelador do conhecimento
de Deus, de sua misericórdia e fidelidade. Ele é símbolo da aliança (Berit) entre Deus e o povo, a
fim de restaurar a paz e trazer a felicidade aos oprimidos. O contexto do
exílio babilônico deve ser levado em consideração na composição literária dessa
figura teológica, que testemunha o Deus verdadeiro no meio das nações. O Servo
é sinal de Deus, não apenas seu Servo, mas deve ser luz para as nações (cf. Is
49,1-6).
2.
II leitura (At 10,34-38)
O texto de Atos é, por natureza, querigmático
e anuncia do início ao fim a paixão, morte e ressurreição de Jesus, o
mistério pascal, que pode ser considerado o evento fundador do NT. O querigma
significa, para o início do cristianismo e seu desenvolvimento até os dias
hodiernos, uma espécie de baliza e fundamento para a fé. Seguimos não dogmas,
mas uma pessoa: Jesus Cristo, que viveu, morreu e ressuscitou para nossa
salvação. O dogma que surge da relação que os primeiros cristãos têm com Jesus
Cristo serve para que, no depósito da fé, todos nos enriqueçamos com a
profissão de fé dos primeiros apóstolos, os que acompanharam Jesus em sua
itinerância até a ressurreição. O relato deste domingo está enxertado na
catequese de Pedro na casa de Cornélio, centurião romano pagão (At 10,34-43).
Os v. 37-43 constituem uma espécie de resumo do Evangelho de Marcos, que foi
inspirado por Pedro. Marcos teria sido o hermeneuta de Pedro, interpretando
o sensus
fidei e inspirando também Lucas, que tem como fonte o Evangelho
marcano.
O presente relato de Atos serve como modelo paradigmático para o
anúncio cristão. A entonação é universalista, pois Pedro anuncia a missão de
Jesus, o Messias e Filho de Deus, a partir de sua investidura, o batismo, que
pode ser entendido como o empoderamento de Jesus para sua missão soteriológica
de salvar a humanidade do pecado, que Adão instaurou por sua liberdade
arruinada. Jesus é aquele que livremente assume o projeto salvífico pretendido
por Deus, o Pai, e seu batismo constitui a porta de entrada para uma vida
devotada a Deus. Por isso, nós, cristãos, ao sermos batizados, somos enxertados
na nova vida que é de Cristo e temos como “sobrenome e identidade” o termo
“cristão”, que significa ungido, enviado para uma missão – a de continuar a
missão de Jesus Cristo, colaborando para que outros e outras encontrem também a
salvação querida por Deus.
3.
Evangelho (Mt 3,13-17)
O batismo
de Jesus é a porta de entrada para sua vida pública. Jesus desce ao Jordão
para recordar que o povo de Deus também passou pelo Jordão, liderado por Josué
(cf. Js 3), cujo nome tem a mesma raiz do nome Jesus, que lembra “Deus salva”.
Josué passa pelo Jordão para ressignificar a passagem pelo mar Vermelho, lugar
onde Deus salvou seu povo da opressão egípcia. O batismo é o mergulho na morte
para o pecado com Cristo e o ressurgir para uma vida nova, na ressurreição à
qual ele nos destina. Pelo batismo, todo cristão é lavado da antiga culpa e
ressurge para a vida nova em Cristo.
O batismo é narrado por
Mc 1,9-11, Mt 3,13-17 e Lc 3,21-22 e é ministrado por João Batista, o precursor
de Jesus e supostamente seu mestre, a quem Jesus se dirigiu para iniciar
seu ministério, sinalizando o início de seu messianismo nas águas do Jordão.
Trata-se de um ato público, com efeitos essenciais na vida de Jesus, que, a
partir daquele momento, assume uma missão soteriológica (para a salvação de
todos).
