7- MENSAGEM DO PAPA LEÃO XIV PARA O 100 º DIA MUNDIAL DAS
MISSÕES
Um em Cristo, unidos na missão
Queridos
irmãos e irmãs!
Para
o Dia Mundial das Missões de 2026, que marca o centenário desta celebração,
instituída por Pio XI e tão estimada pela Igreja,
escolhi o tema «Um em Cristo, unidos na missão». Após o Ano Jubilar, desejo
exortar toda a Igreja a prosseguir o caminho missionário com alegria e zelo no
Espírito Santo, o que requer corações unificados em Cristo, comunidades
reconciliadas e, em todos, disponibilidade para colaborar com generosidade e
confiança.
Refletindo
sobre o nosso ser um em Cristo e unidos na missão, deixemo-nos guiar e inspirar
pela graça divina, para «renovar em nós o fogo da vocação missionária» e
avançar juntos no empenho pela evangelização, numa «nova era missionária» na
história da Igreja (Homilia na Missa pelo Jubileu do Mundo
Missionário e dos Migrantes,
5 de outubro de 2025).
1.
Um em Cristo. Discípulos-missionários
unidos n’Ele e com os irmãos e irmãs
No
centro da missão está o mistério da união com Cristo. Antes da sua Paixão,
Jesus orou ao Pai: «Para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu
em ti; para que assim eles estejam em Nós» (Jo 17, 21). Nestas palavras,
revela-se o desejo mais profundo do Senhor Jesus e, ao mesmo tempo, a
identidade da Igreja, comunidade dos seus discípulos: ser uma comunhão que
nasce da Trindade e que vive da e na Trindade, ao serviço da fraternidade entre
todos os seres humanos e da harmonia com todas as criaturas.
Ser
cristão não é, em primeiro lugar, um conjunto de práticas ou ideias: é uma vida
em união com Cristo, na qual nos tornamos participantes da relação filial que
Ele vive com o Pai no Espírito Santo. Significa permanecer em Cristo como os
ramos na videira (cf. Jo 15, 4), imersos na vida trinitária. Desta
união, brota a comunhão recíproca entre os crentes e nasce toda a fecundidade
missionária. Sim, como ensinou São João Paulo II, a comunhão representa a fonte e,
simultaneamente, o fruto da missão (cf. Exort. ap. Christifideles
laici, 32).
Sendo
assim, a primeira responsabilidade missionária da Igreja é renovar e manter
viva a unidade espiritual e fraterna entre os seus membros. Em muitas
situações, assistimos a conflitos, polarizações, incompreensões, desconfiança
mútua. Quando, também nas nossas comunidades, isto acontece, o seu testemunho enfraquece.
A missão evangelizadora, que Cristo confiou aos discípulos, requer
primeiramente corações reconciliados e desejosos de comunhão. Nesta ótica, será
importante intensificar o compromisso ecuménico com todas as Igrejas cristãs,
aproveitando também as oportunidades suscitadas pela comum celebração do 1700.º aniversário
do Concílio de Nicéia.
Por
último, mas não menos importante, ser «um em Cristo» chama-nos a manter sempre
o olhar voltado para o Senhor, para que Ele esteja verdadeiramente no centro da
vida pessoal e comunitária, de cada palavra, ação, relação interpessoal, de
modo a fazer-nos dizer com admiração: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que
vive em mim» (Gl 2, 20). Isto será possível na escuta constante da sua
Palavra e na graça dos Sacramentos, para sermos pedras vivas da Igreja, chamada
hoje a recolher as instâncias fundamentais do Concílio Vaticano II e do subsequente Magistério
pontifício, em particular, do Papa Francisco. Realmente, como afirma São Paulo,
«não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor» (2 Cor 4,
5). Reitero, portanto, as palavras de São Paulo VI: «Não haverá nunca evangelização
verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino, o mistério de
Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados» (Exort. ap. Evangelii
nuntiandi, 22). Tal processo de genuína evangelização começa a partir
do coração de cada cristão para depois se expandir a toda a humanidade.
Por
conseguinte, quanto mais estivermos unidos em Cristo, mais poderemos realizar
juntos a missão que Ele nos confia.
2. Unidos na missão.
Para que o mundo creia em Cristo Senhor
A
unidade dos discípulos não é um fim em si mesma: ela está orientada para a
missão. Jesus afirma-o com clareza: «para que assim […] o mundo creia que Tu me
enviaste» (Jo 17, 21). É no testemunho de uma comunidade reconciliada,
fraterna e solidária que o anúncio do Evangelho encontra toda a sua força
comunicativa.
