4.2- 4 de
janeiro – EPIFANIA DO SENHOR
Por Junior Vasconcelos do Amaral*
Jesus, o Filho de Deus
I. INTRODUÇÃO GERAL
A solenidade da Epifania
do Senhor nos convida a contemplar Jesus, o Senhor que nos salva. Epifania, do
latim, significa “manifestação”. Na celebração deste domingo, Jesus se
manifesta ao mundo como Salvador da humanidade. Aquele que assumiu a carne
humana também a redimirá, no mistério de sua paixão e cruz. Na primeira
leitura, ouvimos Isaías, que busca recuperar a esperança dos exilados para
reconstruírem juntos Jerusalém: a luz chegou para seu povo que vivia na
escuridão. O Evangelho nos convida a olhar para a manjedoura de Jesus em seu
Natal e contemplar o amor de Deus por nossa humanidade. Na fragilidade de um
menino, Deus revela sua força vital. Ele veio nos visitar, humanizou-se entre
nós. Com os magos, somos convidados a oferecer a Cristo ouro, incenso e mirra,
bem como ofertar aos que sofrem a esperança, o amor e a paz. Na segunda
leitura, Paulo convida os irmãos e irmãs da comunidade de Éfeso a admitir a
todos no corpo de Cristo, que é a Igreja. Paulo nos faz lembrar o papa
Francisco, de saudosa memória: “Na Igreja há lugar para todos, todos e todos!”
Todos somos chamados a crer na pessoa de Jesus Cristo e a ver nele a salvação
para o descompasso da humanidade, perdida em si mesma, dilacerada por
discórdias e guerras que desumanizam e desfiguram a imagem do ser humano, feito
à imagem e semelhança de Deus.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
2. I leitura (Is 60,1-6)
Isaías, no seu terceiro
livro, convida todos os ouvintes e leitores a contemplar a glória de Jerusalém.
Essa passagem está ligada a um contexto de pós-exílio, no qual o profeta, como
porta-voz de Deus, repete a mensagem consoladora do Senhor à comunidade que
retornou da Babilônia, cuja fé e esperança devem ser sustentadas. A princípio,
no v. 1, o profeta convida Jerusalém a pôr-se em pé, com o sentido de prontidão
para servir, “porque tua luz é chegada, a glória do Senhor raia sobre ti”. A
terra, contudo, está coberta de trevas, alerta o profeta, e a escuridão envolve
as nações. Sobre Israel levanta-se o Senhor Adonai (v. 2). Sob a luz caminharão
as nações, e os reis no clarão do sol nascente (v. 3).
O profeta, no v. 4, pede que Jerusalém erga os olhos e veja que
todos se reúnem e vêm até ela. A imagem é dos filhos que vêm de longe e as
filhas carregadas em suas ancas (v. 4). Tal imagem mostra Jerusalém como mãe
que cuida, que dá de si para a vida dos filhos, que os ensina a caminhar. É um
tempo novo, como atesta o v. 5, pois as riquezas virão de além-mar, virão para
ela os tesouros das nações. Uma horda de camelos inundará a cidade, os
camelinhos de Madiã e Efa, todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso,
proclamando os louvores do Senhor (v. 6). Tais ofertas aludem à visita ao
rei-messias, imagem que prefigura aqueles que visitam Jesus, como atestará Mt
2,11. Esse tempo messiânico que inspira o profeta faz lembrar a glória de
Jerusalém, cidade santa e bem edificada, morada do grande Rei, o Senhor.
A shequinah do
Senhor lá está, e a ela as pessoas se dirigem para oferecer incenso e ouro,
oblatas que indicam a divindade e a realeza do Senhor de Israel, Adonai.
2. II leitura (Ef 3,2-3a.5-6)
Paulo, dirigindo-se aos
efésios, trata sobre o mistério de Deus revelado em Cristo, que ele, por dom de
Deus e pura gratuidade, é capaz de acolher, assim como nós acolhemos tal
mistério em sua epifania, manifestação-doação. Deus se revela na história
humana por meio de uma pessoa, Jesus Cristo. Assim, temos hoje o encontro não
com uma doutrina, com um dogma, com uma verdade, mas com uma pessoa, que pode
nos levar à salvação. A fé cristã é uma proposta de alteridade que salva. Ao olharmos
para a face do Senhor, que assumiu nossa condição humana, com exceção do
pecado, somos configurados em novas criaturas salvas. O que Deus revelou
outrora, ele agora revela a nós por seus profetas e santos apóstolos, em Jesus
Cristo. Todos somos membros do corpo de Cristo, que é a Igreja, e esta tem hoje
uma missão especial de anunciar Jesus Cristo ao mundo, revelando-o a todos e
todas, em vista da salvação. A eclesiologia de Paulo em Efésios está ligada
intrinsecamente à cristologia. Há uma eclesiologia, pois existe uma missão
soteriológica de Cristo, que desejou que sua Igreja fosse construtora de pontes
a fim de que todos possam participar da vida divina e celestial.
