sábado, 3 de janeiro de 2026

7- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*) "ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO" [Parte III-02]

 

 

7- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)

"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

                     [Parte III-02]

          "Onde houver ódio, que eu leve o amor.

                [Atribuída a  São Francisco de Assis]

Obs.: esta terceira parte, tópico 02, finaliza a terceira parte, tópico 01.

ONDE HOUVER ÓDIO, QUE EU LEVE O AMOR!

O ódio, ao contrário do que se possa pressupor, não costuma poupar ninguém, e nenhum tipo de vínculo está totalmente protegido contra sua ação corrosiva e desarticuladora. No tocante ao vínculo conjugal, há duas portas principais por meio das quais ele tem sua entrada facilitada. A primeira ocorre quando deixamos a porta totalmente aberta, escancarada, sem nenhum tipo de proteção ou salvaguarda. Nesse caso ele pode invadir súbita e abruptamente nossa vida por intermédio de um ato de traição, de violência, ou de qualquer outro tipo de infidelidade percebida como grave e insuportável. Os efeitos costumam ser catastróficos e devastadores; tanto em virtude do dano em si, quanto do notório e costumeiro despreparo de ambos os parceiros em lidar com ele. Até mesmo os alicerces de matrimônios que se supunha construídos sobre rocha firme podem sofrer abalos profundos - isso, claro, quando a construção inteira não desaba por completo. Provavelmente São Paulo buscava evitar essa súbita e inesperada tomada de assalto quando advertiu: “Se vos irardes, não pequeis; que o sol não se ponha sobre a vossa ira; não deis entrada ao demônio”. A ira não é exatamente sinônimo de ódio, mas costuma funcionar como uma de suas principais portas de entrada. Conceder ao ódio o benefício do tempo necessário para que ele seja processado e elaborado, é mais que importante; é essencial. Mas isso não significa permanecer passivo e desprotegido, permitindo que ele fique à vontade para disseminar seus estragos. Por outro lado, combatê-lo não significa expulsá-lo com a mesma rapidez com que ele invade nossa vida. Pelo contrário, a melhor estratégia é sempre enfrentá-lo em nosso próprio campo de batalha. Seria insensatez enfrentar qualquer inimigo no terreno que lhe favorece; isso apenas o fortaleceria. Mas permitir que ele entre, se acomode e se sinta à vontade, sem enfrentá-lo com todas as armas disponíveis, seria sem dúvida uma insensatez ainda maior. O ódio que chega abruptamente, sem pedir licença e sem mandar recado, pelo simples oportunismo de encontrar a porta escancarada, é invasivo, insolente e desrespeitoso. Mas existe um outro tipo que só entra com nossa permissão e quando se sente convidado. É desse tipo de ódio que falaremos a seguir.

A segunda maneira de se permitir que o ódio ultrapasse as defesas que protegem o vínculo conjugal não é abrupta, não é invasiva, e tampouco barulhenta, ainda que continue sendo desrespeitosa e indesejada. Exatamente por isso, torna-se menos perceptível e geralmente mais difícil de ser combatida. Tal tipo de facilitação só é possível pelo fato de que, exceto o assim chamado “amor Ágape” - amor incondicional e totalmente destituído de interesse, que Freud admitiu desconhecer e jamais haver experimentado - todos os demais tipos de amor - “Eros” e “Philos” - são potencialmente capazes de ativar seu contrário, ou seja, o ódio. É de Lou Marinoff a seguinte afirmação: "...enquanto a base do apego em um relacionamento amoroso for a gratificação do ego, concordo que esse apego é potencialmente insalubre e tem a capacidade de ativar seu polo oposto: a raiva ou o ódio...". No presente caso, essa transformação indesejada do vinho em água - água contaminada, o que é ainda pior - geralmente costuma ocorrer da seguinte forma. No início do relacionamento, estamos propensos e dispostos a aceitar, sem maiores queixas, as falhas, limitações e imperfeições do companheiro; nosso foco são suas virtudes, talentos e qualidades. Como bem observou Sheakspeare, "o amor é cego" - sobretudo nessa fase, diríamos nós. Aqui a porta permanece fechada à tranca para o ódio. Mas na medida em que o tempo passa, as qualidades e as virtudes vão sendo percebidas como subentendidas, pressupostas, não mais que simples obrigações; nossa atenção se volta então para as pequenas coisas que nos desagradam, incomodam, e nos irritam com frequência. Porta destrancada e semiaberta para o ódio. Finalmente, nosso foco se dirige para os vícios, as falhas, as imperfeições e as atitudes que nos irritam profundamente, e que já não somos capazes de suportar. Porta escancarada para o ódio.

E é assim que, sem que consigamos de início compreender o como e o porquê, o amor acaba se transformando no seu exato oposto: o ódio. Um apego positivo e saudável - a Teoria do Apego o chamaria de "apego seguro" - se transformando num apego negativo e doentio. Daí para frente é um Deus nos acuda - isso, naturalmente, quando há um Deus presente nessa história; quando não há, costuma ser demônio e satanás sendo invocado o tempo todo. Perceba que esse é um tipo de ódio progressivo, cumulativo, consolidado apenas depois de uma sequência de pequenos ódios - contrariedade, desgosto, irritação, raiva e ressentimento - porém cada vez mais intensos, até se transformarem num ódio insuportável. Quando se chega a exclamar: “meu relacionamento está um inferno!”, ou se faz uso de expressões desse tipo, compreende-se bem de que tipo de ódio estamos falando. Esse é um ódio estrategista, paciente, que sabe esperar a hora certa para dar o bote - tal como a serpente que, astuta e ardilosamente, acabou provocando nossa expulsão do paraíso. Só entra em cena na condição de convidado e quando a porta foi finalmente deixada escancarada.