A narrativa proposta para este domingo, a
versão mateana, é a mais rica em detalhes, que abarcam tanto o sentido
literário como o teológico, trazendo a incompreensão de João Batista e a
certeza manifestada por Jesus de estar cumprindo a justiça de Deus (tsedakah, no hebraico; dikaiosyne, no grego; iusticia, em latim). Tal termo
pode ser entendido como retidão, cumprimento da vontade de Deus por parte de
seu servo. Jesus é o Servo de Adonai e cumprirá todo o programa estipulado por
Deus, seu Pai. Para o Evangelho de Mateus, Jesus é o novo Moisés, aquele que
vem cumprir a justiça estipulada por Deus.
A cena do batismo se passa em um cenário que é, para além de
geográfico, teológico: o Jordão, o local para o qual se encaminham os pecadores a fim
de ouvirem a voz do profeta que fala aos corações, convidando-os à metanoia, ao arrependimento, que
leva a ultrapassar os pensamentos e ações que levam ao pecado. Jesus não
carecia de conversão por ser o Filho de Deus, mas se faz solidário e próximo
dos pecadores. Ele é, na perspectiva tardia, o Cordeiro de Deus que vem tirar o
pecado do mundo (Jo 1,29), por isso o quarto Evangelho acena para um homem que
se aproxima dos pecadores do mundo. Jesus é ainda próximo dos marginalizados e
pobres, sobretudo dos que são excluídos pela religião oficial da época.
A cena do batismo no Jordão apresenta figuras
importantes: João, o Batista; Jesus, o Filho de Deus; o Espírito em forma
corpórea de pomba (Yonah, em hebraico; peristerán, no grego); a voz do céu (foné ek ton ouranón), para simbolizar o Pai. O Espírito, simbolizado na pomba,
faz-nos recordar o Espírito que, em Gn 1,2, pousava sobre as águas na criação,
o que recorda o batismo como fonte de nova criação para os cristãos. Do batismo
Jesus será enviado para o deserto para ser tentado (Mt 4,1), iniciando sua vida
ministerial. Em Gn 8,6-11, Noé, na nova criação, no recomeço, envia uma pomba
para trazer o ramo de oliveira, símbolo da aliança que Deus estabelece com seu
povo. Em Mt 10,16, no discurso apostólico, Jesus envia seus discípulos em
missão para serem simples como as pombas. Elas são símbolo da simplicidade e,
com seu arrulhar, parecem estar em oração suplicante. Por fim, são também
símbolo da realidade que permanece, pois fazem seu ninho num local fixo e
voltam todo ano para lá viverem a experiência da fecundidade. A voz que veio do
céu é a do Pai, que elege seu Filho agraciado. Jesus é aquele que cumpre a
vontade do Pai. Em toda sua vida, ver-se-á descortinar a vontade de Deus, a
qual se realizará plenamente no amor derramado na cruz.
III.
PISTAS PARA REFLEXÃO
Levar a comunidade a perceber a relação entre as leituras, desde
o profeta Isaías, que fala da missão a partir de uma eleição, ao Evangelho, que
evidencia ser Jesus o eleito do Pai para cumprir uma missão soteriológica,
culminando com sua morte e ressurreição – o conteúdo anunciado pela segunda
leitura. Esta celebração pode ser uma grande mistagogia batismal, levando a
comunidade cristã a revisitar o sentido teológico e pastoral do sacramento do
batismo, que nos incorpora a todos na missão de Cristo, no povo de Deus, no
corpo místico de Cristo, a Igreja, tornando-nos templos do Espírito Santo.
Desse modo, percebe-se que toda vivência espiritual do cristão é trinitária,
desde o nascimento para a fé até sua total acolhida no coração da Santíssima
Trindade. Relembrar que o batismo nos constitui a todos sacerdotes, profetas e
pastores para cuidar deste mundo, testemunhando o amor de Deus pela humanidade.
Junior
Vasconcelos do Amaral*
*é presbítero da arquidiocese de Belo
Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança
(Rense). Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e
Teologia (Faje), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade
“sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain
(Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de Antigo e Novo
Testamentos na PUC-Minas, em Belo Horizonte, e desenvolve pesquisa sobre
psicanálise e Bíblia. É psicanalista clínico.
E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/11-de-janeiro-batismo-do-senhor-2/
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