Nesta
perspectiva, vale a pena recordar o lema do Beato Paulo Manna: «Toda a Igreja
para o mundo inteiro», que expressa sinteticamente o ideal que animou a
fundação, em 1916, da Pontifícia União Missionária. A ela, no seu 110.º
aniversário, pelo empenho em animar e formar o espírito missionário de
sacerdotes, pessoas consagradas e fiéis leigos, favorecendo a união de todas as
forças evangelizadoras, vai o meu reconhecimento e a minha bênção. Com efeito,
nenhum batizado é estranho ou indiferente à missão: todos, cada um segundo a
sua vocação e condição de vida, participam na grande obra que Cristo confia à
sua Igreja. Como o Papa Francisco recordou mais de uma vez, o anúncio do
Evangelho é sempre uma ação conjunta, comunitária, sinodal.
Por
isso, estar unidos na missão significa guardar e alimentar a espiritualidade de
comunhão e colaboração missionária. Crescendo dia a dia nessa atitude,
aprendemos com a graça divina a olhar cada vez mais para os nossos irmãos e
irmãs com olhos de fé, a reconhecer com alegria o bem que o Espírito suscita em
cada um, a acolher a diversidade como riqueza, a carregar os fardos uns dos
outros e a buscar constantemente a unidade que vem do Alto. Pois temos juntos
uma única missão que nos vem de «um só Senhor, uma só fé, um só baptismo; um só
Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por todos e permanece em todos»
(Ef 4, 5-6). Esta espiritualidade constitui a forma quotidiana do
discipulado missionário. Ela ajuda-nos a recuperar uma visão universal da
missão evangelizadora da Igreja, superando a fragmentação dos esforços e
divisões de facções – “de Paulo”, “de Apolo” – entre os seguidores do único
Senhor (cf. 1 Cor 1, 10-12).
Obviamente,
a unidade missionária não deve ser entendida como uniformidade, mas como
convergência dos diferentes carismas para o mesmo objetivo: tornar visível o
amor de Cristo e convidar todos a um encontro com Ele. A evangelização
realiza-se quando as comunidades locais colaboram entre si e quando as
diferenças culturais, espirituais e litúrgicas se expressam plena e
harmoniosamente na mesma fé. Encorajo, deste modo, as instituições e realidades
eclesiais a fortalecer o sentido de comunhão missionária eclesial e a
desenvolver com criatividade formas concretas de colaboração entre si para a
missão e na missão.
A
propósito, agradeço às Pontifícias Obras Missionárias pelo serviço à
cooperação missionária, que experimentei com apreço já durante o meu ministério
no Peru. Estas obras – Propagação da Fé, Infância
Missionária, São Pedro Apóstolo e União Missionária –
continuam a alimentar e a formar a consciência missionária dos fiéis, seja dos
pequenos aos crescidos, e a promover uma rede de oração e caridade que une as
comunidades de todo o mundo. É significativo que a fundadora da Obra para
a Propagação da Fé, a Beata Pauline Marie Jaricot, tenha idealizado, há
duzentos anos, o Rosário Vivo, que ainda hoje reúne à distância numerosos fiéis
em grupos para rezar pelas necessidades espirituais e missionárias. É
importante recordar que, precisamente a partir de uma proposta da Obra
para a Propagação da Fé, Pio XI instituiu, em 1926, a celebração
do Dia Mundial das Missões, cujas ofertas recolhidas anualmente são por ela
distribuídas, em nome do Papa, para as várias necessidades da missão da Igreja.
Desta forma, as quatro Obras, em conjunto e cada uma na sua especificidade,
continuam a desempenhar um papel precioso para toda a Igreja. Elas são um sinal
vivo da unidade e da comunhão missionária eclesial. Convido todos a colaborar
com elas com espírito de gratidão.
3. Missão do amor.
Anunciar, viver e partilhar o amor fiel de Deus
Se
a unidade é a condição da missão, o amor é a sua essência. A Boa Nova que somos
enviados a anunciar ao mundo não é um ideal abstrato: é o Evangelho do amor
fiel de Deus, encarnado no rosto e na vida de Jesus Cristo.