Felizmente, como todo tipo de veneno tem seu antídoto, o veneno do ódio também tem o seu: chama-se “amor”. Francisco, - que até onde se sabe não teria contraído vínculo conjugal - parecia saber disso como ninguém. Por isso suplicou: “onde houver ódio, que eu leve o amor! Onde houver ofensa, que eu leve o perdão!”. Mas, como negacionismo e automedicação existem em toda parte, com o amor conjugal não poderia ser diferente. E assim muitos cônjuges, ao experimentarem o ódio dilacerante decorrente de uma traição ou grave infidelidade, se recusam a acreditar na eficácia do amor, convictos de que existem soluções mais criativas e mais eficazes - não é raro que certos terapeutas, passando ou tendo passado por situações semelhantes, acabem validando tais experiências. Dessa forma, não hesitam em lançar mão de suas criativas criações, muitas delas, na prática, verdadeiras gambiarras. Uns entendem que pagar com a mesma moeda é, sem dúvida, a melhor saída: olho por olho, dente por dente; outros acreditam que romper definitivamente o vínculo é a forma mais contundente e convincente de expressar a intensidade do ódio que estão sentindo; outros ainda, decidem viver uma relação paralela apenas como forma de ferir para sempre o perpetrador do delito; certo grupo decide recorrer ao silêncio absoluto como punição tida por eficaz e eficiente, como se a supressão do diálogo provocada pelo celular, por si só, não bastasse; outro grupo decide entregar-se a humilhações mútuas, prolongando deliberadamente a dor e aumentando-a ainda mais; há ainda os que passam a manipular emocionalmente o parceiro, usando culpa e chantagem como formas de controle; e, por fim, não faltam os que mergulham numa frieza calculada, convivendo sob o mesmo teto, recusando sexo e afeto, apenas para que o outro “sinta na pele” o deserto afetivo que decidiram impor como pena. É impressionante constatar como a criatividade na automedicação em substituição ao amor não tem limites. A grande maioria dessas engenhocas emocionais - senão todas - não passam de artefatos que se assemelham a certo tipo de míssil que, quando disparado, produz efeito semelhante ao de uma bomba atômica:  espalha fragmentos dilacerantes e destruição brutal para todos os lados.

"Se não podes amar, cessa ao menos de odiar": essa é a máxima da misericórdia sob forma de perdão, sugerida por André Comte-Sponville, em seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. Mas, como se sabe, o ódio não se extingue por decreto, desejo ou intimidação da vontade. A ciência psicológica, mais realista - mas nem por isso menos otimista - que o reducionismo simplista presente em certas abordagens religiosas, sugere um processo gradual e progressivo de dessensibilização e ressensibilização, partindo do pressuposto de que, se certas atitudes são tão víciosas ao ponto de transformar o amor em ódio, existem condutas tão virtuosas ao ponto de conseguir transmutar o ódio em amor. Lou Marinoff, com tonalidades mais filosóficas que psicológicas, resumiu da seguinte forma esse processo de dessensibilização e ressenssibilização sugerido pela psicologia: "primeiro passo: dê, a quem o feriu profundamente, um dom de amor hoje. Pode ser tão pouco quanto um bom pensamento, um gesto de consideração, uma gentileza não solicitada. Segundo passo: permita que o ofensor lhe dê um dom de amor hoje. Mais uma vez, sua magnitude não é importante. Terceiro passo: se há alguém que você odeie, tome providências imediatas para transformar seu ódio em desagrado, o desagrado em pequeno incômodo, e o pequeno incômodo em indiferença. Quarto passo: agora que você liberou energia que costumava estar presa ao ódio, que era um mau investimento, volte a primeiro passo e invista essa energia em amor". Difícil, mas não impossível. Um esclarecimento importante pode ajudar a abrir mão da automedicação e evitar o negacionismo: perdoar não é apagar a falta, esquecer ou redimir completamente, como sugerem certas tradições religiosas. Isso é absolvição. “O passado é irrevogável, e nem Deus pode fazer com que o que foi feito não o tenha sido”, ensinava Descartes. Conscientizar-se dessa verdade, sem permitir que a culpa se instale, torna a "pre"disposição para o perdão mais generosa e menos onerosa. E como ninguém está isento de erro - “quem não tiver pecado que atire a primeira pedra” - Francisco nos lembra, ao final de sua Oração, que é dando que se recebe, que é perdoando que se é perdoado. Uma coisa é absolutamente certa: todo ato ou atitude com o potencial de despertar o pior de nós - nossa capacidade de odiar - é e será sempre, ao mesmíssimo tempo, um termômetro a testar a magnitude do nosso amor, bem como o grau de congruência entre o amor declarado e jurado em forma de promessa, e o amor real, concreto e efetivamente manifesto.

Obs.: esta terceira parte, tópicos 01 e 02, continua e será completada com a quarta parte, de mesmo título.

( * ) Texto enviado pelo autor de Vitória (ES)via WhatApp.

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