4.2- 18
de janeiro – 2º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Junior Vasconcelos do Amaral*
Eu
te farei luz das nações!
I.
INTRODUÇÃO GERAL
Após o Batismo de Jesus, celebrado no
domingo passado, em que renovamos nossa missão batismal, a Igreja nos convida a
voltar ao Tempo Comum, espécie de kairós catequético
no qual a Palavra de Deus vai ecoar no meio de nós e em nosso coração. Somos
animados a deixar brilhar em nós a luz de Deus para que, com nosso auxílio,
outros também creiam. Todo cristão batizado, desde a Igreja antiga, é
considerado um “iluminado”, que deve fazer brilhar no mundo a luz de Cristo.
Neste 2º Domingo do Tempo Comum, a liturgia nos fala dessa luz, que, para o
profeta Isaías, é Israel durante o exílio. Israel deve reluzir, por meio de sua
fé em Deus, essa relação substancial com Ele, que alimenta a esperança de novos
céus e nova terra – nesse caso, o retorno para Judá. A segunda leitura, de
Paulo falando aos coríntios, é uma exortação inicial da carta que convida à
unidade em Cristo. Mesmo em meio à divisão encontrada em Corinto, Paulo
decide-se por anunciar a unidade perfeita em Cristo, pelo vínculo indefectível
do amor. No Evangelho, João anuncia Jesus como Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo. Para o quarto Evangelho, o Logos, existindo antes dos tempos,
assume a carne humana em Jesus, fazendo-se resgatador da salvação, como
Cordeiro que redime, com seu próprio sangue, os pecados da humanidade, pois sua
morte é vicária, “no lugar de”.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS
BÍBLICOS
1. I leitura (Is 49,3.5-6)
A
presente passagem de Isaías traz o segundo cântico do Servo de Adonai e inspira
seus ouvintes e leitores a pensar que, para além de servo, Israel é chamado a
ser luz para as nações (v. 6). Não basta ser servo, há que se fazer luz a fim
de restaurar as tribos de Jacó e reconduzir para Jerusalém os exilados livres
do cativeiro. O povo de Deus, vivendo escravizado durante cinquenta anos na
Babilônia, agora deve voltar para Judá. O personagem corporativo que é o Servo
de Deus, de Adonai, deve ser um sinal de esperança que ilumina os caminhos para
os que estão extraviados e desencaminhados, submersos na desesperança. Ele deve
lançar luzes às estradas dos exilados para que seus pés não tropecem e eles não
venham a sofrer ainda mais do que sofreram na Babilônia. A luz é um elemento
vital. Jesus também utiliza a imagem desse elemento para falar ao coração de
seus discípulos, exortando-os: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). Sendo luz
para Jacó, Israel, o Servo do Senhor vai congregar seu povo e levá-lo para a
terra do serviço a Deus e à fraternidade, Judá (cuja capital é Jerusalém).
2. II leitura (1Cor 1,1-3)
Esses
são os primeiros versículos, ou seja, o prólogo, da primeira epístola de Paulo
aos irmãos e irmãs de Corinto. Os cristãos da Igreja de Deus que está em
Corinto são chamados a viver na santidade, pois foram santificados por Jesus
Cristo, aquele que é Santo. Paulo escreve juntamente com o irmão Sóstenes aos
coríntios, que vivem em uma cidade importante da Ásia Menor, uma cidade
portuária. Sabia-se que em Corinto existia uma confluência de culturas e
credos, religiões de mistério, bem como filosofias oriundas de várias partes.
Corinto era a capital da província romana da Acaia, que abrangia a parte antiga
da Grécia, ao sul da Macedônia, atraindo diversas pessoas do império.
O
adágio “viver à coríntia” dizia muito sobre aquela cidade, significando viver
lascivamente, de forma imoral. Paulo, assim, encontrou dificuldades em Corinto,
imoralidades, dissensões, oposições e resistências, sobretudo por causa dos
falsos ensinamentos que ali pululavam. O v. 2 mostra que Paulo está se
dirigindo a todos os que, de qualquer lugar, invocam o nome de Jesus Cristo. O
apóstolo pretende fundamentalmente promover em Corinto a união, pois os atos
imorais, os falsos profetas e anticristos e os ensinamentos contrários à fé
cristã dissuadiam muitos de viver a unidade da fé em Jesus Cristo. É desejo de
Paulo que a fé em Cristo leve todos a viver o dom da unidade, no vínculo
perfeito do amor.