A
missão dos discípulos e de toda a Igreja é a continuação, no Espírito Santo, da
missão de Cristo: uma missão que nasce do amor, que se vive no amor e que
conduz ao amor. Tanto é verdade que o próprio Senhor, na sua grande oração ao
Pai antes da Paixão, depois de invocar a unidade dos discípulos, conclui assim:
«O amor que me tiveste esteja neles e Eu esteja neles também» (Jo 17, 26).
Os Apóstolos, portanto, evangelizaram movidos pelo amor de Cristo e por Cristo
(cf. 2 Cor 5, 14). Da mesma forma, ao longo dos séculos, numerosos
cristãos, mártires, confessores, missionários, deram a vida para dar a conhecer
este amor divino ao mundo. Assim, a missão evangelizadora da Igreja continua
guiada pelo Espírito Santo, Espírito de amor, até ao fim dos tempos.
Por
isso, desejo agradecer especialmente aos atuais missionários e
missionárias ad gentes: pessoas que, como São Francisco Xavier, deixaram a
sua terra, a sua família e as seguranças para anunciar o Evangelho, levando
Cristo e o seu amor a lugares muitas vezes difíceis, pobres, marcados por
conflitos ou culturalmente distantes. Apesar das adversidades e dos limites
humanos, eles continuam a doar-se com alegria porque sabem que o próprio
Cristo, com o seu Evangelho, é a maior riqueza a partilhar. Com a sua
perseverança, mostram que o amor de Deus é mais forte do que qualquer barreira.
O mundo ainda precisa destes corajosos testemunhos de Cristo, e também as
comunidades eclesiais necessitam de novas vocações missionárias, que devemos
sempre ter no coração e rezar continuamente por elas ao Pai. Que Ele nos
conceda o dom de jovens e adultos dispostos a deixar tudo para seguir Cristo no
caminho da evangelização até aos confins da terra!
Admirando
os missionários e as missionárias, faço um apelo especial à Igreja: unirmo-nos
todos a eles na missão evangelizadora através do testemunho da vida em Cristo,
da oração e do contributo para as missões. Muitas vezes, bem o sabemos, «o Amor
não é amado», como disse São Francisco de Assis, a quem olhamos de modo
particular pelos oitocentos anos do seu trânsito para o Céu. Deixemo-nos
contagiar pelo seu desejo de viver no amor do Senhor e de o transmitir ao
próximo e ao distante, porque, como ele afirmava, «muito se deve amar o amor
d’Aquele que muito nos amou» (São Boaventura de Bagnoregio, Legenda Maior,
cap. IX, 1; Fontes franciscanas, 1161). Sentimo-nos também estimulados
pelo zelo de Santa Teresinha do Menino Jesus, que se propôs continuar a sua
missão mesmo depois da morte, declarando: «No Céu, desejarei a mesma coisa que
na terra: amar Jesus e fazê-Lo amar» (Carta ao reverendo M. Bellière, 24 de
fevereiro de 1897).
Animados
por estes testemunhos, comprometamo-nos todos a contribuir, cada um segundo a
própria vocação e dons recebidos, para a grande missão evangelizadora, que é
sempre obra do amor. As vossas orações e o vosso apoio concreto, especialmente
por ocasião do Dia Mundial das Missões, serão uma grande ajuda para levar o
Evangelho do amor de Deus a todos, especialmente aos mais pobres e
necessitados. Cada dom, mesmo o menor entre eles, torna-se um ato significativo
de comunhão missionária. Por isso, renovo o meu sincero agradecimento «por tudo
o que fareis para me ajudar a ajudar os missionários em todo o mundo» (Videomensagem
para o Dia Mundial das Missões 2025). E para promover a comunhão
espiritual, deixo-vos, com a minha bênção, esta simples oração:
Pai santo, concedei-nos
ser um em Cristo, enraizados no seu amor que une e renova. Fazei que todos os
membros da Igreja sejam unidos na missão, dóceis ao Espírito Santo, corajosos
no testemunho do Evangelho, anunciando e encarnando todos os dias o vosso amor
fiel por cada criatura.
Abençoai os missionários
e as missionárias, sustentai-os no seu esforço, guardai-os na esperança!
Maria, Rainha das
missões, acompanhai a nossa obra evangelizadora em todos os cantos da terra:
tornai-vos instrumentos de paz e fazei que o mundo inteiro reconheça em Cristo
a luz que salva. Amém.
Vaticano,
no III domingo do Tempo Comum, Festa da Conversão de São Paulo Apóstolo, 25 de
janeiro de 2026
LEÃO PP. XIV
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