3. Evangelho (Mt 2,1-12)
Belém, que em hebraico significa “casa do pão”, é um lugar especial
para a fé judaica e cristã. Lá nasceu o rei Davi e, tradicionalmente, se
considera que é a cidade de nascimento de Jesus, onde hoje está situada a
basílica da Natividade. Belém era a cidade da bisavó de Davi, Rute (Rt 1,1-4),
e de sua família (1Sm 16; 17,12). Uma citação de Mq 5,1 foi mudada por Mt de
“clãs de Judá” para “regentes de Judá”, a fim de realçar o aspecto messiânico,
acrescentando “apascentará Israel, o meu povo” de 2Sm 5,2. A narrativa de
Mateus afirma que, no tempo do rei Herodes, tendo nascido Jesus em Belém,
vieram magos do Oriente a Jerusalém, perguntando: “Onde está o rei dos judeus
recém-nascido?” (v. 2). Tal questão alerta Herodes e, com ele, toda a cidade de
Jerusalém. Para Herodes, não poderia existir outro rei que colocasse seu trono
em xeque, seu poder em disputa. Herodes, o Grande, era um rex socius de
Roma (rei vassalo do império) que governou de 37 a 4 a.C., uma figura forte e
igualmente citada em Lc 1,5 como “o rei da Judeia”.
Os magos, por sua vez, seguiram a estrela, desde seu surgimento,
no Oriente, e vieram para homenagear o Senhor. Os magos podem ser entendidos
como uma casta de sábios astrólogos ou intérpretes dos sonhos, ligados também
ao zoroastrismo, religião persa que definia o mundo como uma oposição entre bem
e mal. Eles são apenas citados por Mateus, mas, na tradição cristã posterior,
tornaram-se reis, à luz da interpretação do Sl 72,10: “Os reis de Társis e das
ilhas trarão presentes; os reis de Sabá e de Seba oferecerão dons”, e de textos
como Is 49,7 e 60,10. Uma espécie de midrash faz
essas figuras do passado darem sentido à presença dos magos que visitam o Filho
de Deus com presentes. Por fim, foram nomeados como Gaspar, Baltasar e
Melquior, representando os gentios.
Ao chegarem ao lugar, os
magos viram o menino deitado na manjedoura e sua Mãe. Em seguida, ofereceram,
tal como na primeira leitura, ofertas ao Rei-Messias: ouro, incenso e mirra. O
ouro é símbolo da realeza de Jesus. O incenso simboliza sua divindade, e a
mirra constitui sinal de sua humanidade, que será, no fim do Evangelho, ungida
para o sepulcro em vista da ressurreição. O v. 12 conclui o relato desta
celebração, dizendo que os magos tomaram outra direção e voltaram para sua
terra sem terem voltado a Herodes, que certamente esperava informações precisas
sobre onde o menino teria nascido. Voltar por outro caminho deflagra um novo
caminho tomado pelos magos: não o caminho do poder, mas o do discipulado; não o
caminho que lhes garantiria uma recompensa, mas o do abandono, do sair de si
para ir ao encontro dos outros, que certamente vão ouvir deles algo sobre o
menino Jesus, nascido em Belém. Eles caminham na direção contrária para nos
indicar que o caminho do cristão é o mundo, o qual deve ser lugar do anúncio de
Jesus, como nos apontou o papa Francisco no adágio “Igreja em estado permanente
de missão” – portanto, “Igreja em saída” para as fronteiras e periferias
existenciais.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Compreender que a
unidade das três leituras objetiva que toda pessoa humana tenha acolhimento na
comunidade dos fiéis e seja luz para os escombros do mundo, sobretudo para os
que vivem em suas “trincheiras”. Perceber que o Natal do Senhor renova nossa esperança
de um mundo mais justo e solidário, pois Deus mesmo veio visitar nossa
história. Epifania é essa manifestação divina na história da humanidade. Propor
que a comunidade litúrgica se sinta chamada, nesta liturgia, a unir-se sempre
mais como corpo de Cristo, convidada à salvação em Cristo. Por fim, despertar
em cada fiel o propósito de ofertar-se ao Senhor tal qual os magos outrora, que
o presentearam com ouro, incenso e mirra, ofertando aos mais necessitados o pão
físico e espiritual, da própria existência. Assim, podemos ser um “alimento”
para a vida dos outros.
Junior Vasconcelos do Amaral*
*é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário
episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança (Rense). Doutor em
Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje),
realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”,
estudando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain
(Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de Antigo e Novo Testamentos
na PUC-Minas, em Belo Horizonte, e desenvolve pesquisa sobre psicanálise e
Bíblia. É psicanalista clínico. E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/4-de-janeiro-epifania-do-senhor-2/
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