3. Evangelho (Jo 1,29-34)
A
passagem do Evangelho tem como elemento fundamental a tradição sobre João
Batista presente no quarto Evangelho, da comunidade do Discípulo Amado. A
tradição sobre o Batista é frequente nos sinóticos (Mc, Mt e Lc) e no quarto
Evangelho. Disso se pode deduzir que João Batista tenha influenciado
decisivamente a vida e a missão de Jesus, configurando-se como seu mestre, como
aquele a quem Jesus se dirige no início de sua vida ministerial como
missionário itinerante e carismático.
No judaísmo, os discípulos procuravam
os mestres (rabinos) com os quais desejavam aprender os ensinamentos da Torá e
aquilo que era dito acerca da Lei, o que se pode chamar de midrash (interpretação).
Jesus, dessa maneira, vai até João, que, ao batizá-lo nas águas do Jordão,
marcará o início de seu ministério. João Batista tem em Jo 1,19-37 importante
missão: apresentar o Messias, o “enviado” de Deus, Jesus Cristo. Para as fontes
que alimentaram os sinóticos e o quarto Evangelho, o batismo é decisivo para a
vida de Jesus, pois, logo após ser batizado, ele é levado pelo Espírito para o
deserto a fim de ser tentado por satanás. Jesus permanece fiel a Deus e
renuncia a todas as investidas do diabo.
Em
Jo 1,19-28, encontra-se o testemunho acerca de João Batista. Os judeus e
levitas, no v. 19, perguntam a João quem é ele. João diz não ser o Cristo (v.
20). Em seguida, diz de si mesmo: “Eu sou a voz que clama no deserto...” (v.
23). Na cena seguinte (o Evangelho deste domingo: v. 29-33), Jesus vai até
João. O Batista afirma: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”
Para João, Jesus é o homem, o varão, a serviço do qual foi enviado, pois ele,
Jesus, lhe era preexistente. O evangelista está aqui recordando o tema da
preexistência do Logos (1,1-2).
No
quarto Evangelho, ao ir até João Batista, Jesus é apresentado por ele como o
Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. A cena em questão começa com uma
sinalização temporal importante, “no dia seguinte” (v. 29). O Evangelho joanino
marca uma espécie de semana inaugural para narrar a missão de Jesus. A
participação de João Batista é marcante como testemunha no primeiro dia e
decisiva no segundo dia, quando apresentará Jesus como o Cordeiro de Deus, que
tira o pecado do mundo (v. 29.36). No comentário da Bíblia de Jerusalém (edição
de 2002) sobre esse versículo, encontra-se preciosa chave de leitura: “O
‘pecado’ (no singular) por excelência é recusar reconhecer Cristo como enviado
de Deus (15,22.24; 16,9; 8,21), que veio nos revelar a ‘verdade’ (8,32)”.
João Batista testemunha, além da
preexistência do Logos, uma temática preponderante no quarto Evangelho – Jesus
foi batizado pela ação do Espírito Santo –, pois viu e testemunhou que o
Espírito desceu sobre ele como uma pomba do céu. João diz não conhecer
anteriormente aquele que veio até ele, mas Deus, que o enviou para cumprir tal
missão, lho deu a conhecer, por revelação. As palavras de Deus ao Batista
acerca de Jesus são claras: “Aquele sobre quem vires o Espírito descer e
permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo” (v. 33). João conclui em
tom querigmático: “Eu vi e dou testemunho: este é o Filho de Deus”. Seu
testemunho é imprescindível para o início do Evangelho joanino, assim como é o
batismo de Jesus ministrado por ele nos sinóticos. No quarto Evangelho, além de
batizar Jesus, João dá testemunho (em grego, memartyrēka, verbo no perfeito indicativo ativo, dando
sentido de continuidade) sobre ele. Para o Batista, Jesus é o Filho de Deus; em
sentido semítico, o próprio Deus no meio deles.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Esta
liturgia está interligada com a do domingo passado, festa do Batismo de Jesus.
A comunidade cristã pode, na liturgia deste domingo, meditar acerca de sua
missão batismal, do que cada membro batizado na comunidade faz para a
evangelização. Todos os fiéis batizados estão cooperando com o anúncio do
Evangelho, na catequese, na liturgia, nas pastorais sociais? Meditar a
importância da vida comunitária, como nos ensina a segunda leitura. Perceber a
importância de que cada fiel ilumine o mundo com seu testemunho, com sua conduta
e com o anúncio da Boa-nova de Jesus.
Junior
Vasconcelos do Amaral*
*é
presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança (Rense). Doutor em Teologia Bíblica pela
Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), realizou parte de seus
estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica
na Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é
professor de Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas, em Belo Horizonte, e
desenvolve pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. É psicanalista clínico.
E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/18-de-janeiro-2o-domingo-do-tempo-comum-2/
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